Prólogo
So don’t say that you just want to run away
(Então não diga que você só quer fugir)
Replay all the things that I tried to say
(Repita todas as coisas que eu tentei dizer)
I’m 21 so you getting off
(Eu tenho 21, você está saindo)
I’m coming over
(Eu estou chegando)
Quando algo desastroso acontece, você começa a questionar o sentido de tudo. Mergulha em reflexões que jamais imaginaria fazer e que em situações comuns você ficaria tipo “pare de pensar sobre isso e viva a vida”. Mas simplesmente sua vida está completamente ferrada, então o que resta é pensar em tudo o que fez e se arrepender até seus olhos secarem. E se eu não tivesse ido? Se eu tivesse ficado, nada disso teria acontecido. Seria a mesma coisa? Não. Por que eu? Porque é assim e não há nada pra fazer, já está feito. Por que não eu? Porque tudo tem que dar certo? As coisas acontecem por algum motivo, nada é em vão. Qualquer fato tem sua conseqüência, por mais que você não perceba. Tudo é assim. Você só tem que viver mas mesmo assim complica algo óbvio.
E como eu compliquei.
Sabe quando você soluça e chora ao mesmo tempo? É, eu estava assim, voltando pra Londres. Duas pessoas chegaram a perguntar se eu estava perdida e queria alguma ajuda, de tão grave que era o negócio. Na verdade eu não sabia o motivo concreto que me fazia ficar tão emotiva. Ou eu sabia muito bem, porque era um emaranhado de acontecimentos e sentimentos, tudo passando rápido pela minha cabeça. Eu estava tão confusa que não conseguia nem definir nada.
E eu continuava, lá no fundo, tentando omitir o fato de estar completamente apaixonada pelo meu próprio primo.
Quando estamos sentindo algo que, pela sociedade e pela ordem natural, é errado, ficamos afirmando o contrário na nossa mente, tentando nos convencer do oposto. O problema é que não estava mais funcionando comigo, era tão forte que nada que eu pensasse ou tentasse colocar no lugar ficava por muito tempo. E o curioso de tudo é que quanto mais eu me afastava de Bolton, mais aquilo ficava claro e estampado no meu rosto. A distância e a ausência fazem com que o sentimento se triplique e o desespero tome conta de nós.
E o pior de tudo era que, além de tudo isso, da impossibilidade de qualquer coisa dar certo, ele iria ter um filho de outra garota.
Acho que arrasada seria o melhor adjetivo para me descrever naquele momento. Arrasada, chocada, desesperada, deprimida, perdida... Tudo misturado, juntos formavam o meu interior detonado.
E quando eu achava que todos os fatos já estavam expostos com seus devidos representantes sentimentais delimitados, mais coisas preenchiam a minha cabeça. Eu provavelmente não o veria por um bom tempo, ele iria para Oxford e provavelmente assumiria sua família por lá, enquanto eu teria de me virar para sempre em Londres. Com a sensação eterna de que algo estava errado e faltando.
Cheguei na estação de St. Pancras completamente atrasada, ou achava que estava, porque já eram nove horas da noite e provavelmente já estaria entrando na sala de cirurgia. Meu pai me esperava no meio de todos aqueles desconhecidos e não demorei para encontrá-lo. O abracei rapidamente, tentando esconder a expressão de quem passara um dia inteiro chorando (eu realmente tinha passado um dia inteiro chorando).
- Como está? – perguntou ele me encarando e eu olhei pro chão.
- Bem. Desculpe atrapalhar seus planos, mas precisa de mim.
- Tudo bem, não se preocupe com isso. Onde ele está?
- No London Bridge. Pode me levar até lá?
- Claro, vamos. – concordou ele, pegando as minhas malas.
Por mais que eu estivesse me sentindo totalmente desequilibrada e deprimida, era bom estar de volta. Eu pertencia àquela cidade, meu lugar era ali. Não conseguiria me imaginar em outro lugar sem ser em Londres. Aquilo me deixou um pouco melhor, mas logo toda a melancolia voltaria e nada poderia me deixar pra cima mais.
Bem, talvez uma pessoa conseguiria fazer isso.
Pensando nisso senti minha boca sorrir involuntariamente e por um momento me imaginei abraçando novamente, sentindo o seu abraço apertado. tinha uma forma de abraçar que dava a impressão de que estávamos sempre nos despedindo dolorosamente, era tão forte e tão cheio de sentimentos.
Eu definitivamente precisava daquele abraço mais do que qualquer coisa e até eu não o fazer aquele peso enorme nas minhas costas não iria dar uma folga.
O trânsito em Londres não mudava nunca, podia ser férias, feriado, dia normal, que a quantidade imensa de carros não iria diminuir. Isso nos fez atrasar uma hora, eu estava quase desistindo de ir de carro – se eu começasse a correr em direção ao hospital pelo menos daria a impressão de que eu estava indo mais rápido, por mais que aquilo fosse apenas uma impressão.
Quando entramos na recepção do hospital eu estava disparada na frente do meu pai como se eu soubesse pra onde ir.
- , dá pra se acalmar? Ele deve estar no meio da cirurgia agora, não vai adiantar nada essa pressa toda. – ouvi a voz de meu pai ecoar na recepção silenciosa. Nos aproximamos do balcão da recepcionista.
- Como posso ajudá-los? – perguntou a mulher gorda entediada do outro lado do balcão.
- Meu amigo foi internado, ele vai fazer ou deve estar fazendo uma cirurgia pra remover o apêndice.
- Como é o nome dele? – Ela me encarava sem nenhuma demonstração de comoção por estar com apendicite. Bom, provavelmente ela deveria ver milhões de pessoas com apendicite por dia naquele hospital, e por isso achava que tinha o direito de fazer pouco caso.
- . – respondi apreensiva começando a batucar no mármore. Ela encarou meus dedos pausadamente e depois olhou pra tela do computador, digitando o nome de .
- Ele está no quinto andar, lá eles lhe informarão qual é a situação do garoto. Como se chamam?
Ela abriu a gaveta e tirou dois adesivos brancos de dentro.
- Jones e Jack Jones. – respondeu meu pai percebendo que eu estava demorando pra responder. Ela escreveu nossos nomes nos adesivos e nos entregou. Agradecemos e nos afastamos pro elevador.
- Eu vou passar a noite aqui com o . – Já fui avisando enquanto colava o adesivo por cima do moletom.
- Você nem sabe se ele vai passar a noite aqui.
- Claro que vai, quem é que tira o apêndice e volta pra casa como se tivesse ido comprar pão?
- Tudo bem , depois resolvemos isso. – disse meu pai impaciente, clicando no quinto andar do painel. – Como foi nessa mísera uma semana na fazenda?
Engoli em seco e senti meu coração acelerar.
- Normal, nada de empolgante. Sabe como eu não gosto de natureza.
Ele me olhou com um ar de reprovação familiar.
- Vai me fazer voltar?
- Eu bem que gostaria que você voltasse, mas não vou te obrigar mais a fazer nada que não quiser. Pelo menos você reviu seus avós e seus primos.
Não respondi. Estava sentindo que ele estava bravo comigo e não queria piorar a situação. Não sei porque mas eu tinha a sensação de que todo mundo sabia do que eu tinha feito e se eu desse algum deslize as pessoas iam começar a verbalizar o fato. Graças a Deus nossa mente é particular e pelo menos nela temos privacidade e somos livres pra sermos o quão confusos e perdidos quisermos. Esqueci momentaneamente do assunto quando as portas do elevador se abriram e um vasto corredor branco e iluminado surgiu na minha frente.
Engoli em seco e coloquei as mãos no bolso do casaco enquanto saía do elevador junto com meu pai. Tentei não parecer muito apressada e desesperada até chegarmos ao balcão de informações daquele andar, onde as enfermeiras ficavam. Não precisamos nos dar ao trabalho de perguntar nada, uma voz preencheu o corredor logo que surgimos no balcão em frente à sala de espera.
- Não acredito que o fez vocês virem até aqui!
A mãe de se aproximou da gente com um ar maternal e nos cumprimentou, parecendo estar ali já a bastante tempo. O que eu perdi, afinal?
- Não, senhora , eu vim por conta própria. Ele até disse pra eu não vir, mas é do que estamos falando, eu não poderia deixá-lo sozinho. – falei com um sorriso discreto e ela me deu um abraço esmagador. A senhora sempre gostou de mim mais do que qualquer outra garota que tenha aparecido na vida de , sem querer me gabar, mas ela realmente acha que nós temos um caso. E ela adora isso.
- está descansando, saiu da cirurgia já faz uma hora. Vá ver se ele pode te receber enquanto eu falo com o seu pai, é o quarto 522.
Concordei com a cabeça, vibrando por dentro pelo fato de poder vê-lo sozinha. Já seria bem tenso olhar pra ele depois de tudo o que aconteceu. Na verdade qualquer coisa que eu vá fazer daqui em diante vai ser tenso, eu preciso me internar numa clínica de reabilitação. Reabilitação cardíaca.
Fiquei tonta de tanto encarar os números das portas e andar rápido ao mesmo tempo, mas finalmente achei o quarto 522, que era no final do corredor. Senti minhas mãos tremerem levemente, mas preferi ignorar. Respirei fundo umas vinte vezes e bati na porta.
Não houve resposta.
Abri devagar e entrei, fechando a porta devagar atrás de mim. O quarto estava demasiado escuro, apenas iluminado pelo abajur na cabeceira da maca onde dormia. . Sorri instantaneamente quando encarei seu rosto sereno e sem preocupações, dormindo na minha frente. Fiquei alguns segundos o observando e repassando em minha mente o que eu sempre soube – não conseguiria viver sem ele. Dei alguns passos cuidadosos até a beirada da maca e acariciei seus cabelos, mas ele não deu sinal de vida. Com certeza estava sob algum medicamente, sua respiração era profunda. Deveria acordá-lo?
Depositei um beijo em sua bochecha, acreditando que seria impossível ele acordar daquele sono concentrado dele. Errado.
abriu os olhos e demorou algum tempo até me focalizar, e quando o fez abriu o maior sorriso que pode no momento.
- ... – sussurrou ele segurando minha mão que estava apoiada no colchão ao seu lado. – Volte pro mato, estou interrompendo seu trabalho no campo.
Não acredito que até nessas horas ele conseguia fazer piadinhas.
- , dá pra você esquecer isso? Eu estou aqui e não vou mais voltar. Como está?
Ele se mexeu um pouco e fez uma expressão de dor.
- Como se tivessem arrancado meu apêndice.
- Bom, na verdade eles fizeram isso.
- Exato. – murmurou ele sorrindo e acariciou meu rosto, me fazendo corar e aumentar a freqüência cardíaca mil vezes mais do que o normal. Não sei porque eu ainda fico assim, depois de todos esses anos ao seu lado.
- Não teria sido tão incrível na Califórnia sem você. Eu sei que estava esperando ouvir isso.
Semicerrei os olhos para a sua ironia.
- Quando eu estiver sóbrio você vai me contar tudo o que aconteceu naquela fazenda, porque eu sei que tem muita coisa fervendo aí nessa sua cabecinha confusa.
Wow. O encarei sem expressão por um tempo, do que esse garoto sabia? Por acaso implantou algum chip no meu corpo e observou todos os meus passos?
- Por que diz isso?
- Porque eu realmente te conheço mais do que qualquer pessoa nesse mundo. Agora me dê um abraço, estou sentindo falta disso.
Sorri e me aproximei dele, o envolvendo com cuidado. Ficamos abraçados por um longo minuto e eu tive a leve sensação de que eu talvez fosse ficar bem. Ele tinha esse poder de encostar em mim e fazer todos os meus problemas evaporarem. Talvez fosse disso que eu precisava.
O frio agonizante e prematuro de novembro fez eu me amaldiçoar mentalmente por ter passado a diante a minha jaqueta de couro. Quer dizer, quem é que coloca fora jaquetas de couro? Elas são úteis mesmo no estado posterior ao velho e surrado. Eu precisava renovar o meu guarda-roupa, ainda mais agora que minha vida tinha mudado o rumo e eu me mudaria em breve.
- Ainda estou tentando entender o motivo de você ter trocado Oxford pela Universidade de Londres.
Vovó colocou a mão na testa como se uma dor de cabeça muito forte a estivesse incomodando. Eu era essa dor de cabeça, sem motivo, é claro.
- Quantas vezes a senhora vai me perguntar isso? – murmurei, pegando a carta da Universidade em cima da escrivaninha. – Eu fui aceito. Eles falaram que eu sou um diamante bruto, vovó, preciso ser polido. Por mais que isso seja estranho – encarei o nada tentando decifrar aquela metáfora – Sabe o que significa um garoto do interior ser aceito em uma universidade de Londres? É tipo ganhar o Grammy.
John me encarou com uma expressão irônica. Antes que todos fiquem confusos e perguntando da onde ele surgiu, John é meu melhor amigo de Londres, e estava em Bolton para, além de me visitar, esclarecer as dúvidas da minha família.
- Senhora Jones, eu acho que o seu neto tem toda a razão. As notas dele foram tão altas que chamou a atenção de uma das maiores universidades do mundo. Não acha que ele deve considerar isso? E ainda tem o emprego... Você esqueceu de falar de novo do emprego.
Hm, verdade. Já era a vigésima nona vez que eu listava os motivos da minha mudança interior – metrópole.
E era a vigésima nona vez que eu emitia o principal motivo de ir para Londres.
- Eu já sei do emprego. O que eu quero dizer é que Mary está grávida de você. Vai deixá-la sozinha aqui em Bolton? Danny, querido, já conversamos sobre isso milhares de vezes, não o culpo de ter feito essa burrice – vovó fez uma pausa – na verdade eu culpo sim, seu irresponsável, mas não é o fim do mundo. Acho completamente errado você fugir da garota agora que ela precisa de você. Vai me dizer que não vai assumir a criança?
Aquilo estava parecendo aqueles programas que as pessoas fazem teste de DNA pra provar de quem é o filho.
Na verdade isso é muito estranho. Vou ter um filho. Da garota que eu não amo.
Porque eu simplesmente tinha que me apaixonar pela minha prima, e não pela mãe do meu filho?
EU VOU TER UM FILHO.
Estremeci quando ela tocou nesse assunto.
No dia em que Mary me disse que estava esperando um bebê (o zigoto vinha de mim também) eu fiquei em choque. Acho que foi a pior coisa que já aconteceu comigo, não que eu odeie o bebê, mas eu simplesmente não quero ter um filho agora. Não me preocupei nem um pouco em parecer feliz com a notícia, porque o que eu mais odeio é mentir meus sentimentos. E bom, nem ela estava sorrindo, então eu não tinha obrigação de pegá-la no colo e girar com ela de alegria.
O meu desespero foi em dobro, porque quando você está apaixonado pela menina que vai ter um filho seu, não é lá tão ruim, afinal vai ser tudo natural e a criança vai ser o resultado do amor do casal. E eu não podia facilitar mais ainda escolhendo minha própria prima pra gostar. Eu nem posso me conformar com o “acontece nas melhores famílias”, porque não, isso não acontece nem nas piores famílias.
Mas acho que lidei bem com a situação, e no mês seguinte eu só fiquei tentando entender como Mary conseguira ficar grávida de mim se na única vez que transamos ela tinha tomado anticoncepcional e eu estava usando camisinha. Camisinhas furam, não é? Era a única explicação. Um furo mudou completamente a minha vida.
A única coisa que poderia me alegrar naquele momento era ser aceito na Universidade de Londres, o que aconteceu, me deixando, confesso, pasmo. Garotos do interior não têm muitas esperanças, se quer saber. Além de ser aceito, recebi uma proposta de estágio, o que não me fez pensar duas vezes e deixar meu antigo sonho de ingressar em Oxford para trás.
Até agora eu evitei tocar no assunto principal que rege a minha vida, eu simplesmente não quero que me achem dependente e babaca ao ponto de colocar como objetivo principal ficar com a garota que eu amo. Porque eu simplesmente largaria tudo por ela. Toda essa besteira de universidade e estágio, isso não significa nada perto do que eu sinto por ela. Eu poderia ser um mendigo ignorante, ou um camponês só com a roupa do corpo, mas se eu tivesse ao meu lado, nada disso importaria.
Durante a minha vida inteira eu tive que enterrar o que eu sentia por ela, isso significa que eu poderia desenterrar a qualquer momento (na prática, quando eu a visse novamente) e foi exatamente o que eu fiz. Nosso relacionamento sempre foi regado de brigas, discussões e ódio profundo, até o momento em que nossos instintos não resistiram mais e rolou.
Simples assim, mas ela adora resistir. Ah, e eu não vou negar que é irresistível esse jeito dela de resistir, colocando o orgulho na frente de tudo. O maior prazer do homem é o desafio. Coloque uma garota bonita e que não o queira em sua frente e o objetivo de sua vida, a partir do momento em que for rejeitado, será conquistá-la e levá-la para cama, para depois a encarar de manhã com uma expressão de “eu sabia que era isso que você queria”. Sim, somos uns canalhas desgraçados, mas a verdade é essa, nua e crua. É claro que entre eu e era muito mais do que um simples jogo de sedução. Era muito mais. Até pelo fato de que o que queríamos era proibido, proibido aqui no sentido literal mesmo, vocês com toda a certeza acham incesto um nojo, mas com ela é diferente. Não a vejo como prima ou irmã ou qualquer membro da minha família. A vejo como mulher. Não sei explicar, só sei que é diferente.
E tirá-la de mim bem quando estávamos pela primeira vez realmente juntos (secretamente, claro), foi mais doloroso do que saber que eu iria ter um filho.
E lá vamos nós de novo com o meu filho. Eu simplesmente me sinto totalmente irresponsável e não preparado para cuidar de uma criança. Posso ouvir na minha mente ecos do tipo “cuidar de cavalos é uma coisa, Daniel, mas um FILHO... você passou de todos os limites possíveis. Achei que era um rapaz responsável”. Concordo, na verdade eu sou muito responsável. Tanto que isso se torna mais um motivo para deixar Bolton. Minha família inteira está me achando um vagabundo com bosta na cabeça, inclusive os pais de Mary. O que eu acho totalmente injusto, eu não fiz essa criança sozinho.
Resumindo, Mary ficaria em Bolton e eu a enviaria meu salário do estágio todos os meses, porque alguma coisa eu teria que fazer em prol desse bebê. Eu sei que eu posso parecer meio desajeitado, mas eu vou aprender a cuidar da criança. Quer dizer, eu preciso. Por mais que eu não pretenda casar com Mary, acredito que metade da responsabilidade é minha. Não posso ver essa criança como um problema, um bebê é uma dádiva divina, me sinto mal pensando dessa forma. Mas realmente as proporções da minha vida mudarão de direção, eu querendo ou não.
- Vovó, eu não estou fugindo da Mary, eu estou tentando resolver a situação. E é claro que eu vou assumir a criança, quem a senhora pensa que eu sou? Eu posso não estar demonstrando muitas emoções, na verdade eu não sou nada transparente, mas eu estou me importando sim.
Abri o roupeiro e comecei a tirar as camisas do cabide. Minhas roupas não eram nada urbanas, todas eram meio surradas e velhas.
- Senhora Jones, pode relaxar, o Danny está fazendo a coisa certa. O que não está certo é ele ficar aqui parado, vendo a vida passar e não fazer nada a respeito. Ele está arcando com as responsabilidades, vai sustentar a Mary e o bebê.
Vovó pensou um pouco nas palavras de John, não sei por que ela via mais credibilidade nele do que em mim. Às vezes desconfio que ela queria ser avó dele.
- Ainda não entendo como o seu pai concordou com isso. – murmurou ela pegando as camisas da minha mão e começando a dobrar tudo de novo, já que eu estava fazendo tudo errado. Vovó era como minha mãe, afinal eu nunca soube direito o paradeiro da minha verdadeira. Meu pai nunca esteve disposto a conversar comigo sobre isso, por mais que eu insistisse. Ele agia como se ela nunca tivesse existido, mas, não perdi as esperanças, lá no fundo eu ainda espero me encontrar com ela de novo.
- Ele confia em mim, sabe que eu sou responsável – ela parou de dobrar as camisas e me encarou cética – Tirando o ocorrido com a Mary, eu sou muito responsável sim!
Ela não respondeu, apenas fez uma cara desconfiada e continuou arrumando a minha mala. Ficamos em silêncio por uns longos minutos, John me encarando com sua expressão tensa. Eu sabia que ele estava esperando que vovó desistisse de concordar com a minha ida sem volta aparente à Londres.
- Acho que está tudo aí... – falou ela por fim, depois de fechar o zíper da mala. Eu só tinha uma mala e uma mochila. – Não vai nem esperar seus tios chegarem de Manchester?
- O trem sai as oito, se esperarmos vamos perder. Eu prometo comunicação instantânea. Papai já deve estar chegando para me dar as últimas instruções.
- Não se esqueça de visitar a sua prima, já que vão morar na mesma cidade agora. Vão poder se ver bastante.
Senti o olhar de John no meu rosto e o encarei brevemente. John sabia de boa parte da história, eu nunca poderia esconder algo tão importante dele.
- Claro. – respondi simplesmente, respirando fundo. Um mês já havia se passado desde o dia em que deixou a mansão de Phillip às pressas porque seu melhor amigo estava com apendicite. Pra falar a verdade eu fiquei com um pouco de ciúmes, quer dizer, a gente estava meio junto e ela me largou por causa de outro cara. Não da forma que parece, mas mesmo assim... De qualquer jeito depois Mary veio me dar a notícia do bebê e eu me senti totalmente sem moral para sentir ciúmes de qualquer coisa em relação a .
Ouvimos a porta da casa bater e a voz do meu pai, da minha irmã e de vovô ecoaram pelos corredores. Peguei a minha mala e John arrancou a mochila das minhas mãos e descemos até a sala de estar.
- Pronto? – perguntou meu pai com um sorriso acolhedor colocando a mão no meu ombro. Eu não podia reclamar de falta de apoio, ele sempre ficou do meu lado nas situações difíceis. Senti minha irmã me abraçando na cintura.
- Vamos sentir sua falta, Danny. – disse ela e eu me abaixei, a abraçando direito.
- Não se preocupe Jessy, vamos nos ver em breve. Vou trazer algumas coisas pra você de Londres.
Ela abriu um grande sorriso e me abraçou de novo. Bons tempos em que alguns presentes satisfaziam nossas tristezas. Levantei e vovô me olhou sério. A rigidez que meu pai não tinha meu avô tinha, e confesso que tinha um pouco de medo. Mas logo seus lábios se abriram num sorriso discreto.
- Não faça mais besteiras agora que não vai ter nenhum limite perto de você. – disse ele bagunçando os meus cabelos. Mais algumas recomendações que eu já esta careca de saber e John começou a me cutucar.
- Faltam vinte minutos, se perdemos esse trem o próximo só sai amanhã de tarde.
- Vamos, então. Tem certeza que pegou tudo? – disse meu pai testando o peso da minha mala.
- Só faltam os livros, mas você vai me mandar pelo correio então eu peguei tudo sim.
Nos despedimos mais uma vez, John pegou sua mochila que estava em cima do sofá e eu peguei minha mala e minha mochila. Saímos da casa e entramos junto com meu pai em sua caminhonete rumo à estação de trem.
Capítulo 1
Os livros empoeirados que eu tirava das caixas por conta da mudança me faziam espirrar cada vez que eu os pegava na mão e passava o pano para tirar o pó. Eu tinha um pequeno problema de rinite e estava sentindo que meu nariz coçava mais do que o normal. Pelo menos a estante estava começando a encher e aquilo me dava um pouco de orgulho, afinal o que eu tinha de mais precioso era a minha coleção de livros. Sorri lendo os títulos e verificando se os livros estavam em ordem de qualidade, estipulado por mim, claro.
Fazia exatamente uma semana que eu havia me mudado para um apartamento no centro de Londres com a minha melhor amiga Alice, aquilo me dava uma sensação inexplicável de liberdade e responsabilidade. Eu finalmente tinha minha própria casa, e poderia fazer o que quiser com ela. Vocês deveriam experimentar, é maravilhoso.
- No que está pensando?
Levei um susto e me virei, dando de cara com Alice atirada na minha cama de solteiro. Uma colcha branca a revestia, combinando com as cortinas também brancas. As paredes eram de um rosa fraco, pintadas por mim mesma (outro feito desprezado que ninguém considera) e os móveis eram igualmente brancos, como a escrivaninha e o meu armário. Em breve uma das paredes seria decorada com alguns dos modelos que eu, como aprendiz de design de moda, estava criando.
- Em como meus livros ficam bonitos na minha nova estante.
Ela começou a ascender e apagar as luzinhas em metro que eu havia colocado decorando a parte superior da minha cama, me fazendo a encarar sem entender o gesto.
- Não preciso nem dizer que elas vão queimar e você vai correr pela cidade atrás de mais né?
- Desculpe. Não desvie do assunto, não estou falando dos seus pensamentos não-fixos. Se é que me entende.
A olhei cética. Alice era meio confusa às vezes, aquilo me deixava apreensiva, eu nunca conseguia juntar as partes da frase e entender o que ela estava tentando dizer. Ou eu que era meio lerda.
- Eu te conheço,, por favor, não venha pra cima de mim com essa cara de “não sei do que você está falando” porque comigo não cola. Você anda estranha e pensativa desde que voltou das suas férias naquela cidade. Eu posso fingir que não percebi, mas meus princípios me impedem de tal ato.
Sua mania de falar difícil também me deixava confusa.
Encarei o chão e soltei o ar pesadamente. Não poderia mais esconder da minha melhor amiga algo tão importante na minha vida, e ficar com toda aquela apreensão dentro de mim estava me deixando louca e tensa a cada hora que passava. Bem, já havia se passado muitas horas desde o momento em que pisei em Londres, então você pode ter uma ideia de como eu estava me sentindo.
- Sabe o significado de “sigilo absoluto”?
- Está de brincadeira, né?
- Enfim, você não pode contar pra ninguém o que eu vou te falar. É tipo o meu segredo mais profundo e agonizante, se eu descobrir que alguém sem ser você e... bem, quem está envolvido ficar sabendo, acho que me atiro no Tâmisa e deixo a correnteza me levar.
- Nossa, meu Deus do céu, se você matou alguém é melhor nem me contar. Odeio essas coisas, depois você vai presa e vão me interrogar. Eu não vou saber mentir...
- Acredito que a intensidade do crime seja a mesma. – comentei pensativa.
- Quer saber? Vamos dar uma volta, ir até a Starbucks e comer alguma coisa. Podemos conversar lá sobre isso.
A Oxford Street estava lotada de pessoas caminhando apressadas, turistas tirando fotos, entregadores de amostra de jornais e mais alguns avulsos de sempre. O que me fez questionar o fato de ter inventado de ir a pé com Alice até o café no meio de uma tarde de sábado.
Entramos na Starbucks que, por incrível que pareça, não estava tão lotada como eu esperava que estivesse. Fizemos nossos pedidos pro atendente (devo comentar aqui que ele era uma graça, o que comprova a minha teoria de que só contratam caras gatos pra trabalhar naquele lugar) e nos sentamos no sofá mais afastado possível de contato humano. Não queria correr nenhum risco de alguma pessoa começar a prestar atenção na minha novela particular.
Depois de bebermos nossos cafés e darmos algumas mordidas nos donnuts, senti o olhar de Alice sobre mim.
- Eu não faço ideia de por onde começar. – confessei, o que era verdade, havia tanta coisa na minha cabeça que eu não conseguia achar o início, o meio e o fim dos fatos.
- Comece pelo começo.
Eu sabia que ela iria vir com essa brilhante ajuda, então respirei fundo e dei mais um gole no meu café.
- Eu fiz algo terrível, Alice. Nojento, estranho, imperdoável. Depois de ouvir a história, você não vai mais querer morar comigo. Tem certeza que quer saber a verdade?
Ela me encarou com os olhos semicerrados e entendi de imediato.
- Fui obrigada a passar um tempo na fazenda dos meus avós em Bolton, praticamente toda a minha família por parte de pai mora por lá, inclusive meu primo Danny. Eu sempre o odiei com todas as minhas forças, tendo os meus motivos, já que ele me infernizou a infância inteira e cortou o meu cabelo sem que eu visse. Eu amava o meu cabelo.
“Enfim, fazia algum tempo que eu não via ele e bem... assim como eu, ele tinha crescido. E ficou bonito. Eu quero dizer muito bonito, do tipo “meu Deus do céu vou morrer”. Tinha uma tensão sexual entre a gente inexplicável, eu me sentia desconfortável perto dele, tipo quando você fica muito perto do cara que está afim. Dava pra cortar a tensão com uma tesoura.
Nós ficamos pela primeira vez numa festa do amigo dele, falando assim parece que foi muito tempo, mas foi preciso apenas uma semana pra tanto desastre acontecer. No dia seguinte, nós... hun, fizemos aquilo... no meio do mato. Foi a coisa mais prazerosa da minha vida. Foi selvagem e agressivo, embaixo de uma tempestade inexplicável.
É claro que aquela não foi a única vez. Fomos convidados para ir num torneio de Pólo na casa de um amigo da família, e na primeira noite Danny surgiu no meu quarto e acabamos transando de novo. É difícil dizer isso em voz alta, você me conhece, mas foi perfeito. Sabe quando você está com a pessoa que ama, nada mais importa além de vocês dois, o mundo para do lado de fora? Pois é. Ele foi carinhoso e delicado, eu não tinha a noção de que aquele caipira podia se comportar de uma forma tão... fofa.
O fato é que eu não consigo ficar mais nenhum minuto sem pensar nele e nos poucos momentos que passamos juntos, e isso me consome de uma forma avassaladora a cada dia que passa. Eu me sinto culpada, entende? Ele é o meu primo.
Bom, é claro que não podia terminar assim. Danny tem uma amiga, Mary, e ela é tipo toda perfeita e meiga, dava até raiva. No meu último dia em Manchester, na mansão dos amigos da família, Danny me contou que Mary estava grávida. Dele. Eles tinham transado antes de eu chegar lá e ele não tinha nem me contado. Eu fiquei arrasada. Só sei que o perdoei na hora, eu estava indo embora, não fazia diferença. Mas agora não sei se conseguiria falar com ele de novo. De uma forma ou de outra, ele me traiu por não ter me contato algo tão importante.
Agora Mary vai ter o bebê e bom, eles vão ser uma família. E eu ainda estou apaixonada por ele, quer dizer, eu sempre estive, na verdade. Nunca assumi dentro de mim, muito menos pra alguém. “
Alice não tinha expressão definida no rosto, parecia digerir toda a história e compreender todos os fatos. Depois de alguns segundos de silêncio, algumas lágrimas já haviam caído do meu rosto, ela me encarou.
- Puxa, você estava com tudo isso entalado e não me contou?
- Eu não queria que você pensasse que eu sou algum tipo de vadia por fazer isso com o próprio primo. Não quero que as pessoas pensem isso de mim, eu não sou assim. Se você quiser cortar as relações eu vou entender completamente.
Ela arregalou os olhos e levantou de repente, largando a caneca na mesa de apoio na nossa frente e sentando ao meu lado.
- Como você pode pensar uma coisa dessas de mim? Eu nunca vou te abandonar, sua tolinha, muito menos agora que precisa de mim. Vem cá.
Alice me abraçou, e senti um peso sair das minhas costas. Afinal, eu podia contar com alguém pra dividir a desgraça. Não segurei as lágrimas seguintes, que acabaram molhando o moletom dela.
Nos afastamos uns minutos depois e ela me olhou sorrindo. Como ela podia sorrir num momento daqueles? Eu estava deprimida e sem vontade de viver!
- Não acredito que minha amiga está apaixonada. Isso é muito fofo.
- Alice, isso é incesto. Fui fisgada pela doença. – murmurei secando as lágrimas que pingavam do meu queixo.
- Você realmente acha que é a única garota que pegou o primo? É sério? Até eu já peguei meu primo.
A encarei assustada com um meio sorriso de alívio.
- Não! Não transamos, mas nós demos um selinho uma vez num “Verdade e Desafio”. E eu não gostava dele e ele era feio.
Fiquei séria novamente, encarando um ponto fixo com o olhar perdido.
- Mas não se preocupe, não é crime transar com a pessoa que amamos. Bom, agora o que você vai fazer é esquecer um pouco o acontecido e bola pra frente, não é? O jogo continua! Existem milhões de garotos em Londres, no mundo, loucos pra namorarem você e com certeza um deles vai fazer você esquecer o seu primo que vai ser pai. Nossa, você realmente escolheu o cara errado.
Aquela conclusão me fez rir um pouco, por mais deprimente que a situação fosse. Não queria parecer pessimista, mas nenhum garoto iria me fazer esquecer Danny Jones. Era um fato, e eu teria que conviver pra sempre com aquela paixão enterrada no peito.
- Eu sinto falta dele.
- Vocês vão poder se ver no natal.
Como se aquilo resolvesse todo o problema.
- Alice, eu não sei mais o que fazer. Achei que com o tempo conseguiria equilibrar minha vida de novo, mas estou na mesma merda. Amando-o mais do que nunca. Ótimo.
- Você acha que em um mês vai conseguir esquecer e superar o que aconteceu? Isso vai demorar alguns meses, amiga. E sabe, é a vida. Temos que viver ela de qualquer forma e enfrentar os desafios impostos pela mesma. Se isso aconteceu com você, deve ter um bom motivo. Dê graças a Deus que ele não é o seu irmão. Sempre tem algo pior pra te colocar pra cima.
- Bom, daí eu realmente iria me matar. – falei e rimos.
- O que você acha de fazermos um cinema particular no nosso novo apartamento lindo hoje de noite? Dá pra ver na sua cara que está com saudades das nossas noites babando pelo Sam e pelo Dean Winchester.
- Sabe que não é uma má ideia? Dean deve estar com saudades.
Levantamos do sofá e saímos do estabelecimento, discutindo qual dos episódios iríamos ver naquela noite. Alice tinha todas as temporadas em DVD e eu me aproveitava ao máximo.
Uma melodia bonita interrompeu nossa discussão.
- THIS YEAR I WANT YOU ALOOONE!
Quatro garotos surgiram na nossa frente completamente alegres, dois deles seguravam violões e um deles cantava uma das músicas mais fofas que eu já ouvi na minha vida.
O que cantava parou de tocar e esticou a mão pra um dos outros dois que só estava rindo descontroladamente.
- Boa tarde garotas! Acredito que apreciem um bom rock americano, estou certo?
Eu e Alice nos olhamos meio rindo.
- Acho que sim, por que? – respondeu Alice. O garoto se enfiou entre a gente e nos entregou dois panfletos.
- Somos o The Maine e vamos fazer um show na próxima sexta-feira no Hard Rock Café, eu sei, isso é incrível, e vocês estão sendo formalmente convidadas por parte da banda. Nosso vocalista está voltando de uma viagem hoje, então resolvemos sair e trabalhar um pouco. O que acabaram de ouvir foi apenas uma amostra da nossa música.
- Vocês parecem ser bons. – murmurei lendo o panfleto que continha uma foto deles e as informações do show.
- Ah, quem recebe esse panfleto da gente ganha 20% de desconto no ingresso. Ou seja, vocês estão com sorte.
- Não ligue pro Kennedy, ele só está chamando garotas. Mas é verdade, o desconto, digo. – falou um deles que tinha o cabelo liso pelos ombros e uma expressão muito fofa no rosto.
- Como se você não estivesse adorando. Enfim, nós realmente adoraríamos que vocês fossem nos ver. Como se chamam? – voltou a falar Kennedy com um sorriso presunçoso no rosto. O outro garoto com violão voltou a tocar.
- Meu nome é e essa é a Alice. – respondi da forma mais meiga possível. O que foi? Eles eram fofos.
- , Alice, contamos com a presença de vocês. Não nos deixem esperando.
- Vamos pensar no seu caso, espertinho. – disse Alice com uma expressão marota.
Todos riram e se despediram, voltando a caminhar e fazer baderna pela rua, entregando panfletos e tocando suas músicas. Isso que eu chamava de força de vontade.
- Uma banda inteira acabou de nos cantar. Estou me sentindo tão gostosa. – ouvi Alice murmurar encarando o papel nas mãos. – Hm, o mais interessante deles não estava presente, que ótimo.
Olhei pro papel depois de rolar os olhos.
- Eles têm um espírito contagiante! – comentei olhando os detalhes no panfleto.
- Por isso acho que devemos ir a esse show! Vamos, né? Desconto, cara.
- Não acredito que você cogitou essa possibilidade.
- , você é a pessoa que mais precisa conhecer novos garotos e bancar a groupie por aqui e você sabe bem o motivo. Nem que eu tenha que te arrastar, nós vamos nesse show. A música era tão bonitinha!
A olhei sem expressão pensando na possibilidade de ser flertada novamente por garotos fofos. Foi um pouco tentador.
- Já vi que serei cruelmente forçada a ir nesse show, querendo ou não.
- Só estou fazendo meu trabalho, querida.
° ° °
Dava pra sentir da entrada do lado de fora o cheiro forte de maconha. John me olhou com um sorriso discreto tentando disfarçar o odor e me deu vontade de rir. Eu tinha arranjado o lugar mais poluído envolto em névoa de maconha e cigarro que alguém poderia arranjar pra morar. Ele abriu a porta e logo uma música alta invadiu os meus ouvidos. Não sei como os vizinhos não reclamavam daquela bagunça toda, ou talvez eles reclamassem sim, e eram eles que ignoravam.
- Bem vindo ao lar, seu quarto é no último andar, mais conhecido como sótão.
O olhei cético.
- “Lar” não é a palavra que eu escolheria pra descrever essa orgia.
- Orgia só nos fins de semana, a gente é bem discreto. E você vai ter que pagar pelo que utilizar, se é que me entende.
- Não, eu não entendo. – murmurei o seguindo até a sala de estar completamente bagunçada, cheia de roupas, embalagens de comida e outros objetos não identificados pelo chão.
- O baseado, cara. A gente não planta essas coisas. Nem temos um jardim, mas com certeza se tivéssemos, teríamos uma plantação de maconha.
- Hun... Tudo bem. – concordei o olhando estranho. Senti em seguida um forte tapa na cabeça que fez toda a sala girar. – OUTCH!
- Qual é a boa, Jones? – perguntou Garrett com os olhos meio fechados. Ele estava meio sonolento, fazendo eu me questionar sobre como ele teve força de me dar um tapa daqueles.
- Quanto tempo vai ficar alojado? – Uma voz diferente falou, e eu olhei para um Kennedy se entupindo de salgadinho.
- Bem, eu ia ficar um ano... Mas eu posso arranjar outro lugar se vocês não quiserem me aguentar tanto tempo.
- Não, tá tranqüilo cara. É sempre bom ter mais alguém pra trocar uma ideia. Vem cá, John, você não tem noção das gatas que a gente convenceu de ir ao show sexta.
John o olhou com uma expressão marota enquanto abria a geladeira da cozinha que era a continuação da sala de estar.
- Ele nem sabe se elas vão ir mesmo. – cortou Pat colocando a mão no meu ombro. – E aí, meu?
- Oi, Pat.
- Enfim, aposto que se o John estivesse com a gente elas nem iriam pensar. Quer dizer, você sempre as convence. É muito injusto.
- Desculpe se as garotas não resistem quando eu falo com elas do meu jeito quero-te-foder. Vou te ensinar, Danny. Sempre dá certo. – disse John tirando uma garrafa de cerveja de dentro da geladeira.
- Onde está o Jared? – perguntei olhando em volta e ignorando o último comentário de John.
- Boa pergunta. – respondeu ele se jogando no sofá.
- Se aquele desgraçado estiver com alguma mulher eu vou me matar. E depois matar ele. – falou Kennedy parando pra pensar no que disse segundos depois.
- Mas você teria que matar ele primeiro e depois se matar. – concluiu Garrett. Meu Deus, eu odiava conversa de gente chapada.
- Vocês me dêem licença mas eu preciso tomar banho. Você deveria fazer o mesmo. – disse olhando sério para John. Ele estava fedendo, ou provavelmente era o lugar que estava fedendo.
- Danny, se você começar com essa mania de banho todos os dias eu vou ser obrigado a te colocar porta a fora.
Um minuto de silêncio. Todos começaram a rir e eu olhei de um para o outro estático. E eu pensava que era o caipira.
Deixei-os rindo descontroladamente sozinhos e subi dois andares até o sótão, que provavelmente seria o dobro da sujeira já que era... bom, era um sótão. Não estava tão errado, era mais pó do que oxigênio. Conclui que eu mesmo teria que limpar aquele lugar. Joguei minhas coisas em cima da cama e entrei no banheiro visivelmente abandonado, que acredito ter sido em alguma época branco, pois agora estava bege e meio fedorento. Porque eu não aluguei um apartamento mesmo? Ah sim, você não vai morar sozinho em Londres nem por cima do meu cadáver!, a voz de vovó ecoou na minha mente.
Como se morar com eles diminuía a responsabilidade e a possibilidade de eu me tornar um vagabundo sem vida.
Toda aquela confusão não tinha me deixado pensar no motivo principal que movia o meu corpo e me fazia ter vontade de viver. Nossa, isso foi muito emocional, tenho que parar de pensar como um poeta abandonado e desolado. Tirando a parte do poeta, era assim mesmo que eu me sentia. Saber que a garota da sua vida está na mesma cidade que você te deixa um tanto apreensivo, com a sensação de que a qualquer momento ela vai bater na sua porta e se declarar. Bom, eu duvidava muito que faria algo do tipo, ela é tão orgulhosa e reservada que nem deve ter assumido pra si mesma que gostou de tudo o que aconteceu entre a gente. Não vou negar que eu tinha uma ponta de esperança lá dentro, que pessoa apaixonada não tem?
Resolvi deixar de lado minha ponderação sobre a situação atual do meu coração mórbido e tirei a camisa, entrando novamente no banheiro agora pra valer. Eu teria que ignorar o fato de que aquela peça tinha um leve estilo pós segunda guerra mundial, decadência e sujeira pichadas nas paredes. Tentei não encostar em nada quando tirei a roupa por completo, já estava com um pouco de nojo de estar ali dentro de calças, bom, sem elas era o desafio do dia. Eu já devia esperar que a água quente ou demoraria pra dar o ar da graça, ou não viria. Passados cinco minutos de espera, desisti e me enfiei na raça embaixo da água gelada, segurando um gemido de dor do choque do frio com o quente do meu corpo. Enquanto me esfregava com uma velocidade recorde, conclui que eles nem deviam pagar a água quente, já que tomavam banho tipo uma vez a cada três dias. Onde fui me hospedar, Deus do céu. ´
Terminei o banho nada relaxante e me enrolei na toalha branca pendurada na parede. Eu não tinha tempo e nem condições físicas de fazer uma análise minuciosa pra saber se tinha algum corpo não identificado grudado nela. O frio gritava mais alto. Saí do banheiro sentindo que a qualquer momento eu poderia cair duro no chão com as rajadas de vento insistentes que se seguiam entrando pelas frestas da janela no teto do quarto. Quando a porta se abriu me fazendo dar um pulo pro lado e tentar tapar a parte de cima do meu corpo. Não que isso fosse necessário, mas reflexo a gente não discute.
- O que você acha de uma pizza gordurosa?
- Eu acho que você poderia bater antes de entrar. – respondi irritado encarando um John com olhar carregado.
- Tanto faz. Você é louco de tomar banho com esse frio? – perguntou ele se jogando na minha cama singela. Eu o encarei descrente.
- Não vou nem responder essa besteira. – murmurei me dirigindo até a mala em cima da cama e começando a tirar as roupas de dentro. John me encarava com os olhos apertados.
- Como está se sentindo? – perguntou deliberadamente. Eu o olhei estranho.
- Com frio.
- Não estou falando disso. Sabe, eu sou uma pessoa observadora. Precisamos ser assim quando compomos letras. Elas descrevem comportamentos e sentimentos. Você está transparecendo preocupação e intenso nervosismo.
O estudei por alguns segundos silenciosos e cocei os olhos afastando a repentina confusão mental.
- Não, você apenas me conhece melhor do que ninguém.
- Diga-me o que te preocupas e eu dar-te-ei uma solução.
- Porque diabos você está falando difícil?
- Dei uma fumada braba há uns minutinhos. Enfim, qual é o teu problema?
- Ela.- murmurei simplesmente pegando algumas camisetas, atravessando o quarto e colocando dentro de uma das gavetas da cômoda de madeira.
- Sua prima?
- Não, minha avó.
- Você sabe que se procurar ela vai foder com tudo, não é? – disse ele, ignorando minha ironia falha.
- É por isso que eu estou preocupado e nervoso.
Ele pensou um pouco encarando o teto do quarto.
- Faça o que o seu coração mandar.
- Não tinha algo menos clichê pra me falar? – falei agora colocando algumas calças jeans dentro da segunda gaveta.
- A vida não tem mistério nenhum. Nós que complicamos ela. Se você está afim da garota, e ela o mesmo, pra quê ficar nessa frescura de “oh nunca mais podemos nos ver, eu vou ter um filho e você é minha prima”. Por favor né.
John fazia tudo parecer tão simples, mas eu sabia que na minha cabeça não era. Ele não sabia como era ter um peso na consciência que não te abandona nunca. Ele não sabia como era ter sua família inteira te pressionando a fazer uma coisa, sendo que a sua vontade era de desistir de tudo e fugir. Não, a vida não é nada simples.
- Você fala como se um filho fosse um pão de queijo. É uma pessoa. E aborto é desumano.
- Você com seus papinhos de naturalista.
- Não precisa ser biólogo pra saber essas coisas.
- Você nem é biólogo ainda.
- John, quer fazer o favor de deixar eu me vestir? Eu estou morrendo.
John levantou da cama resmungando e arrastou suas alpargatas enfiadas de mal jeito até a porta.
- Eu falaria algo marcante antes da minha saída triunfal pra te deixar pensando mas... meus neurônios foram queimados demais hoje. Vamos pedir pizza, esteja lá embaixo em sei lá quanto tempo leva.
Ele bateu a porta e eu imediatamente coloquei uma blusa com mangas compridas e uma calça de moletom marrom. Roupa de mendigo. Como se aquela casa inteira fosse diferente.
Capítulo 2
Apesar de aquela manhã de segunda-feira estar ensolarada, eu sentia uma leve e desconfortável dor de garganta, que me obrigou a colocar um cachecol em volta do pescoço. Alice me encarava desde o nosso apartamento sem entender.
- Raro dia de sol, quando podemos fingir que está calor o bastante pra sair de manga curta e você de cachecol. Eu não te entendendo.
Suspirei tirando os cabelos do rosto que insistiam em tapar minha visão enquanto andávamos pela avenida. A rotina já estava começando e boa parte das pessoas já se apressava para seus devidos empregos e tarefas. Um homem de terno e gravata esbarrou em mim, me ignorando completamente, e eu bufei de raiva.
- Qual o problema das pessoas em serem educadas hoje em dia?
Alice tomou um gole do seu copo de café com uma expressão irônica.
- Você não está muito bem hoje.
- Eu estou me sentindo doente. Belo começo de semestre.
- Pra mim isso se chama dor de amor.
A olhei sem paciência e ela começou a rir. Não entendia essa garota, estava sempre rindo de tudo, por mais que a minha situação fosse complexa.
- Eu nem vou responder esse seu comentário sem fundamento.
- Eu tenho fundamentos, que aliás são o seu comportamento desde que voltou daquela fazenda da sua família. Está toda desconfiada, irritada e nervosa. Você fica assim quando está gostando de alguém que não quer. Lembra do Will? Pois é. Você praticamente me espancava quando eu falava dele, só porque o garoto não gostava de você.
- É, mas agora é diferente. E eu nem estou doente por causa disso, então por favor coopera com a minha situação de extremo mal estar porque eu estou quase desmaiando aqui nessa calçada.
- Você vai ficar bem disposta logo, mais precisamente sexta-feira, porque alguns meninos bonitos nos convidaram pra sair e nós vamos nos divertir muito.
- Eles não nos convidaram pra sair, eles apenas nos convidaram pra assistir o show deles.
- É a mesma coisa. Droga, corre! O ônibus acabou de parar.
Fui puxada bruscamente pela rua em direção da parada do nosso ônibus, sem tempo de perceber esse motivo. Alice me enfiou dentro do veículo e entrou atrás de mim. Um cheiro estranho entrou pelas minhas narinas e eu quase vomitei.
- Será que eu estou grávida? – perguntei sentando em um dos bancos estilo sofá, virados pro corredor. Ela sentou ao meu lado e riu.
- De gêmeos.
- Estou falando sério, eu não menstruei ainda e já passou um mês desde que eu... né.
- Calma, é normal não vir às vezes. Aposta quanto que vai vir essa semana? Eu sempre acerto.
- Mas e o meu enjôo e a doença?
- Eu já te expliquei o que é isso, pare de ser neurótica. Eu aqui morrendo de inveja sua, que pode comentar sobre a vida sexual com a amiga. Nem isso eu tenho.
- Ah, quer trocar? Transar duas vezes com o próprio primo é um ato muito invejável. Quem me dera estar no seu lugar.
- Eu sou a única virgem da turma.
- Sorte sua. Não muda nada ser virgem ou não.
- Muda sim, você já teve dois homens e eu só tive casinhos imbecis. Ter um homem aqui no sentido de ter mesmo.
- Isso por acaso me faz melhor do que você?
- Te faz mais adulta. Você aí cheia de aventuras...
- AVENTURAS? – perguntei alto demais e uma senhora, que provavelmente estava escutando toda a conversa, arregalou os olhos pra gente. – Eu estou arrependida de cada merda que eu fiz nessas férias e você consegue falar disso como se fosse algo pra lembrar e se orgulhar? Me sinto suja e impura todas as vezes que me lembro do episódio. Isso pra você é algo bom?
- É. Você disse que seu primo é lindo e fofo. CLARO QUE É!
- Eu não vou te explicar de novo tudo que está acontecendo na minha cabeça. Você não consegue entender a gravidade da situação. Ele. Vai. Ter. Um filho. De. Outra garota. Eu provavelmente nunca mais vou ver ele de novo.
- Cala a boca, . Acha que a família não vai mais permitir ele nos jantares porque o garoto vai ser pai?
- Não é assim.
- Sabe desde quando eu não sinto borboletas no estômago por alguém? Desde o ensino médio. Então por favor reverta essa angústia pra algo bom, se apoiando na minha desgraça amorosa. Eu estou aqui pra isso.
- Eu juro que se você vier com esse assunto de novo enveneno seu copo de suco.
- E, além de todas essas tramas amorosas suas, você tem o . Que provavelmente está nos esperando agora.
- O que você quer dizer com isso?
- Quero dizer que o garoto gosta de verdade de você e deve levar isso em conta, já que está tão sofrendo por causa desse Daniel aí.
- Ele é apenas meu amigo. Sempre foi e sempre vai ser.
- Isso aí vamos ignorar o seu diário e todas aquelas páginas com o nome do .
- Alice quer por favor parar de lavar a roupa suja dentro do ônibus, em público? Você faz questão de expor a minha vida em voz alta.
- Acho que deveria ouvir a sua amiga e dar uma chance pro .
Uma voz nos interrompeu e uma mulher lá pelos seus quarenta anos nos olhava receosa, sentada ao lado de Alice. Alice sorriu pra mulher concordando.
- Dá pra gente ter uma conversa particular por aqui? – perguntei irritada e a mulher voltou a se encostar no banco meio assustada com a minha grosseria.
- Não precisa ser assim com as pessoas! – sussurrou Alice me repreendendo. Eu rolei os olhos.
- Não agüentou mais esse povo mal educado. Já é o segundo hoje que faz o favor de me tirar do sério. Terceiro né, tem você.
- seu humor de manhã é tão invejável quanto os homens que estão aos seus pés.
Fiquei encarando Alice sem expressão por longos segundos até ela perceber a besteira que disse.
- Não tem homem nenhum aos meus pés, pare de inventar coisas. Vamos parar por aqui?
Eu realmente estava um pouco tensa demais, assumo com muita dificuldade. A partir do momento em que entrei no ônibus e fiquei enjoada instantaneamente, somado com a minha menstruação atrasada, meu corpo doendo e o tempo desde que eu não transava resultou num medo extremo de estar esperando um bebê. Ou eu estava neurótica, mas aquilo ficou cutucando a minha cabeça pelo resto da manhã, e o que eu menos precisava agora e o que mais poderia complicar tudo era eu esperando um filho de Danny. Quer dizer, o garoto já vai ter um filho com aquela Taylor Swift e eu não quero que o meu filho com ele tenha uma madrasta dessas e que ainda tenha que dividir o pai com outra criança. Não que eu esteja querendo que exista uma criança mesmo mas... tudo bem, eu tenho que parar com isso. Só de pensar nesse garoto eu já fico apreensiva, inquieta e tensa. E provavelmente conviver com ele não diminuiria a tensão.
não estava nos esperando na frente da universidade quando chegamos, e eu achei aquilo muito estranho já que ele nunca fura com seus compromissos. Passei a manhã inteira, além de nervosa por causa dos meus enjôos e atraso da menstruação, preocupada com o sumiço de . A universidade de Londres era bem grande, eu sabia muito bem disso, mas não justificava o desaparecimento estranho de .
Minha angústia se anulou quando avistei, no final da manhã, parado na frente do campo principal do meu prédio encarando o chão com as mãos nos bolsos. Ele ficava tão lindo com aquele blazer dele, tinha uma mania irresistível de se vestir bem no dia a dia. Aquele garoto ainda me mataria de tão fofo. Quando me viu colocando a mochila nas costas desajeitada sorriu ternamente.
- Minha linda! – exclamou ele me abraçando forte e beijando o meu pescoço. Quem precisa de ar mesmo? Envolvi seu tronco com meus braços e não me preocupei em sair do abraço no primeiro minuto. Para meu desgosto, percebia que quando eu abraçava as pessoas por mais tempo que o normal eu estava com algum problema. Ele me afastou, sem tirar as mãos da minha cintura e olhou nos meus olhos. Desviei e encarei o chão. – Qual o problema?
- Nada, eu deveria ter um problema? – respondi meio rápido olhando pros lados nervosa. semicerrou os olhos pra mim.
- Você já deveria saber que tentar me enganar dá no mesmo que tentar enganar a si mesma. Pode ir falando, o que você tem?
- Eu estou meio doente, meu corpo dói, assim como a minha garganta.
- Não estou falando disso.
- Meu emocional está ótimo se quiser saber.
- Eu sei de um lugar que vai te fazer bem, vamos hoje de tarde. Pode chamar a Alice se quiser, vai ser divertido.
- Pra onde você quer me arrastar, ?
° ° °
Acordar não seria bem o que eu fiz naquela manhã de segunda-feira, pelo simples fato de haver uma espécie desconhecida de ninho no telhado exatamente acima do meu “quarto”. Passaram a noite arranhando com as unhas por todos os lados. “Abrir os olhos” seria o mais adequado, depois do despertador estridente gritar do meu lado. Levantei da cama já batendo com a cabeça no teto de madeira e soltei um palavrão alto. Entrei no banheiro e instantaneamente lembrei que eu estava na casa de John e ele não tinha água quente e aquela casa era mais fria que do lado de fora. Quase chorei quando a água gelada me nocauteou no pescoço, a única coisa que tinha servido era pra me acordar. Saí do banheiro depois de fazer toda a higiene que nenhum membro daquela casa fazia, e dei uma olhada nas minhas roupas enquanto tremia de frio. Eu realmente estava meio desleixado no quesito “moda”, eu precisava dar um jeito naquilo. E nada melhor do que pedir ajuda para alguém que tem uma banda e sabe que roupas deixam as garotas mortas. Não que eu queira deixar alguma morta, mas eu pelo menos preciso ficar apresentável, lembrando que estou com bolsa na faculdade.
Tirei da gaveta uma camiseta em gola “V” branca, uma camisa xadrez que era tudo o que eu tinha no momento, uma calça jeans mais justa e peguei da mala que eu ainda não tinha desfeito um Vans branco. Me vesti, ajeitei meu cabelo da melhor maneira possível e peguei minha bolsa de atravessar – que deixando bem claro não é de mulher, como o John vive dizendo, é só uma forma mais fácil de carregar livros – e saí do quarto na verdade muito confiante.
Pra variar, como eu esperava, a casa estava num silêncio ensurdecedor, eu previa que os vagabundos só iriam acordar lá pelo meio dia, então parti pra luta sem me atrever a acordar um deles e levar um soco na cara.
A universidade de Londres na verdade era bem longe da casa de John, eu tinha que pegar o metrô e um ônibus pra chegar do outro lado da cidade, mas foi o que eu consegui, então não estava em condições de reclamar. Nem tempo de tomar café eu tinha, quem precisa de alimento quando se tem uma bolsa integral em uma das maiores faculdades do país? Eu que não.
Os portões estavam movimentados quando me aproximei da entrada, cheio de adolescentes ricos que provavelmente pagaram para estar ali, e não fizeram por merecer, não que eu tenha algo a ver com isso mas comentar não faz mal. Mordi um pouco forte meu lábio inferior, resultado do meu nervosismo, suspirei e entrei. O prédio de biologia e medicina por sorte não ficava tão longe, era o mais cheio de gente amontoada também. O acabamento de todos os blocos eram antigos, como se fossem da época vitoriana ou algo do tipo, eu suspeitava que aquele lugar de noite deveria ser bem assombrado, porque de dia já dava pra intimidar. Mas na verdade era bem bonito, comparando com o que temos mais próximo de uma faculdade em Bolton.
Me enfiei no amontoado de gente até conseguir entrar no prédio e, seguindo sem sucesso algumas placas, fui parar em todos os lugares possíveis menos na secretaria. Escolhi um corredor e desisti no meio, dando meia volta e encarando confuso os murais até alguém me cutucar no ombro.
- Precisa de ajuda?
Uma garota de pele morena e cabelos ondulados muito bonitos me encarava sorrindo. Ela lembrava um pouco a Nicole alguma-coisa das Pussycat Dolls e isso me deixou um pouco animado pra começar uma conversa. Lembrando que ela que chamou a minha atenção. Eu não podia simplesmente começar a ignorar todas as garotas que começarem a falar comigo porque iria ter um filho. Culpa, vá a merda.
- Na verdade eu preciso sim. – respondi meio rindo e ela riu junto, cruzando os braços e me olhando com curiosidade de cima a baixo.
- Você não é daqui, seu sotaque do interior te denuncia. E seu estilo diferente e bonito também.
- Ahn, é, eu sou de Bolton, obrigado. – falei meio desconcertado coçando a nuca sem saber o que fazer. – É... você sabe onde é a secretaria?
- Claro, vem comigo. – disse ela me pegando pela mão e me puxando pro lado oposto do qual eu estava decidido a ir antes de ela me interromper. Depois de nadar entre muitos corredores lotados paramos na frente de uma grande porta de vidro. – Aqui está... como se chama?
- Daniel Jones.
- Prazer, sou Michelle. Se precisar de mais alguma coisa pode me encontrar no quinto andar, eu curso medicina.
- Obrigado, agora eu preciso me localizar. Ahn, nos falamos depois.
- Com certeza. – respondeu ela sorrindo e se afastou toda graciosa. Desviei os olhos de onde ela estava há poucos segundos e empurrei a porta de vidro, sentindo um ar gelado me envolver completamente. Fiquei algum tempo parado encarando o grande balcão na minha frente até uma mulher com os cabelos presos pra trás com pauzinhos me olhou e fez sinal para me aproximar.
- Como posso ajudá-lo? – perguntou ela me encarando por cima dos óculos de grau.
- Eu tenho bolsa aqui, vim de Bolton, não sei muito bem meus horários e pra onde devo ir.
- Ah, você é o garoto de Bolton! O coordenador quer conversar com você depois, chamarão você durante a manhã. Ele deixou pessoalmente seus documentos. Você vai fazer estágio no London Aquarium, estou vendo aqui. – falou ela rápido demais, tirando de um saquinho uma folha.
- Acho que sim, ele me ofereceu essa possibilidade.
- Vai adorar trabalhar lá. É muito agradável. Aqui estão suas coisas. Os horários, os números das salas e os documentos do seu estágio.
- Obrigado. Não têm muitos bolsistas aqui?
- Tem um monte. Vocês devem ser realmente muito bons pra conseguir uma bolsa nessa universidade cara.
- É, eu acho que sim. Bom, obrigado pela ajuda.
- Não tem de quê, querido. Boa sorte.
Sorri para a mulher estranhamente simpática e saí da sala, tirando do saquinho os meus horários. As pessoas estavam sendo muito simpáticas comigo, isso não é nada normal. Espero que isso não seja sinônimo de me ferrar em outra área da minha vida. Tipo o amor.
° ° °
Nunca durma de tarde quando você está se sentindo sonolenta. Você vai ser automaticamente anestesiada e nem sua amiga gritona te acordará.
- , o está tipo CHEGANDO. Dá pra você levantar dessa cama? Eu já vou ter que segurar vela pra vocês, nem sei porque eu estou indo nesse troço. É né, quem sabe eu não encontro alguém pra transar já que nem isso eu fiz ainda.
Gemi por longos segundos e levantei devagar da cama, minha cabeça girando e latejando. Entrei no banheiro sem dar ouvidos aos dramas de Alice, ela estava ficando boa naquilo. Lavei o rosto e coloquei de volta minha maquiagem, fazendo logo em seguida uma trança embutida no cabelo que já não estava mais tão curto assim. Voltei pro quarto e encontrei Alice sentada na minha cama encarando o chão com um olhar vazio, provavelmente esperando que eu a consolasse pelo fato de ainda ser virgem. Grande merda, eu daria tudo pra ser virgem de novo. TUDO. Abri meu roupeiro e tirei lá de dentro um vestido jeans justo, que na parte de cima era em estilo corpete. Coloquei por cima um cardigã amarelo fraco e All Star preto.
- Já sabe pra onde aquele garoto vai nos levar?
- Não, ele não me disse. – respondeu ela levantando da cama e saindo do quarto. Saí atrás dela antes pegando a minha bolsa. No momento em que chegamos na sala no andar de baixo a campainha tocou.
- Estão prontas pra tarde mais fofa do mundo? – perguntou quando abrimos a porta e saímos o encarando impacientes.
- Quer falar logo, ? Eu posso ser alérgica. – falou Alice apreensiva enquanto descíamos até a calçada, onde o carro de estava estacionado. Sim, aquele babaca tinha um carro e eu não.
- Você é alérgica a peixes? – perguntou ele destrancando o carro. Entramos e o olhamos perdidas.
- Não que eu saiba. Depende, camarão me deixa inchada.
- Não vamos comer os peixes. Seria crime ambiental ou alguma coisa assim.
- AONDE NÓS VAMOS? – gritou Alice fazendo eu e nos encolhermos.
- Vamos ao London Aquarium, o lugar mais mágico da cidade depois do Madame Tussauds.
- Eu AMO esse lugar. – disse Alice com os olhos brilhando, fazendo rir.
- Nunca fui lá. – comentei encarando os prédios que passavam por nós.
- Você mora aqui desde sempre e nunca foi no aquário? – perguntou como se já não soubesse disso. – Mais um motivo pra isso ser uma urgência.
Chegamos no Tâmisa em poucos minutos, o London Aquarium ficava em uma das duas margens onde sempre havia uma quantidade imensa de turistas. Não era diferente na frente do aquário. estacionou o carro na rua mais próxima e fomos caminhando pela margem até o prédio antigo e comprido. Na base havia a palavra “Aquarium” bem grande em dourado. e Alice riam de algo que eu não estava interessada em saber quando entramos pela entrada principal, disputando por um lugar com as milhões de pessoas de outros lugares do mundo. Logo no saguão havia uma grande bilheteria onde poderíamos escolher quais sessões do aquário visitar e os preços delas. Não muito diferente do museu do Louvre, mas imagine ele com muita água e peixes nadando. Deixamos cuidar dos ingressos enquanto observávamos as pessoas na nossa volta.
- Esses lugares turísticos são infestados de gatinhos gringos. Tipo italianos e franceses estonteantes.
A olhei sem ânimo.
- Você está mesmo levando a sério isso de arranjar alguém pra transar? Dá pra relaxar e curtir a vida enquanto não foi violada e tem o seu selo ainda?
- Você fala isso porque está toda “oh dei pro meu primo que horror”. Toda na experiência.
- Para de falar isso perto do . Ele não sabe ainda.
- Ele nem está perto. E você não vai contar pra ele nunca? O garoto merece saber.
- Não. Ele ficaria furioso e provavelmente nunca mais falaria comigo.
- Pare de ser idiota.
Passados alguns minutos de discussão entre eu e uma Alice neurótica, apareceu na nossa frente segurando três ingressos coloridos.
- Esses ingressos nos dão acesso a todas as áreas do aquário. Saibam que a área dos predadores custou tipo um salário mínimo.
- A gente te paga depois. – murmurou Alice arrancando da mão dele seu ingresso e saindo na frente. Passamos pela entrada para os corredores, onde uma grande cortina escura separava os tanques 270º graus do mundo real. Havia um funcionário que verificava os bilhetes, e eu já podia ver uma luz azul e hipnotizante passar pelas frestas da cortina.
Entregamos nossos bilhetes para o cara, que nos deu pulseiras de identificação. Passamos pela cortina e instantaneamente meu queixo caiu. Era como estar imersa no oceano respirando oxigênio e caminhando ao mesmo tempo. Uma música calma de fundo fazia do ambiente entorpecente, nos fazendo sentir que estávamos em outro mundo, onde tudo era lindo e mágico. Peixes de todas as espécies e tamanhos nadavam pelos nossos lados e por cima das nossas cabeças. Muitas pessoas sentavam nos bancos em frente aos vidros e tiravam fotos, torcendo para que algum peixe colorido aparecesse de fundo.
Alice se entreteve logo com uma arraia gigante, grudando o rosto no vidro parecendo uma criança alucinada. observava o movimento de alguns peixinhos dentro de corais lilases e aproveitei para me afastar até um corredor mais vazio do que aquele inicial, onde todos paravam impressionados e gastavam todas as memórias das câmeras.
Acabei me encontrando na área das tartarugas, animais calmos que nadavam devagar, alguns mais velhos sendo seguidos por filhotinhos. Me perdi observando toda aquela natureza na frente dos meus olhos, o lugar estava mais silencioso que nos primeiros corredores. Tocava no fundo uma das minhas músicas preferidas, Roslyn, e aquilo me deixou calma por alguns minutos, coisa que não acontecia há muito tempo.
- ...vocês podem encontrar essa espécie mais precisamente na Austrália, elas migram para se reproduzir.
Minha atenção se esvaiu das tartarugas quando uma voz levemente familiar atingiu meus ouvidos. Eu estava de costas pro corredor, de frente pro aquário, provavelmente havia um grupo de pessoas ouvindo a explicação do funcionário daquele corredor. Fechei os olhos devagar e respirei fundo, me xingando mentalmente e me obrigando a parar de ser neurótica como Alice e imaginar coisas. Minha respiração aumentou a velocidade e eu me virei devagar.
Danny estava ali.
Senti o chão desaparecer debaixo dos meus pés e um desespero inexplicável me atingir, me deixando sem saber o que fazer. Eu não conseguia me mexer, a única coisa que mexia era meu peito para cima e para baixo em alta velocidade. Não sei como eu ainda estava em pé.
Danny estava com um uniforme do London Aquarium e explicava o que eu não estava mais prestando atenção para alguns turistas que tiravam fotos empolgados. Duas crianças faziam perguntas umas atrás das outras para ele que respondia com simpatia. Não demoraria para ele me perceber parada que nem um zumbi do outro lado do corredor, e foi só eu pensar nisso que seu olhar se desviou das tartarugas e me encarou. Não me reconheceu de primeira, então voltou a olhar de volta o aquário, mas, percebendo quem eu era, me olhou estático. Tudo isso em milésimos. Ficamos nos encarando por um longo tempo, até os turistas desistirem de tentar chamar a atenção de Danny e fazer novas perguntas. Se afastaram sem entender o desprezo momentâneo dele. Encarei o chão respirando com dificuldade e num ato de pura infantilidade comecei a me direcionar pra saída do corredor. Me virei completamente e comecei a andar rápido, sem saber direito pra onde ir. O lugar estava meio escuro e entre um corredor e outro uma penumbra em tons de azul atrapalhava mais ainda a visão. Senti uma mão em meu braço me segurando levemente. Meus joelhos falharam.
Danny me olhou com uma expressão de desapontamento mesclado em confusão.
- O que está fazendo aqui? – Me ouvi perguntar, num sussurro falho e sem forças.
- Eu faço estágio aqui. – respondeu ele simplesmente.
Ah, meu Deus. Como eu sentia falta dele. Daquela voz meio rouca, daqueles olhos que, por mais escuro e estranho que fosse aquele lugar, estavam mais azuis do que nunca. Do perfume. Ele continuava usando o mesmo perfume que, desde a primeira vez naquelas férias, me deixou com as pernas bambas. Como eu o amava e não tinha coragem de assumir.
- Não. Você não pode estar aqui. Era pra você estar em Oxford. – falei negando com a cabeça e olhando pros lados, segurando as lágrimas que já se formavam nos cantos dos meus olhos.
- Eu ganhei uma bolsa na universidade de Londres.
Eu estudava lá. Ele simplesmente não podia estudar lá também, aquilo iria me matar lentamente.
- Danny eu... preciso ir. – falei sem pensar e fiz menção de me afastar mas ele segurou a minha mão e me puxou novamente. Aquilo quase me matou.
- Você não pode simplesmente ir. – disse ele se aproximando de mim numa distância perigosa, me fazendo andar pra trás até sentir algo sólido nas costas. Droga, sem saída. – Nós, ahn, nós...
- Nós não temos nada nem nunca vamos ter. Me esquece, Daniel. Pela primeira e última vez, eu preciso seguir a minha vida. Sem você.
Ele entrelaçou os nossos dedos, me fazendo ofegar nervosa, sem tirar seus olhos dos meus por nenhum minuto sequer.
- Eu não vejo isso. Neles.
Eu sabia que ele estava se referindo aos meus olhos, e abaixei o olhar obrigando uma lágrima a escorrer.
- Você não sabe do que está falando. – falei tentando soltar meus dedos dos dele mas ele os apertou me impedindo do ato.
- Eu te amo, . Não faça isso comigo.
Senti mais algumas lágrimas escorrerem e pingarem na minha roupa e logo depois os dedos dele limpando o meu rosto. Aquilo não estava acontecendo. Olhei devagar para o seu rosto e simplesmente neguei com a cabeça, derrubando mais lágrimas silenciosas.
- ?
A pronúncia do meu nome fez Danny se afastar de mim assustado. Alice estava parada há alguns metros da gente.
- Eu... estava dando um tempo no barulho.
- É, dando um tempo com um cara., você já não está com problemas demais pra ficar de flerte com o cara que trabalha aqui? Achei que seu primo estava te impedindo de enchergar outros homens. É só te deixar sozinha né.
Danny me olhou com um sorriso imperceptível, e eu desviei o olhar. Alice SEMPRE estraga tudo.
- Por que vocês duas não conseguem ficar comigo? Não, sério, que eu saiba a gente veio junto.
Ótimo. Muito ótimo. surgiu atrás de Alice nos encarando sem entender. – Qual o problema?
Alice e Danny me olharam para saber o que eu ia responder. Droga, eu estava tão ferrada que era capaz de mergulhar num daqueles tanques e nunca mais voltar. Passei a mão no rosto desconfortável.
- Esse é o meu primo Danny. – soltei rápido encarando o chão e ouvi Alice soltar uma exclamação de incredulidade.
- Ele é mesmo lindo. – disse Alice e eu a olhei desesperada.
- O quê? Ahn, , esse é o meu primo. Danny, esse é o meu melhor amigo . – falei rápido tentando anular a frase desnecessária de Alice, mas a olhou bravo. Danny estendeu a mão e a apertou meio receoso.
- Hm, você é o Danny. Da fazenda. – murmurou ele sério e eu senti um tom de ciúmes na voz dele.
- É. – respondeu Danny simplesmente. – Estou estudando em Londres agora.
- Ah, bom pra você. Onde está estudando? – perguntou tentando manter uma conversa normal. Danny, não responda pelo amor de Deus.
- Na universidade de Londres.
levantou as sobrancelhas.
- Nós estudamos lá também. , como não sabia que seu primo estava na nossa universidade?
Encarei e pigarreei nervosa. O olhar de Danny em cima de mim estava praticamente me queimando.
- Ele não me contou. Ahn, vamos embora? Eu não estou me sentindo muito bem.
e Alice ficaram em silêncio por alguns segundos e murmuraram em concordância. Danny encarou Alice.
- Ah, essa é a Alice, estou morando com ela. – falei, percebendo que havia anulado Alice da conversa depois daquele fora gigantesco.
- Oi. – respondeu Danny sorrindo e ela sorriu de volta.
- Então vamos, paguei rios de dinheiro nesse troço pra você se sentir mal. , você é tão conveniente. – falou se afastando e percebi que a raiva dele não era por eu estar fazendo ele jogar dinheiro fora. Era por causa de Danny.
- Nos vemos. – murmurou Danny e eu não respondi, apenas encarei o chão. Danny sorriu para Alice e se afastou. Senti uma torneira ser aberta embaixo dos meus olhos depois que Danny desapareceu de vista. Alice correu pra me segurar, já que eu estava praticamente caindo no chão.
- Meu Deus do céu. – murmurou ela me abraçando e eu a abracei de volta, soluçando de desespero. – Tudo bem, , vai ficar tudo bem.
- Não, não vai. – falei com a cara enterrada no ombro dela.
- Isso foi muito estranho. – disse ela afagando as minhas costas. – Mas uma coisa eu concordo: você tem todos os motivos possíveis pra se apaixonar por ele. O cara é tipo o sonho de qualquer garota.
- Você não está ajudando.
- Sem falar na voz dele. Como você conseguiu ficar ouvindo essa voz sem se agarrar nele? Opa.
- Alice, quer fazer o favor de me consolar e falar mal dele?
- Caipira nojento.
A olhei sem ânimo e limpei meu rosto, agradecendo aos céus por minha maquiagem ser a prova d’água.
- Qual o problema? – ouvi a voz de se aproximando novamente. Ele olhou pro meu rosto sem entender. – Estava chorando?
- Ela teve um ataque repentino de alergia, tivemos que parar pra garota espirrar. Foram tipo vinte espirros seguidos.
- Você precisa mesmo ir pra casa, vamos. – disse me pegando pela mão. Alice nos seguiu me ajudando a caminhar, eu ainda estava meio tonta.
Quem não ficaria tonta.
Capítulo 3
Eu só queria um tempo. De tudo. Da minha vida embaraçada, onde cada fio fazia o favor de se enrolar da forma mais complexa possível, dificultando drasticamente o desenrolar final. Ou talvez apenas nem houvesse desenrolar final, eu ficaria naquela angústia e falta de vontade pro resto da minha vida. Pelo menos enquanto eu ainda sentisse nem que fosse um pingo de amor pelo Danny. Eu sabia que quando eu me libertasse daquele sentimento impulsivo e insano eu conseguiria viver em paz novamente, mas quem disse que seria fácil? E quem disse que eu queria parar de pensar nele. Por mais errado que fosse, por mais inconveniente e sem explicações que fosse o fato de eu estar apaixonada por ele, eu gostava disso. Lá no fundo era bom, um calor agradável que me fazia sorrir ao lembrar do próprio sorriso dele, de como ele olhava nos meus olhos de uma forma que me deixava transparente, ele sabia de tudo o que estava acontecendo pelos meus olhos, malditos denunciadores. Quando ele me tocava a corrente elétrica que chegava no meu coração agoniado era forte demais pra ser explicada com palavras. Só sentindo pra entender, e só com ele que eu me sentia assim. Nenhum outro garoto fez eu me sentir assim antes, como se o ar que eu respirava não fosse suficiente quando eu estava longe dele. Agora eu sabia que todas as vezes que nos encontrássemos de novo (não seriam poucas já que ele estava estudando na minha universidade) me fariam sentir tudo isso de uma vez só e em poucos segundos. Não sei se vou sobreviver por muito tempo, simplesmente a ausência desse garoto me deixa no escuro.
O fluxo da minha pulsação aumentou quando Alice me acordou naquela manhã, com uma expressão preocupada. Era só eu abrir os olhos que o meu coração começava a bater mais rápido.
- Como está se sentindo? Você se trancou no quarto ontem, nem tivemos tempo de conversar.
Passei os dedos nos olhos tentando focalizar Alice na minha frente.
- Eu precisava ficar sozinha, não que tenha adiantado alguma coisa.
Alice sorriu fraternalmente e tirou uma mecha de cabelo do meu rosto.
- Você vai ficar bem, eu prometo. Está tudo confuso agora, mas o nó vai se desfazer com o tempo.
Eu sentei na cama e senti o quarto girar. Existe ressaca de amor? Porque era o que eu estava sentindo.
- Você já se apaixonou? Tipo, de verdade. Como se você fosse capaz de fazer qualquer coisa por ele?
- Não. Eu sou virgem, se eu já tivesse me apaixonado, não seria mais virgem.
Rolei os olhos e me atirei pra trás já desistindo de começar uma conversa matinal profunda com Alice. Ela simplesmente não entendia nada, pra ela o que importava era o sexo. Espero realmente que ela se apaixone e perceba que sexo é insignificante perto do amor.
- É só que... não está certo. Está tudo errado. Como eu pude deixar chegar nesse ponto?
- Ué, porque não tem como controlar as coisas do coração.
Como ela sabia responder isso se nunca tinha se apaixonado? Decorou falas de filmes? Provavelmente.
- Quem sabe você não se arruma e tenta parar de sofrer um pouco? A sua alma já deve estar toda ferida e você só tem dezoito anos. Imagina quando for velha, não vai nem conseguir carregar todo esse peso.
- Eu não vou pra universidade hoje. – gemi, me tapando novamente com as cobertas até a cabeça. Alice riu sarcástica.
- É, vai ficar evitando a vida pra sempre? Uma hora ou outra você vai ter que enfrentar essa rival e a melhor forma de fazer isso é o mais cedo possível.
- Não consigo olhar pro mundo. Tudo me lembra ele.
- Claro, seu cérebro deve ter um grande “Danny” tatuado, você olha pra parede e lembra como ele ficava bonito encostado em paredes. Você olha pro céu e lembra como os olhos dele ficavam azuis sob o céu azul. Se for pensar assim, tudo vai lembrar ele mesmo. Para com isso e levanta.
- Quando você começar a gostar de alguém eu vou te encher tanto o saco e vou fingir que não sei pelo que você está passando. A vingança vai ser doce.
- Isso nunca vai acontecer porque eu não sou nem metade melodramática. Nem vou verbalizar meus sentimentos pra você.
Olhei para Alice séria, depois levantei da cama meio tonta.
- Você já verbaliza sua falta de sexo, imagina quando fizer.
Entrei no banheiro e fechei a porta, deixando pra trás uma Alice replicando minha deixa com argumentos falhos. Abri o chuveiro e enquanto esperava a água esquentar, encarei meu rosto cansado no espelho. Quem me conhecesse diria que eu estava com alguma doença grave, eu parecia um zumbi com ressaca. Desci meus olhos para minha barriga e um senti um frio na mesma. Ainda estava com medo da possível gravidez, eu era completamente neurótica em relação a isso, mas sempre fui cuidadosa. Eu precisava dar um jeito nessa angústia, minha vida já estava muito tensa pra mais um problema martelar na minha cabeça.
° ° °
Por incrível que pareça, quando desci os dois andares que me separavam da vida, John e Pat estavam se olhando sem ânimo sentados na bancada que dividia a cozinha da sala de estar. Pat bebericava sem vontade um copo de suco de laranja e John mordia um donnut, segurando um baseado na outra mão. Não preciso nem comentar a falta de noção de uma pessoa que fuma de manhã cedo.
- Jones, nem te vi ontem de noite. – murmurou John me olhando com os olhos pesados e uma voz fanha. Sentei ao lado de Pat e puxei o jornal para dar uma revirada enquanto ainda não precisava correr pra universidade.
- Fiquei no estágio até tarde. – respondi virando a primeira página e dando de cara com uma foto da Lady Gaga vestida de carne crua. Suspirei de desgosto e virei para a seguinte. – Aliás, tive um encontro tenso ontem.
- Do que está falando? – perguntou ele me empurrando um prato com donnuts. Fitei a comida com receio, não fazendo ideia de onde ele tinha tirado aquilo e então pesquei um.
- Minha prima.
- FALA SÉRIO! – gritou ele empolgado me olhando faminto. Pat se engasgou com a risada.
- Ela estava lá com os amigos, foi muito desagradável. Principalmente a parte que ela me deu um fora lindo.
John me olhou cético. Ele sabia que eu não iria desistir assim tão fácil.
- Eu fiz o que manda o manual dos primos desolados. Me abri. Não adiantou merda nenhuma.
- Claro que adiantou.
- Na verdade ela começou a chorar e a gente quase se beijou. Eu quase beijei ela, enfim.
- É disso que eu estou falando! Drama no meio dos peixes, Danny, sua vida é um mar de emoções. Sabe o que é esse jogo todo de conquistas e resistências? Eu não tenho isso faz um bom tempo.
- Sim, você come as garotas e nem sabe o nome delas.
- Seus amores já estão suficientes.
- Podemos escrever algumas músicas sobre a agonia do Danny. – murmurou Pat e John virou o rosto lentamente para o amigo com uma cara predadora.
- Pat, você é a pessoa mais genial que existe na face da terra. Danny, nos mantenha informado de todos os seus passos com sua prima.
Olhei de um para o outro indignado.
- Minha vida não é tema pra música! Acham que eu vou deixar vocês exporem minhas intimidades? Nem pensar. – falei continuando a ler o jornal. John me deu um tapa repentino na cabeça.
- Pare de viadagem, vamos escrever hits. Você vai ficar famoso como o protagonista dos nossos sucessos depressivos.
- E eu lá quero ser famoso.
Um anúncio no canto inferior da página do jornal me chamou a atenção. Um pub no centro estava precisando de alguém aos sábados à noite para se apresentar. Eu tinha que ganhar uma grana. Rasguei a parte que me interessava, enquanto John paparicava ao fundo sobre como a vida real influenciava suas inspirações e em como eu poderia participar disso.
- O que é isso? – Ele parou de falar me olhando sem entender.
- Eu procurando um bico extra.
- Você vai morrer de tanto trabalhar!
- Você deveria fazer o mesmo, em vez de ficar o dia inteiro nessa caverna fumando e fingindo que está escrevendo músicas. Eu sei que você não escreve faz um bom tempo.
John me olhou ofendido com uma cara engraçada.
- Saiba que escrever músicas não é pra qualquer babaca. Tente você.
- Escrever eu não sei, mas tocar... – Entreguei a ele o pedaço rasgado e ele leu concentrado.
- Ah, vai ser nossa concorrência é? – perguntou ele com um sorriso malicioso enquanto Pat puxava o papel da mão dele e lia também.
- Vocês estão no ramo por fama, eu vou tentar por dinheiro. Agora com licença que alguém nessa casa precisa estudar.
Arranquei o papel das mãos de Pat e, roubando mais um donnut do prato de John, deixei a sala e os dois intrigados.
° ° °
O intervalo daquela manhã – finalmente fria – típica de Londres estava me deixando apreensiva. Como se eu não fosse uma pessoa apreensiva normalmente. Olhava pros lados desconfiada enquanto Alice lixava as unhas sentada num banco com muita atenção e cuidado. Até língua pra fora a garota estava colocando. Se eu estivesse numa situação normal, riria.
Nos intervalos os pátios lotavam de estudantes ricos e bem vestidos de todos os cursos borbulhando de fofocas para espalhar. Não sei se eu estava fora do normal mas sentia meu sutiã apertar meu peito e impedir minha respiração de uma forma desconfortável. Não sei como mas no momento em que pensei isso senti ele abrir de repente e aparecer rindo na minha frente.
- QUE DROGA! FECHA ISSO AGORA!
Levantei irritada do encosto do banco onde eu estava sentada e virei de costas pra ele. Garotos tinham essa mania boba e sem graça nenhuma. Acho que fazendo isso eles provavam pra si mesmos que conseguiam abrir um sutiã com uma mão. Patéticos.
- Qual dos níveis? – perguntou ele rindo e eu bufei de raiva. Ninguém mandou ele abrir aquela merda.
- Último. – murmurei entre dentes aproveitando pra liberar a minha respiração antes apertada pelo primeiro fecho do sutiã.
- Desculpa tenho-peitos-grandes-o-suficiente-para-usar-no-último-nível. – disse ele ainda rindo tentando enfiar o gancho na argola, mas sem sucesso.
- Ah pra abrir você é rápido, agora na hora de fechar você é um lento.
- A minha área é abrir né. Fechar é com vocês. – finalmente ele conseguiu fechar e senti sua mão escorregando do sutiã até minha cintura descoberta. No meio do campus. Dei um pulo e ele me puxou, dando um beijo no meu pescoço. Bem no momento em que eu me encolhi ao toque dos seus lábios na minha pele e comecei a rir descontroladamente avistei ao longe quem eu menos queria ver naquele momento. E quem eu menos queria que visse aquela cena de amorzinho.
Danny caminhava com as mãos nos bolsos da frente da jeans e com um olhar fuzilante sobre nós. Eu afastei rápido e encarei o chão, desviando o olhar do dele. Sentei ao lado de Alice que me olhou sem entender. Arrisquei checar onde Danny estava há segundos atrás mas não havia mais nada, só algumas garotas rindo. Meu coração estava batendo num fluxo desumano, me dando a impressão de que todos a minha volta podiam ouvir também. Além de mim, claro, que estava quase surda com as batidas. Um vento repentino e forte passou por nós e eu encolhi minhas pernas com o olhar fixo na grama a minha frente. Aquilo iria acontecer uma hora ou outra, eu sabia disso. Mas por mais que eu soubesse que teria que ver Danny naquela universidade, só de pensar na sensação de trocar um único olhar com ele me dava calafrios tão intensos que nem a corrente mais forte de vento causava.
Senti meu celular vibrar no bolso traseiro da jeans. Levantei do banco e me afastei dos dois.
- Alô?
- Finalmente consigo ouvir a voz da minha filha!
Era minha mãe. Ótima hora pra ligar, mãe. Quando sua filha está no meio de um furacão de sentimentos.
- Mãe, nos vimos fim de semana passado. – respondi sem ânimo andando de um lado pro outro enquanto chutava uma pedrinha.
- Não me acostumo com o fato de não te ver mais todos os dias. Como andam as coisas?
- Ótimas. – murmurei com uma falha perceptível, mentir não era o meu forte.
- Estão se comportando, você e Alice? Espero que estejam limpando o apartamento.
Rolei os olhos incrédula.
- Estamos, mãe. Eu já tenho quase dezenove anos. Isso é quase vinte. Um quinto de cem anos. Sou muito vivida.
- Sei, você ainda tem muito o que viver e aprender. Enfim, está na universidade, não é?
- Sim, estamos no intervalo. Sorte sua, se esse celular tocasse no meio da aula eu era expulsa.
- Sua tolinha, eu sei todos os seus horários! Mas estou te ligando pra te contar uma novidade que talvez você nem esteja sabendo ainda.
- Duvido, eu sei de tudo.
- Seu primo está na cidade! Dá pra acreditar? Ele está morando em Londres! E está estudando na mesma faculdade que você. Isso é muito bom, vocês podem se ver todos os dias.
Era só o que me faltava mesmo. Meus pais ficarem sabendo do Danny. Agora mesmo que eu nunca iria esquecer esse caipira idiota, pra onde eu ia tinha ele. Engoli em seco pensando se fingia surpresa ou respondia simpática que já tinha falado com ele e que saímos pra tomar um sorvete e conversar sobre coisas banais. Ah, Deus. Nunca me imaginaria fazendo isso com Danny.
- Ah, sim. Eu sei, já vi ele.
- Espero que tenha sido a filha que eu eduquei e tenha falado com o garoto. Eu sei que vocês têm problemas de relação, mas ele é da sua família. Eu esperava que vocês tivessem resolvido isso na semana que passou na fazenda.
- É, nós estamos normais agora.
- Que bom! Porque quero que convide ele pra jantar aqui em casa sábado à noite. Faça isso hoje, querida, é muito importante. Seu pai está louco pra conversar com Daniel.
- MÃE. Pelo amor de Deus, isso não vai acontecer. Não com a minha presença.
- , eu não estou acreditando na sua impessoalidade. Você vai vir nesse jantar e vai trazer o seu primo, é uma ordem. Somos uma família!
- Isso é totalmente não negociável. Impossível, eu não vou falar com ele. E nem vai ter jantar nenhum.
- Está querendo voltar a morar com a gente, mocinha? Discuta comigo mais uma vez sobre isso e vai voltar pro ninho.
- Você só pode estar brincando. Me fazer largar Alice por causa daquele... caipira idiota. Mãe, não tem NADA a ver jantar com ele. Pare de inventar moda!
- Seu pai vai ficar sabendo dessa sua teimosia, deixa eu só desligar o telefone.
- TÁ! Tudo bem, eu convido. Que droga. Vou me matar.
- Pare de drama. Pegue um papel e uma caneta, vou te passar o endereço dele caso não o encontre na universidade.
Fitei o tronco da árvore na minha frente incrédula. Ela queria que eu fosse ATÉ o subúrbio onde ele estava morando pra convidá-lo pra jantar. Porque minha vida não podia simplesmente parar de ficar mais tosca possível? Já estava tudo tão ferrado antes dessa ligação...
- Não precisa. Eu falo com ele aqui.
- Mas eu vou te passar de qualquer jeito, pegue algo pra anotar.
Segurei um grito de raiva e andei até Alice fazendo sinal para me arranjar algo pra anotar. Ela abriu a bolsa com pressa e tirou sua agenda e uma caneta, me entregando. Anotei o endereço demoníaco e desliguei o celular.
- ARGH! – gritei atirando a caneta e a agenda para Alice que por milésimos não levava uma na cara. Ela encarou a página aberta onde eu tinha escrito o endereço e depois me olhou esperando alguma explicação. fez o mesmo.
- De quem é isso? – perguntou ele curioso.
Olhei significativamente para Alice que, se eu não estava enganada, entendeu de quem era.
- Do Danny. – respondi desviando o olhar de que me olhou sério.
- Pra que o endereço do Danny?
- Minha mãe quer que eu o convide pra jantar na casa dos meus pais.
- Você pode convidar aqui mesmo! – disse ele rápido. Eu estava quase explodindo e não estava afim de explicar as loucuras da minha mãe. Peguei a agenda da mão de Alice e arranquei a página com o endereço, guardando no bolso.
- Eu preciso ir no banheiro. – murmurei pegando minha mochila do banco e desaparecendo da frente dos dois perdidos.
Se você estiver ferrada e se perguntar se pode ficar pior ou não, aqui vai a resposta: sim, pode ficar MUITO pior.
° ° °
Eu não sou uma pessoa escandalosa e nem transparente, eu simplesmente mantenho dentro de mim tudo o que eu sinto. Acredito ser uma qualidade incrível, mas em relação à nada comigo é comum. Simplesmente deixei a universidade momentos depois de ver ela com outro garoto. Eu estava me sentindo tão deslocado, tão intruso naquele lugar, que eu precisava sair dali. O que eu estava pensando? Que ela sem pensar duas vezes largaria tudo e correria pros meus braços? Que eu não teria que conviver com a rejeição? Odiava profundamente essa minha ingenuidade do interior. É cruel, mas é verdade. Eu era um idiota. E pensar que uma ponta de esperança surgiu dentro de mim depois daquela tarde no aquário.
Coloquei o capuz do moletom que estava usando e fechei o casaco até o pescoço, alguns respingos estavam começando a cair do céu. Talvez embaixo da chuva minhas estúpidas lágrimas seriam invisíveis. Eu parecia uma garotinha traída, mas era inevitável. Chutei com força um saco de lixo que estava no meio da calçada e ele abriu, esparramando tudo pelo chão. Eu tinha vontade de sair quebrando tudo, berrando pro mundo como eu era otário e inexperiente. Incrível como segundos podem arruinar o seu dia, incrível como um simples ato de duas pessoas podem arruinar as suas esperanças.
Caminhei pelas ruas de Londres por um bom tempo esquecendo completamente das aulas e de que eu tinha uma bolsa a cumprir. Bolsistas não tinham o direito de se dar ao luxo de, num ataque de ciúmes, matar aula e perambular pela cidade sem destino. Mas eu estava fazendo isso, menino selvagem e destemido. Patético.
Entrei no primeiro pub que encontrei, não fazia ideia de onde estava. Um cheiro agradável de comida fez meu estômago roncar, e percebi que já estava perto do meio dia. Tirei o capuz encharcado do moletom e sentei no balcão esperando alguém me notar e me atender. O que não aconteceu. Tossi encarando o atendente gordo e careca que limpava uns copos de vidro com um pano imundo. Ele me olhou e andou até mim.
- O que quer?
- O que vocês têm pra comer?
- Temos o prato do dia, senhor, recomendado pelo chefe. – murmurou ele irônico e alguns homens num canto riram. Porque todo mundo tinha que me fazer sentir mal tipo o tempo inteiro? Cara, eu era amaldiçoado.
- Como você é desalmado, homem, tratar o garoto desse jeito!
Uma mulher, igualmente gorda, surgiu dos fundos do pub e deu com um pano de prato no homem que resmungou e voltou a fazer o que estava fazendo. Ela veio sorrindo até mim.
- Bom dia, querido, está com fome?
Lembrou a minha avó, e eu senti uma nostalgia dentro de mim.
- É, pode ser.
- Eu vou te trazer o prato do dia, ignore esses bêbados. – falou ela sorrindo e pegou um copo vazio, colocando na minha frente e ao lado uma latinha de coca. Sorri agradecido quando ela desapareceu pela suposta cozinha do lugar. Examinei por cima o copo e a latinha com medo de encontrar alguma coisa não identificável e me servi, bebendo um gole. Acho que a mulher tinha me achado menor de idade por me oferecer uma coca, mas eu estava muito cansado e com fome pra discutir. Senti alguém sentar do meu lado e me olhar com atenção. Me virei devagar e uma mulher que eu julguei ter uns quarenta anos me fitava com curiosidade. Ela na verdade era bem bonita para estar naquele lixo de lugar.
- Desculpe, perdeu alguma coisa? – perguntei receoso percebendo que a mulher não ia desistir de tirar os olhos da minha cara.
- Ah, me desculpe. Você me pareceu alguém que... eu conheço. – respondeu ela desviando os olhos do meu rosto e encarando o copo de uísque na sua mão. Me senti uma criança idiota bebendo coca conversando com uma mulher bonita. Nota dez pra mim.
- Quem?
Ela demorou um pouco pra responder.
- Filho de um amigo meu. O velho Steve Jones, devo muito àquele homem.
Arregalei os olhos a encarando com medo. Ela acabara de citar o nome do meu pai ou eu estava tendo audio-alucinações? Se é que isso existe?
- Como é o nome do filho desse cara? – perguntei rápido demais e ela me olhou sem entender.
- Daniel.
- Oh, meu Deus. – murmurei a olhando espantado. – Sou eu.
- Daniel? Danny? – perguntou ela sorrindo para mim. Eu concordei meio perdido.
- Meu pai é Steve Jones e meu nome é Daniel.
- Eu não acredito. – disse ela sorrindo até demais e jurei que uma lágrima escorreu dos olhos dela, enquanto ela segurava meu rosto e me analisava.
- Desculpe mas da onde nos conhece?
Ela colocou uma das mãos na boca e olhou pro nada espantada.
- Eu fui uma grande amiga do seu pai antes de você... nascer. E continuei sendo depois também.
- “Amiga” você diz...
- Ah Danny, não seja bobo. Somos amigos, nada mais.
Ao ouvir ela me chamar de Danny senti algo estranho dentro de mim. Parecia conhecer ela de algum lugar, mas não sabia da onde. Ela era muito familiar. Era bom ouvir a voz dela, e isso era muito estranho. Parecia que eu já tinha ouvido ela pela minha vida toda.
- Ahn, como se chama?
- Tracy Stewart. – respondeu ela ainda sorrindo ao me olhar nos olhos. Aquilo estava muito estranho. – Mas me conte, Danny, que eu me lembre você e seu pai são de Bolton!
- Estou estudando aqui em Londres.
- Ah é? O quê?
- Biologia marinha.
- Como pude esquecer, você sempre teve aptidão nessa área...
- Como sabe disso? – perguntei já começando a sentir medo. Ela estava agindo como se tivéssemos um longo passado.
- Ah, seu pai me falava muito sobre você. Ele tem muito orgulho do filho que tem. – respondeu ela fungando emocionada. A gorda saiu de dentro da cozinha e colocou na minha frente um prato de comida. Purê de batatas e bife acebolado. O cheiro me deixou tonto, eu estava morrendo de fome.
- Não vou mais te atrapalhar, pode comer.
- Tudo bem, não está atrapalhando. – falei pegando os talheres e começando a comer.
- Ah Daniel, como você cresceu. – murmurou ela colocando a mão no meu ombro maternalmente. Sorri sem graça.
- O que faz da vida? – perguntei tentando anular o silêncio entre nós enquanto comia. Era meio estranho.
- Eu tenho uma loja. Nada demais, artigos Wicca. Seu pai nunca aprovou esse meu gosto excêntrico.
- Você... é uma bruxa? – perguntei parecendo um garotinho assustado. Ela riu se divertindo com a minha ignorância.
- Somos incompreendidas. Tem muitas pessoas por aí que fazem parte desse “ramo” e você não faz a mínima ideia.
Olhei discretamente para a sua roupa, esperando ver ela usando um vestido preto ou algo do tipo, mas nada além de calças jeans e um casaco surrado de couro.
- A mídia exagera. Quer dizer, você não vai me ver voando numa vassoura de palha dentro de um vestido preto. – disse ela rindo lendo meus pensamentos. – É uma religião como qualquer outra.
- Eu acho... legal essas coisas.
O sorriso dela se abriu parecendo orgulhosa.
- Que bom, talvez um dia possa ver minha loja. Adolescentes particularmente gostam de entrar lá.
Quase falei que eu já era um adulto mas para adultos somos sempre adolescentes então não discuti, apenas concordei. Me perguntei mentalmente da onde meu pai tirava essas amizades alternativas. Quer dizer, a mulher acabou de me contar que é uma bruxa. Eu nem sabia que existia esse troço de bruxaria. Meu Deus, Danny, você é um caipira sem cultura.
- Algo o preocupa. – murmurou ela dando um gole no uísque e encarando o balcão velho de madeira. – Uma garota.
Tudo bem, eu estava realmente começando a ficar com medo. E achando meio legal ao mesmo tempo. Fala sério, ela conseguiu adivinhar o meu problema.
- Você tem algum tipo de poder mágico?
Ela riu.
- Só conheço meu... Eu conheço os homens. São todos iguais, posso sentir a sua tensão.
- Não é nada demais.
- Claro que não. Ela gosta de você, espere as coisas se acertarem e você verá.
A olhei por alguns segundos espantado.
- Posso me consultar com você? Não, é sério. O que mais você sabe? – perguntei falando sério e ela riu.
- Sei que você é um garoto valioso, sincero e fiel. E sei que no final tudo termina bem, então não deixe o passado arruinar a sua existência e viva o presente. Tudo vai terminar como você quer.
Confesso que fiquei sem palavras. Esperei realmente que ela estivesse falando a verdade e me empolguei um pouco. Não que eu estivesse acreditando nas previsões de uma louca que surgiu do nada dizendo que era amiga do meu pai mas qualquer coisa naquele momento me animava.
° ° °
É claro que eu não consegui encontrar Danny em lugar nenhum depois da ligação da minha mãe e aquilo me desesperou completamente. Quando eu queria ver aquele garoto ele não aparecia, mas nos momentos mais tensos lá estava ele com aquele olhar profundo e aquele jeito hipnotizável. Não que eu me importasse com isso. Já era sete da noite e eu estava enrolando e andando pelo apartamento sem saber o que fazer. O turno do abominável deveria acabar em algumas horas e eu seria obrigada a ir convidar ele pra essa zica da minha mãe, se não adeus morar sozinha com a melhor amiga. Sentei em frente à Alice na mesa de jantar enquanto ela estudava concentrada. Talvez nem tanto.
- Pare de andar pela casa e vá convidar o seu primo pra jantar com a sua família. Uma hora ou outra isso vai ter que acontecer.
- Já sei. Você vai comigo. Assim eu não preciso ficar sozinha com ele e tudo vai ser rápido e natural.
Alice riu irônica.
- Tudo o que eu quero é que você fique sozinha com o lindo do seu primo e ele te coma de nova pra você parar de encher o meu saco!
- Credo! Para com isso! Isso nunca iria acontecer, que medicamentos você anda consumindo Alice?
- O medicamento da realidade. – respondeu ela sem tirar os olhos do livro grosso. Eu grunhi mas ela me ignorou. – Tá, , para de me incomodar. Daqui a pouco o garoto já deve estar até dormindo e você vai lá acordar ele. Levanta essa bunda daí se quer continuar morando comigo.
Levantei devagar da cadeira e fui até o quarto pegar a minha bolsa. Londres não era uma cidade perigosa pra se andar de noite mas mesmo assim eu não gostava de fazer isso.
- Me deseje sorte e que nada de tenso aconteça. – falei voltando do quarto e pegando o telefone para chamar um táxi.
- Que você não volte pra casa hoje e que tenham uma noite de sexo louca. Boa sorte.
- Eu vou te matar. – murmurei antes que alguém atendesse do outro lado.
A cidade já estava bem vazia quando finalmente chegamos na rua de Danny, praticamente do outro lado do mundo. Fiquei até com um pouco de inveja por ele morar numa casa maior que o nosso apartamento no centro. Foi daí que eu suspeitei que ele não morava sozinho. Enfrentar outras pessoas: não nos meus planos. Paguei o taxista e saí meio tremendo de desespero de dentro do táxi. Parei na frente da porta que era antecedida por algumas escadas e respirei fundo umas trinta vezes antes de tocar a campainha. Ouvi vozes masculinas do lado de dentro, uns resmungos e a porta se abriu, revelando um forte cheiro de... maconha? Daniel? Não era Danny. Era um cara muito mais alto que ele, magro e bem bonito. Ele usava uma camiseta surrada, calças de pijama e chinelos de dedo. Segurava uma caneca na mão e me encarava com atenção e um sorriso malicioso.
- DEVE SER PRA MIM MESMO! – gritou ele pro lado de dentro e voltou a me olhar com interesse. – Como posso ajudá-la? É uma fã?
- Fã do que? – perguntei perdida enquanto ele ficava sério e fazia uma cara perdida também.
- Como assim do que? Da minha banda! Não é por isso que está aqui?
- Eu estou aqui pra falar com... ahn... meu primo. Daniel. Acho que ele mora aqui.
O garoto demorou um pouco pra assimilar os dados mas depois de alguns segundos arregalou os olhos e soltou uma expressão de espanto. Mais conhecida como:
- QUE PORRA! Você é a prima do Danny? Caralho.
Eu o olhei espantada pela quantidade de palavrões seguidos e concordei.
- Sim, puxa, você pode deixar um recado pra ele? Seria bem melhor do que...
- Nem pensar, entre agora. Está frio e escuro aí fora.
Droga, eu tinha esperanças. Ele me deu espaço e eu entrei receosa dentro da casa. Um garoto surgiu na minha frente com um papel higiênico na mão.
- Sabe o nome disso, O’Callaghan? Papel higiênico. E fica no banheiro. Quando você terminar de usar, REPONHA!
Eu conhecia aquele garoto.
- Hey, você não é daquela banda que me parou no meio da rua? – perguntei me lembrando do rosto do mais assanhado deles.
- Wow. John, eu não acredito que você conseguiu... ?
- Você lembra o meu nome?
- Você é bonita, eu não esqueço nomes de pessoas bonitas. Eu sou o Kennedy, se não lembra. Eu sou feio, é obvio que não lembra.
Eu ri e John o fuzilou.
- Eu sou péssima com nomes. Por isso eu não conheço você. – falei me virando para John. – Não estava no dia que eles nos pararam na rua.
- Infelizmente você perdeu o melhor de todos. Eu estava buscando o seu priminho, aliás. Ele está no quarto, último andar. Pode ficar por aí, adoramos garotas pela casa.
O olhei estranho.
- Tudo bem, eu só vou falar rápido.
Subi as escadas e pude ouvir Kennedy se gabando de algo sobre mim para John antes de lembrar o que eu estava prestes a enfrentar. Danny num quarto. Eu estava temendo isso mais do que qualquer outra coisa. O segundo andar tinha umas quatro portas que julguei serem os quartos dos integrantes da banda. Subi o último andar que nem tinha corredor, apenas uma porta e um espaço na frente pra pisar. Parei na frente da porta e pensei em voltar e mandar pro inferno esse jantar idiota, tudo tinha que ser complicado na minha vida. Mas quando vi já tinha batido. Quando vi eu estava sim querendo entrar naquele quarto.
- Desde quando você bate? – ouvi a voz de Danny dentro do quarto e imaginei que ele estava achando que era um dos garotos. É óbvio, na verdade. Quem mais seria? Eu?
Abri a porta devagar fechando os olhos com medo de assustar o garoto, mas ele estava de costas sentado na escrivaninha. O quarto era bem sótão mesmo, definição que substitui sujo e velho.
- O que você q... – Danny se virou falando e parou estático sem se mover quando me viu. Piscou algumas vezes pra se certificar de que aquilo era mesmo real e se levantou rápido. Droga, ele estava de boxers. O que eu fiz pra merecer isso, Deus? Me concentrei no rosto dele, por mais que aquilo fosse desconcertante. Ele ainda me encarava espantado.
- Eu... vim te convidar pra jantar. – Danny se engasgou, tossindo e eu corrigi desesperada. – Não, quer dizer, pra um jantar.
- Ahn, tá. Pode sentar, eu acho. Se quiser. – falou ele confuso apontando a cama semi arrumada e eu concordei, me sentando e sentindo uma vontade gritante de me deitar ali com ele. FOCO, .
- Meus pais descobriram que você está morando aqui, provavelmente pela vovó ou sei lá, e eles querem fazer um jantar pra você. É besteira, eu disse que não tinha nada a ver, mas minha mãe insistiu. Meu pai quer saber como você está e essas coisas.
Danny ouviu minha explicação com atenção encostado na mesa, como ele podia ter tanta calma com tamanha tensão sexual presente dentro daquele quarto?
- Quando? – perguntou ele e eu demorei um pouco pra traduzir a pergunta na minha mente. Meu coração estava quase pulando pra fora, ia ser sanguinário o negócio.
- Ahn, nesse sábado.
Ele concordou encarando o chão.
- Pode dizer pros seus pais que eu irei. – disse ele com um pequeno sorriso e eu tive vontade de chorar. Não sorria na minha presença, Daniel, isso é crueldade. – Era só isso?
- E-era. – respondi desviando o olhar pra mesa onde ele estava apoiado. Levantei e caminhei lentamente até a porta, esperando que ele fosse me chamar de volta que nem nos filmes ou algo do tipo. Mas o silêncio podia ser cortado com uma tesoura. Me virei pra ele que ainda me encarava na mesma posição, porém com uma expressão desanimada. – Boa noite.
- Boa noite. – respondeu ele e eu saí, fechando a porta atrás de mim.
Feito, fim do sofrimento. Respirei direito pela primeira vez naqueles longos minutos e fechei os olhos, tentando me controlar. Não faça isso, . Vai se arrepender tanto. Vai se culpar pro resto da vida e vai arruinar tudo. Eu era razão contra emoção naquele momento de tensão na frente da porta do garoto ao lado de fora. Mas eu sabia que não ia adiantar pensar no dia seguinte, nas conseqüências. Quando vi já estava fechando a porta atrás de mim dentro do quarto de Danny novamente, que ainda estava parado no mesmo lugar e me olhou sem entender. O encarei por alguns segundos de dúvida e desespero e ele se desencostou da mesa começando a andar na minha direção. Tirei a mão da maçaneta e caminhei rápido até ele, grudando nossos lábios sem excitar nenhum segundo. O abracei forte pelo pescoço enquanto o beijo se intensificava, tudo o que eu precisava para viver. Mais nada. Ele me abraçou pela cintura com a mesma intensidade, eu podia sentir a saudade fluindo por entre os nossos corpos, o meu frio e o dele quente. Coloquei uma de minhas mãos em seu cabelo e comecei a mexer carinhosamente, enquanto suas mãos escorregavam por dentro de minha blusa, tocando minha pele fria e causando um choque seguido de um arrepio de corpo inteiro. Nada importava naquele momento, que fosse pro inferno a razão. Eu amava aquele garoto e tinha os meus direitos. Senti uma lágrima escorrer dos meus olhos, não sei se de tristeza ou felicidade, eram ambos os sentimentos brigando dentro de mim. A lágrima se misturou com o beijo e Danny parou com dificuldade, me olhando com um sorriso encantador. Secou meu rosto e simplesmente me abraçou. Foi o suficiente para todos os meus problemas evaporarem. Eu não tinha problemas, eu estava com ele.
- Me desculpe. – ouvi ele murmurar no meu ouvido e fechei os olhos.
- Esqueça, eu te amo, Daniel. – falei me separando dele e o dando um selinho demorado.
- Não sabe como eu sonhei com isso. Essas palavras. – disse ele quando voltei a encarar aqueles olhos azuis, agora brilhantes. Passei minha mão delicadamente pelo seu rosto e ele fechou os olhos sorrindo.
- Você sempre soube, Danny. – falei e ele abriu os olhos, grudando os lábios no meu pescoço e subindo até meu ouvido.
- Tendo a minha sorte, dúvidas são freqüentes.
- Tendo uma prima tão difícil e dramática, as dúvidas são freqüentes. – O corrigi e ele riu, mordendo o lábio logo em seguida. Ficamos em silêncio por alguns segundos, apenas com ele fazendo carinho na minha nuca. Eu queria ficar ali pra sempre, mas sabia que não podia.
- Está ficando tarde, eu preciso voltar pra casa.
Ele concordou e nos soltamos. Tentei arrumar o cabelo e secar o rosto.
- É nessas horas que eu me sinto idiota por não ter um carro.
- Que besteira. Eu vou de táxi, sempre ando de táxi.
- Quer que eu te acompanhe? Essa hora...
- Não precisa, eu vim sozinha.
- Então eu vou com você até a porta.
Concordei e ele vestiu um moletom que estava pendurado na cadeira. Enquanto descíamos as escadas eu chamei o táxi. Chegando no primeiro andar, percebi John, Kennedy e outro integrante da banda que eu não sabia o nome jogados no sofá da sala de estar jogando cartas. John olhou para Danny com um sorriso cheio de significados e Danny disfarçou, olhando para todos.
- Essa é a minha prima, .
- Já sabemos. Parabéns, campeão. Sortudo filho da puta. – disse John tossindo as últimas palavras. – “Só vou falar rápido”. – ele me imitou levantando do sofá e indo até a cozinha que era aberta. – Se isso foi rápido, imaginem eles com tempo.
- John, porque você não cuida da sua vida? Seria bem bom, pra variar. – disse Danny o olhando com raiva.
- Você é a minha vida agora, Edward. – falou John com voz de mulher e eu ri, assim como os outros dois sentados. Uma buzina nos tirou a atenção e eu encarei Danny.
- É o táxi.
- Eu vou com você até ali.
Ele abriu a porta da frente e saímos para o frio da noite. Vi Danny se encolher nas boxers e senti uma pena profunda. Em vez de ele me dar tchau e entrar ele andou até o taxista e tirou a carteira do bolso.
- O que está fazendo? Pare, não precisa pagar.
- Você veio até aqui pra me avisar do jantar, me sinto na obrigação de no mínimo pagar isso.
Ele estava tão determinado que não tentei discutir. Entregou o dinheiro para o motorista e abriu a porta de trás pra mim.
- Nos vemos. – murmurou ele e eu o segurei pelo rosto e o beijei na bochecha. Sorri, entrando no táxi e ele bateu a porta.
Capítulo 4
Abri a porta do apartamento com cautela, provavelmente Alice estaria atirada no sofá me esperando, como bem a conheço, tentando manter a cabeça em pé de tanto sono. Não a culpo, dormir é uma das virtudes da vida, eu era uma praticante fiel. Teve uma época da minha vida, lá pelos quinze anos, que bastava encostar em algum lugar que era prato cheio para pegar no sono. Bons tempos. Ultimamente a insônia tem se hospedado no meu corpo.
Fechei a porta silenciosamente e encarei a televisão na sala de estar ligada, passava algum episódio de Supernatural que eu já havia assistido. Rastros de Alice detectados. Me virei em direção à cozinha, cuja luz estava acesa, levando um susto. Só tive tempo de ver Alice atirar um copo cheio de suco de laranja pra cima junto com um prato de cookies. Ficamos nos encarando paralisadas por alguns segundos, com expressões de horror, tanto pelo susto como pelo desastre feito por ela.
- Merda, ! – exclamou ela, limpando o braço melecado com a barra da blusa. Levei as mãos à boca meio rindo.
- Mil perdões. – murmurei rindo sob o olhar de raiva de minha amiga.
- Você tem noção do nível de estresse que eu chego quando assisto Supernatural sozinha em casa? Preciso falar?
- Não, era o episódio da Bloody Mary, né?
- E se for? Essas coisas não existem.
- Ah sim, vejo como você faz jus à sua ideologia.
- Ah, cala boca. – resmungou ela se ajoelhando e começando a juntar os biscoitos do chão, que agora estavam boiando no meio do suco esparramado. Me abaixei e peguei alguns em silêncio.
- AH! COMO FOI COM O DANNY? – gritou ela do nada atirando os cookies pra cima novamente e me puxando com ansiedade pra cima. – Meu Deus, como eu consigo esquecer de coisas assim? – disse ela, me arrastando pra sala de estar. Droga. Prontos para uma Alice convencida? Eu não.
Sentamos no sofá por cima dos cobertores em quantidades exageradas espalhados por todos os lados, eu sabia que ela usava essa tática para se sentir menos sozinha e menos em perigo. Na verdade dá um pouco certo sim. Olhei pros lados sem expressão buscando alguma desculpa ou mentira em vez da verdade, mas o que vinha na minha mente eram apenas cenas de Danny nas suas boxers me agarrando. Ótimo.
- VAMOS! Ah, meu Deus. Eu conheço essa cara de culpa. – disse ela começando a abrir um sorriso cheio de significados.
- Não é nada do que você está pensando. Eu apenas transmiti o pedido da minha mãe e saí do quarto.
- AI, FOI NO QUARTO DELE! SOZINHOS. TENSO, TENSO.
- Foi bem tenso mesmo se quer saber.
- Tudo bem, você saiu do quarto, e depois?
Por que essa maldita tinha que me conhecer melhor do que eu mesmo? E eu lá disse que tinha “depois”?
- Depois o que? Eu fui... embora.
Alice riu profundamente, chegando a bater palmas. Dei um tapa no seu braço.
- Sua garganta está engolindo seco constantemente e você fica esfregando as mãos nas coxas. Por favor, . Não tente passar por cima dos sinais óbvios.
Caralho, o que essa garota é? Uma detetive particular dos meus pais? Credo, nem é bom lembrar deles depois desse trágico acontecimento.
Me joguei pra trás, deitando no sofá e colocando as mãos no rosto. A risadinha imbecil de Alice ecoou pelos meus ouvidos.
- Eu voltei pra dentro do quarto.
- Ai meu Deus. Eu sabia que você ia fazer isso. CONTINUA!
- Ele estava de boxers. – murmurei ainda com as mãos no rosto.
Alice gemeu nervosa.
- E daí eu cometi o terrível erro de caminhar até ele.
Mais alguns gemidos.
- E ele me abraçou. E não tinha mais volta.
- VOCÊS SE BEIJARAM?
- Não, Alice. Eu abracei ele e saí correndo. – falei sarcástica levantando novamente.
- Vocês transaram de novo?
- Claro que não. Você só pensa nisso!
- Seu primo gostoso de boxers na sua frente não me trás nada de ingênuo na mente. Enfim, O QUE EU TINHA DITO HÁ UMA HORA MESMO?
- Você disse que a gente ia passar a noite juntos. Não aconteceu isso.
- Querida , nas circunstâncias em que nos encontramos um beijo significa muita coisa. O que vocês falaram? Depois do beijo.
- É muito drama pra sua cabeça insensível. A gente conversou.
- E como terminou? Vão casar?
- Muito engraçado. Vá limpar aquela bagunça no corredor que eu vou tomar banho.
- Estou tão feliz por você. É sério.
- Você deveria estar chorando por mim, isso sim. Eu sou a pessoa mais estúpida do mundo.
- Quer saber da verdade? Qualquer garota, repetindo, qualquer garota no seu lugar faria o mesmo.
- E pode me explicar porque tinha que ser LOGO EU?
- Porque Deus quis assim. Vai perguntar pra ele, oras.
A encarei séria por longos segundos. Bom, pensando por esse lado, eu não tinha tanta culpa assim. Por acaso eu que escolhi ter um primo que estimula meus hormônios? Por acaso eu escolhi Daniel na minha família?
- Quer saber, ? Viva a vida intensamente. Ah, chuta o balde amiga. Foda-se. O cara vai casar ano que vem e ter um filho com aquela caipira, eu recomendo dar pra ele todos os dias. Eu deveria escrever um livro de auto-ajuda para-garotas-que-gostam-dos-primos.
- Que bom que você me lembrou da Mary. Estragou todo o clima que eu havia montado na minha mente.
- Realismo é um cu mesmo. Mas vai por mim, esse casamento aí vai durar dois meses até ele se tocar que viver longe de você é um erro.
- Alice, VAI LIMPAR O CHÃO! Para de me deixar nervosa.
° ° °
- É HOJE, JESUS CRISTO! Cadê a erva, Kennedy? Preciso me chapar se não eu vou ter um colapso.
Um saquinho voou na minha frente quase dando na minha cara e eu olhei para John sem entender o motivo da manifestação nervosa.
- Vocês poderiam ficar tipo algumas horas sem parecerem um bando de retardados com sono? – falei encarando o grupo sentado no sofá. John arrumava nervoso uma mochila enquanto Garrett montava um baseado. O resto se olhava numa tensão cortante.
- Por acaso lhe ocorreu que hoje é a nossa primeira apresentação para um grupo maior do que duas pessoas? É no HARD ROCK CAFÉ. Daniel, você nunca entenderá essa vida de artista que levamos.
- Eu já toquei na apresentação de final de ano da minha escola, sim, eu entendo.
- Ah, um bando de crianças babonas nem vai notar se você errar uma nota. Agora um bando de adolescentes loucos pra tirar com a cara de alguém é outra história.
- Sabe que eu prefiro você sóbrio assim? É tão mais humano. – falei bagunçando os cabelos de John que me deu um soco.
- Por pouco tempo. – murmurou Garrett feito um robô. Rolei os olhos.
- Tudo bem, eu tenho que ficar a tarde inteira no aquário então talvez eu chegue meio atrasado. Eu prometo que vou tentar chegar na hora.
- Daniel, se você não estiver lá no horário certo eu vou cortar o seu pinto fora e você nunca mais vai comer a sua prima! É uma ameaça!
- O que você disse? – perguntei semicerrando os olhos fingindo não ter ouvido o absurdo.
- E acho bom você vender esses ingressos até de noite, porque eu sei que você ainda tem uns três aí com você! Eu estou te sustentando seu desgraçado.
- O que? John, eu pago as contas dessa casa desde o momento que você implantou essa regra tosca de que eu só moraria aqui se pagasse dois terços das despesas. Então não me venha com desculpas de mãe. É capaz de eu estar pagando até essa grama de vocês.
- Danny, acho que você está um pouco atrasado pra aula de babuínos. Esteja no Hard Rock às onze horas.
Suspirei profundamente me esforçando para ignorar o escárnio de John e bati a porta atrás de mim, sentindo um vento forte arrepiar meu corpo inteiro. John era bem temperamental quando não estava chapado. Por um lado era bom, mas por outro...
Cheguei atrasado na universidade por culpa da confusão que John e o resto estavam fazendo desde cedo da manhã. Não recomendo morar com uma banda. Mas na verdade eu não ligava, nada poderia me aborrecer desde o momento em que ela voltou. Ela voltou por mim. Tudo bem, “voltar” no sentido de voltar pra dentro do quarto mas mesmo assim, agora eu tinha completa certeza de que ela sentia o mesmo que eu sentia. Se déssemos sorte nada de ruim iria acontecer e poderíamos ficar um pouco juntos, coisa que na verdade a gente nem fez direito ainda. Meu relacionamento com era na base da velocidade. Tudo era tão rápido e quando eu via, ela já tinha ido embora ou estava brava novamente. Será que um dia a gente iria ter um relacionamento normal?
E daí eu lembrava do casamento com Mary e do meu futuro filho e a felicidade se esvaía com o forte vento de Londres.
Com o final da primeira aula, eu me arrastava pelos corredores do prédio de ciências biológicas em direção ao laboratório para a aula prática e senti uma mão na minha cintura, me fazendo pular. Não é sempre que alguém surge do nada e te acaricia na cintura.
- Você desapareceu. – disse Michelle me olhando com um sorriso discreto.
- Ah, eu ando bastante ocupado. Como está?
- Melhor agora, estou te procurando a semana inteira.
- Hm, é? Qual o motivo? – perguntei voltando a caminhar, ela me acompanhou. Porque eu tinha um sorrisinho idiota nos lábios? Será que eu não tenho um pingo de decência?
- Você já foi informado do trabalho interdisciplinar sobre a universidade?
A olhei curioso. Eu nunca sei de nada.
- Não, do que você está falando?
- Talvez te avisem em algum período de hoje. É que a universidade está fazendo 174 anos e vai ter um projeto onde teremos que fazer um vídeo relacionando o nosso curso com o que a universidade representa pra gente, e será em duplas. Eu queria saber se você já tinha dupla, mas você nem sabia disso.
- É, eu realmente não fazia ideia disso. Vai ter prêmio ou sei lá?
- Os dez melhores serão passados no baile de inverno. Não é grande coisa, mas vai pro currículo. E aí, vamos fazer?
- Ah, claro. Eu não ia ter dupla de qualquer forma.
- Está me colocando como última opção? – perguntou ela se fazendo de ofendida.
- Claro que não! Eu pensaria em você como primeira opção! Afinal você foi a única generosa nesse lugar até agora. As pessoas são meio convencidas por aqui.
- Tem razão, são um bando de riquinhos mimados. Mas eu acho bom você estar pronto pra ganhar, eu não aceito derrota.
- Acho bom você saber que eu também não.
Ela riu e ficamos em silêncio por alguns segundos. De repente me lembrei dos ingressos.
- Ahn, Michelle... meus amigos vão fazer um show hoje de noite no Hard Rock Café, você não quer comprar um ingresso? São 10 libras. Eu estou vendendo.
- Hm, eles são bons? – perguntou ela com um sorriso irônico.
- Posso dizer que serão a nova sensação do rock.
- Se é assim... – disse abrindo a bolsa e tirando a carteira. Meus olhos brilharam de alegria. – Espero que você não me deixe sozinha.
Ela me entregou uma nota de 10 libras e eu tirei do bolso um ingresso.
- Prometo não desgrudar. Não tem mais ninguém pra levar?
- Prefiro que seja só nós dois se você não vai desgrudar de mim.
Eu ri meio desconcertado e lembrei só depois que estaria lá. Mas que droga, eu só faço merda. Sou o rei da merda.
° ° °
e Alice riam descontroladamente na minha frente, se eu não estava enganada a garota chegou a cuspir milk shake longe, mas meu olhar estava perdido no chão quadriculado em preto e branco da lanchonete.
- Argh você me babou! – ouvi falar com uma voz engraçada e soltei uma risada voltando a encarar os dois. – Sua amiga é o ser mais meleca do mundo.
Ele levantou do sofá, passando por cima com vontade de Alice que começou a dar gritos de nojo, ainda meio babada. Entreguei um guardanapo pra garota que ainda ria feito uma hiena. Ela respirou fundo e me encarou séria.
- Quando vai contar pra ele? – perguntou de repente, me fazendo parar de mastigar as batatas fritas sem entender.
- Contar o quê pra quem? – perguntei de volta perdida.
- Contar que você tem um affair perigoso com o seu primo pro , afinal ele é o nosso melhor amigo e merece saber das coisas.
- Nunca! Está maluca, nem fala disso perto dele!
- Posso entender o porquê desse desespero?
- Até parece que você não sabe.
- É, eu não sei.
- Mas você sabe que ele meio que... você sabe... por mim.
- Acha que ele não superou? Se você já superou. Depois do seu primo né, não tem quem não supere.
- Cala a boca! Ele não pode ficar sabendo, você viu como ele reagiu quando viu o Danny né? Saiu feito um revoltado. E só porque eu passei as férias com ele, imagina se soubesse o que eu fiz!
- É mas ele precisa entender que...
- Shh, ele está vindo.
sentou novamente no sofá e nos encarou sério.
- O que estão fofocando, pra variar?
- Estamos falando sobre o show hoje à noite. Ainda acho que deveria ir. – falei voltando a comer as batatas fritas já meio frias e murchas.
- Eu tenho prova amanhã de manhã cedo, desculpa meninas. Fica pra próxima.
- Amanhã é sábado. – resmungou Alice sem paciência.
- Bem vinda à universidade, querida. Enfim, boa festa pra vocês. Não bebam, não fumem, não se droguem e não peguem ninguém.
- Então pra que ir? – disse Alice e eu a olhei irônica. Como se ela fizesse tudo isso.
- Nossa, desculpa aí party girl. Eu estou falando sério. Não façam nada que vão se arrepender depois.
- , quem você pensa que a gente é?
- Ninguém, mas sempre depois dos shows tem festa no Hard Rock e bem... Ah, tanto faz, transem com quem quiserem.
Ele pegou a mochila e nos deixou com cara de babacas se olhando.
- Já sabe com que roupa vai? – perguntou Alice cinco segundos depois como se nada tivesse acontecido.
- Eu estou me sentindo sexy ultimamente então... meu espartilho vai entrar em ação.
- Nossa, o que um primo não faz com as pessoas né?
- Não tem nada a ver! É que eu me depilei.
Ela me olhou séria.
- O que isso tem a ver?
- Quando você se depila não se sente mais sexy?
- Eu me sinto depilada.
- Você é totalmente sem graça.
O tempo passa voando quando você gasta ele decidindo o que vai vestir. E pode crer, quando uma mulher está com os hormônios à flor da pele, isso pode levar uma eternidade. Decidi usar um vestido preto justo, meias sete oitavos e um ankle boot também preto que eu estava esperando há algum tempo o momento certo para usar, já que aquele sapato não era o que eu chamaria de apropriado para ir ao supermercado.
Alice apareceu na porta do meu quarto vestindo uma calça jeans e um tomara que caia vermelho. Me encarou de cima a baixo por alguns segundos e depois olhou espantada pro meu rosto.
- Eu sou muito santa ou você está no cio?
- Estou no cio. – murmurei parando na frente do espelho e finalizando minha maquiagem.
- Ok. Se você não quiser se sentir nua sozinha eu posso colocar o meu biquíni e daí a gente da pra todo mundo.
- Alice, eu estou num processo de amor próprio. Que horas são?
- Onze e dez. Estamos um pouco atrasadas, não?
- É, mas o show deve começar lá pela meia noite. De qualquer forma eu já estou pronta, quero te apresentar pro John antes.
- Por quê?
- Porque você precisa transar e ele é bonito. Quer dizer, você que vive reclamando, só vou dar uma ajudinha.
- Mas eu nem conheço ele!
- Ahá, quando é pra valer você fica com medinho, né?
- Minha virgindade é uma virtude.
- Então pare de encher os meus ouvidos. Vamos logo.
- Aposto que você vai acabar a noite numa cama com o seu primo. Já está na hora de recomeçar os velhos hábitos.
- Cala a boca.
O Hard Rock Café estava demasiado cheio quando saímos de dentro do táxi. Esfreguei os braços sentindo a corrente de vento arrepiar a minha pele. Entregamos os ingressos pro segurança que se encontrava na porta do lugar e entramos, logo um bafo quente me fez soltar um grunhido de horror. O que eles tinham contra ar condicionado? Eu não sou muito fã de um bando de gente suada se esfregando, viu.
- Pra onde vamos? – ouvi Alice gritar no meu ouvido e me encolhi de susto. Apontei pro palco, provavelmente algum sinal dos garotos eu encontraria ali. Segurei a mão dela e a puxei por entre as pessoas pulando ao som de alguma música de rock desconhecida pelo meu cérebro limitado. A primeira coisa que vi foi um vulto alto encostado no palco fumando. John era uma chaminé. Paramos na frente dele e eu esperei ele levantar a cabeça. Iria ser uma sorte se ele me reconhecesse. Mas, graças ao bom pai, ele sorriu meio avulso.
- ! Que bom que veio. – Ele deu uma tragada básica e me puxou para um abraço meio desnecessário. Encarou Alice esperando explicações, com um sorriso esperto.
- Essa é a minha amiga Alice. Estava comigo quando o resto da banda nos parou na rua.
- Espertinhos. – Consegui fazer uma leitura labial antes de ele cumprimentar Alice com dois beijos. Ela me olhou meio corada por um segundo. – John O’Callaghan, ao seu dispor. Vamos entrar em alguns minutos, eu só vim dar uma aliviada aqui, os caras estão no camarim.
- Ah, diz pra eles que a gente deseja sorte. O público está grande.
- Você viu? Achei que não viria nem a metade. Mas vendemos praticamente tudo.
- Fico feliz por vocês! Agora, você sabe se o...
- Daniel acabou de me mandar uma mensagem dizendo que em cinco minutos estará aqui. Acho bom mesmo. – disse ele resmungando a última frase. – Eu preciso voltar lá pra dentro. Aproveitem o show!
Antes de eu poder falar mais alguma coisa ele sumiu por uma porta preta vigiada por um segurança. Olhei para Alice com um sorriso discreto e ela devolveu.
- E aí? – perguntei cruzando os braços.
- O quê? – respondeu ela fingindo não entender.
- O que achou do John?
- Ele é bem charmoso. – falou ela corando e olhando pro lado, evitando contato direto com os meus olhos. Da mesma forma que ela me conhece eu a conheço muito bem. De repente ela fixou os olhos num ponto fixo, desviando a cabeça das pessoas que passavam atrapalhando sua vista.
- ... – murmurou ela. – Seu primo chegou. E ele não está sozinho.
Olhei instantaneamente para onde ela estava olhando e consegui ver no meio de um monte de gente dançando Danny tentando se deslocar e ao mesmo tempo falando perto do ouvido de uma garota. Dei dois passos, ficando na frente de Alice já com meu olhar fuzilante em cima daquela cena absurda.
- Vou precisar de muita bebida pra aguentar as palhaçadas do Danny. – murmurei já me afastando de Alice em direção ao bar e ela me segurou.
- Calma, menina! Você nem sabe o que está acontecendo! Quem sabe ela só perguntou onde é o banheiro. Agora você vai querer que ele não fale com ninguém só porque gosta de você?
Voltei a encarar o ponto onde antes eles estavam e vi os dois dançando. Semicerrei os olhos para Alice.
- Ah, ela perguntou onde é o banheiro e aproveitou pra dar uma dançadinha com ele, é? Por favor.
Me soltei dela e continuei meu caminho da roça até o bar. Quando se trata de Danny eu realmente não penso no que eu faço. É como se meu cérebro derretesse a partir do momento que ele o detecta e eu começo a agir sem pensar. Eu nem era uma pessoa da bebida. Mas parece que quando estamos falando do Danny eu passo a ser uma louca descontrolada. Ciumenta.
Cheguei no balcão e levantei o dedo para o barman, sem ter ideia se ele entenderia que eu estava pra qualquer tipo de líquido. Ele me entregou uma garrafa de cerveja aberta.
As luzes se apagaram, a música parou e o palco foi iluminado. A banda entrou ao som de palmas e John pegou o microfone.
- Boa noite Hard Rock! Nós somos o The Maine e tocaremos pra vocês hoje.
Os primeiros acordes de uma música agitada começaram a ser tocados e eu bebi um gole da garrafa, sentando no único banco livre do balcão. Eles eram realmente muito bons, inclusive John, que tinha uma voz impressionante.
Depois da terceira música, agora lenta, resolvi levantar do banco e procurar Alice, a tinha abandonado cruelmente. Droga, não sei porque mas a música que eles tocavam me lembrava o Danny. Que aliás tinha se perdido com a fulana no meio das pessoas, não que eu estivesse preocupada.
Uma trombada forte em toda a lateral do meu corpo me fez cambalear e esfregar o ombro com dor. Danny me olhava assustado.
- Ai meu Deus, . Desculpa. Eu estava te procurando. – disse ele preocupado e depois sorriu, me olhando de cima a baixo. – Você está linda.
Ele me abraçou repentinamente pela cintura e por um momento toda a raiva que eu tinha dele e da fulana sumiram. Depois de cinco segundos de abraço eu me rendi, colocando meus braços em volta de seu pescoço. O perfume.
- Te machuquei? – perguntou ele no meu ouvido, fazendo todo o meu corpo se arrepiar numa velocidade indescritível.
- Não, estou bem. – respondi o soltando. Ele sorriu novamente. PARE DE SORRIR.
- Está gostando dos garotos? Você nunca tinha os ouvido tocar, né?
- Não, eles são muito bons! Essa música é incrível.
- I Must Be Dreaming. – disse ele no exato momento que a frase foi cantada por John. – É muito boa.
Concordei, corando um pouco. Eu ainda corava na presença dele. Depois de tudo o que aconteceu.
- Veio sozinha? – perguntou, olhando em volta. Ah, Danny demonstrando seu lado possessivo. Não sou só eu.
- Alice veio comigo. E você?
Eu precisava confirmar minhas suspeitas.
- Ah, tive que vir com minha colega da universidade. Ela não conhece ninguém e eu precisava vender um ingresso.
Resposta na defensiva, típico dos homens. E ainda fingindo sacrifício, como se fosse muito ruim vir a uma festa com uma menina bonita.
- Eu preciso encontrar a Alice, nos vemos mais tarde. – falei me afastando, sem o deixar responder qualquer coisa. Sim, eu tenho ciúmes e me descontrolo. Se alguém souber o antídoto do ciúmes me avise, eu estou precisando.
Passei praticamente o resto do show procurando Alice que aparentemente tinha evaporado, dei a volta no local duas vezes e fiquei parada no mesmo lugar por dez minutos.
A última música terminou e eu comecei a ficar preocupada. Alice é meio dependente, ficar sozinha por muito tempo não era do feitio dela. Uma música do Cobra Starship começou a tocar quando a banda saiu do palco em meio a muitos aplausos.
- Onde você se enfiou? Eu estou morta! – Alice surgiu na minha frente meio descabelada e eu a olhei com medo.
- Eu que te pergunto. Foi me procurar aonde, embaixo da terra?
- Odeio ficar sozinha em show ou festa! Já fui cantada por cinco caras. CINCO!
- Isso deveria ser uma coisa boa partindo de você.
- Só porque eu sou virgem não significa que eu queira dar pra qualquer um. Enfim, adorei a banda.
- É, eu também.
- E aí, falou com o Danny?
- Sim, ele está com uma colega da universidade. Que inconveniência.
- Ahh... eles devem ser amigos. Tá, isso é óbvio.
Fiz uma expressão de desprezo mas o nosso silêncio durou pouco tempo. Alguém me abraçou por trás e me girou, tive que ficar uns bons dez segundos focalizando quem era. Alice me olhava paralisada.
- O que acharam do show? – perguntou John transbordando felicidade ao lado de Garrett e Pat.
- É óbvio que elas gostaram. A gente falou que vocês não iriam se arrepender. – disse Pat convencido. Nós rimos.
- Vocês têm futuro, todas as músicas são boas! – falou Alice sorrindo para ele, que corou. Garrett empurrou Pat pro lado e se enfiou na frente de Alice com um sorriso engraçado.
- É óbvio que você prestou atenção em mim, ele fica lá atrás.
E os dois começaram uma discussão sem sentido sobre posições no palco sendo assistidos por uma Alice confusa.
- Vamos procurar o seu primo enquanto os dois babacas dão em cima da sua amiga. Eu ainda não consegui falar com ele. – falou John pegando a minha mão e me levando por entre as pessoas.
Em cinco minutos ele já estava na segunda garrafa de cerveja e eu me perguntando da onde ele tinha tirado aquilo, já que não tínhamos parado no bar. De repente ele parou no meio do caminho e eu dei um encontrão nas suas costas. Olhei confusa para o seu rosto e ele olhava o ponto na sua frente com uma expressão de desespero.
- Que porra.
- O que houve? – perguntei perdida olhando na direção de seus olhos já achando que alguém vinha na nossa direção bater nele. Essas coisas acontecem o tempo todo.
Na verdade ninguém estava vindo na nossa direção.
Na verdade na parede ao lado do banheiro Danny era espremido pela amiga da universidade. E ele parecia gostar disso, porque até mão na coxa eu tive o desgosto de ver.
Senti tudo girar na minha volta e comecei a respirar rápido procurando o ar que eu não achava pra respirar. Meus olhos começaram a marejar e eu me segurei pra não deixar a primeira lágrima escorrer. John olhava de mim pra cena meio sem saber o que fazer. O deixei parado no meio da pista e saí correndo em direção a saída do bar. Nessa altura eu já estava com o rosto molhado. Empurrei uma boa quantidade de gente pra fora do meu caminho, eu não estava nem triste, eu estava com raiva. Depois de tudo o que a gente passou.
O ar do lado de fora do Hard Rock estava gelado, não sei se foi por isso mas provavelmente foi um dos fatores que ajudaram meu corpo começar a tremer. Já na calçada comecei a andar de um lado pro outro com os olhos fixos no chão. Eu precisava me acalmar. Sorte minha que a rua estava vazia, mas no momento eu não dava a mínima.
- ... – ouvi a voz receosa de John atrás de mim e o olhei, com os olhos obviamente borrados.
- Seu amigo é a pessoa mais estúpida que existe no mundo. – murmurei e depois soltei um grunhido de raiva esquisito. As lágrimas voltaram a escorrer e eu senti meu corpo descendo até o chão. Eu não tinha mais forças pra ficar de pé.
- Não senta aí, o chão está gelado. – disse ele me levantando do chão e me segurando. – Eu não sei o que te dizer. – continuou ele olhando nos meus olhos.
- Não precisa dizer nada. – murmurei entre lágrimas e me encostei na parede do prédio atrás da gente. Me virei de costas pra rua encostando a cabeça na pedra fria tentando me acalmar. Eu não podia mais chorar por ele.
John se encostou do meu lado e ficou me encarando por alguns segundos. Eu comecei a soluçar descontroladamente e ele colocou a mão nas minhas costas, me virando delicadamente para si.
- Esqueça o que viu por alguns minutos e apenas respire fundo. Prometo que a dor vai passar. – falou limpando as minhas lágrimas e tirando uma mecha de cabelo intrusa do meu rosto. Fechei os olhos fazendo o que ele mandou e respirei profundamente, sentindo o vento agora relaxante secar a umidade da minha pele. Algo macio e quente encostou nos meus lábios e se afastou depois de alguns segundos. Abri os olhos e John estava a centímetros do meu rosto com uma expressão séria. Ele acariciou o meu rosto de leve e voltou a grudar lentamente nossos lábios. Eu estava tão entorpecida que não pude fazer nada se não corresponder ao beijo. Ele me abraçou pela cintura e eu mesma intensifiquei a velocidade das nossas línguas, mas ainda sim de uma forma delicada. Era difícil compreender o que estava acontecendo, eu só sabia que eu não conseguia me soltar, alguma coisa me atraía nele.
- O que é isso?
A voz de Danny interrompeu nosso beijo e John me soltou, se afastando alguns metros. Eu olhava pro chão tentando voltar pro planeta Terra. Levantei a cabeça lentamente e fuzilei Danny com uma raiva profunda.
John me olhava sem saber o que falar. Me desencostei da parede e parei na frente de Danny.
- Você é desprezível. – murmurei e ele arregalou os olhos indignado.
- Você estava beijando o meu melhor amigo e eu sou desprezível!
- Na hora de agarrar a piranha que você trouxe junto não pensou em mais nada, não é?
- Eu... ela me beijou. Ela está afim de mim desde o primeiro dia que a gente se conheceu.
- E DAÍ? – perguntei alto demais e logo depois empurrei ele com força e comecei a me afastar. – EU TE ODEIO, DANIEL!
- Me desculpe. Eu deveria ter impedido.
- Eu já estou farta das suas desculpas.
- É mas o meu erro não elimina o seu!
- Você que começou, seu idiota! Não tem moral nenhuma!
Eu estava a alguns metros dele e a voz de John ecoou pela rua, do outro lado de Danny.
- Foi minha culpa. Eu beijei ela.
Danny se virou lentamente e o olhou desamparado.
- Pensei que éramos amigos. – murmurou ele devagar.
- Nós somos. Eu... foi um impulso do momento.
- Não acredito que você foi capaz de beijar a garota que eu amo.
- QUE VOCÊ AMA? – gritei do outro lado me aproximando novamente. – Seu cínico! Se me amasse tanto assim não teria me deixado sozinha a noite inteira e ter ficado se preocupando com a sua “amiguinha”! John não tem culpa nenhuma na confusão que você armou, não coloque as culpas em cima dele! Você sabe que não é só isso, Daniel. Será que você não consegue ficar sem fazer merda? VOCÊ ENGRAVIDOU UMA GAROTA, QUE DROGA! Como consegue ser tão canalha!
- Já conversamos sobre isso. – falou ele encarando o chão.
- NÃO SIGNIFICA QUE AGORA VOCÊ PODE ESQUECER ISSO E SAIR BEIJANDO TODO MUNDO! E ALIÁS, ONDE EU ENTRO?
- , foi um deslize! Ela veio pra cima de mim! Eu gosto de você!
- Vai se foder. Nunca mais fala comigo.
Deixei os dois parados no meio da calçada e voltei pra dentro do Hard Rock. Incrível como em alguns minutos um circo era montado na minha vida.
Capítulo 5
Na minha vida, as coisas conseguem piorar em questão de uma noite. Eu sinceramente não sei se é só comigo, se eu sou uma azarada do caralho que faz tudo errado e só se relaciona com pessoas que atrapalham tudo em vez de me ajudar. O problema nem é tão complicado assim, mas por mais que eu pense que não é, eu acabo o tornando milhões de vezes maior fazendo uma merda atrás da outra. É tipo pintar a unha na TPM, você passa uma mão, daí vai abrir a barra de chocolate porque precisa comer alguma coisa se não vai morrer e borra tudo. Tenta concertar e piora mais ainda. Atira tudo pro alto, grita com todo mundo e se isola da vida. É a mesma coisa, a vida é cheia de metáforas, é só a gente saber perceber elas. Não que isso me ajude a analisar a minha situação, nem tem o que analisar, de tanto que eu ferrei tudo.
Eu sei que me culpar não vai adiantar nada também, porque afinal quem me traiu foi ele primeiro, e quem me beijou depois foi o John. Se olhar por esse lado eu não fiz absolutamente nada, era só eu ter ficado parada que as coisas começariam a acontecer e quando eu olhasse já estava tudo destruído. Eu sou um imã de dar errado. Se alguém souber desvendar esse meu pequeno problema, me manda um e-mail porque todos os dias alguma coisa acontece de ruim pra piorar meu relacionamento torto com o Danny.
Ah, Danny. Seu canalha desgraçado.
Quanto mais você me trair, mais eu vou gostar de você. Mais essa paixão insana vai aumentar dentro de mim, cada vez a intensidade vai crescer me fazendo querer aliviar e gritar pro mundo que eu te amo. Eu acho que o ciúmes é um dos fatores que estimulam a paixão, é estranho mas quando eu não o tenho eu o amo mais do que se eu estivesse com ele na cama agora. Faz algum sentido? Pra mim não.
O rímel da noite passada fazia meus olhos coçarem profundamente, resultado de ignorar as regras pós festa. Sempre tire a maquiagem antes de dormir, se não quiser acordar sentindo areia dentro dos olhos.
Principalmente se você for chorar.
Levantei da cama e me arrastei lentamente pro banheiro, lamentando ter de encarar aquela imagem de prostituta no final da madrugada. Fiz minha higiene sem ter forças para pensar em qualquer outra coisa sem ser conversar com Alice. Eu devia explicações pra ela depois da merda toda que eu consegui armar.
Entrei no quarto silencioso e sentei cautelosa na poltrona em frente à cama de Alice, encolhendo minhas pernas e abraçando elas. Alice dormia calmamente mas logo, de alguma forma que eu não faço ideia, percebeu minha presença e abriu os olhos devagar.
- Algum problema? – perguntou ela me olhando estranho, sentando meio sonolenta na cama.
- Te devo explicações.
Ela continuou sem expressão facial, me encarando.
- Sobre ontem, o que aconteceu entre eu e o... John.
- Você surgiu na minha frente berrando os fatos, ainda estou processando.
- Eu sei que você gostou dele, e era pra você ter beijado ele. Não eu. Eu sou a menos indicada pra isso. Eu sou uma idiota.
- Não tem problema, eu nem conhecia ele.
- Eu queria que você o conhecesse direito. Estraguei tudo.
- Você disse que ele te beijou. Não teve culpa.
- Eu podia ter empurrado, mas eu continuei.
- Bom... ele é bonito. Seria estranho você empurrar um cara bonito te beijando. E eu não tinha nem sequer um clima com ele, ou seja, sem culpas. Tire essa ideia de amiga traíra da cabeça.
- Se eu fosse você estaria com um pouco de raiva de mim. Sabe, eu já gosto do meu primo e...
- Eu não tenho raiva de você, eu entendi o que aconteceu. Ele estava te consolando porque o Danny beijou outra garota. Totalmente compreensível. Esqueça isso.
- Tem certeza?
- Claro que eu tenho.
- Eu ainda quero que vocês se conheçam melhor. Seria muito estranho?
- Por mim não, mas eu duvido que ele não goste de você depois disso. Boa sorte, seu primo e o melhor amigo vão brigar por você.
- Não, isso não vai acontecer. Ele não gosta de mim. Eu sei que não. Foi momentâneo.
- Tudo bem, . Relaxa. Por que você não vai escolher sua roupa pra hoje à noite e tentar se distrair? Sua cabeça deve estar um caos.
- Hoje a noi... Ai não. AI NÃO. O JANTAR COM O DANNY. VOU ME MATAR.
- Não finja que não está gostando disso.
- Não quando ele me trai uma noite antes.
- Você também “o traiu”. Estão quites, prontos pra outra.
- Alice, não se trata de dar o troco ou não. Se trata de ele não lembrar de mim quando está com outra garota!
- Vamos não tentar entender a mente dos homens, por favor? A luxúria vem antes de tudo, só isso que eu sei e não preciso saber de mais nada pra entender o que aconteceu ontem.
- Você está eliminando a traição dele porque os homens pensam antes em sexo e depois em quem amam? Alice? Qual o seu problema?
- . Se você ouvisse o que fala não teria beijado o John. Perdão é uma virtude, sabe.
- Orgulho também.
- Não, não é. Vá bem bonita hoje.
- Eu vou colocar a roupa mais fechada possível, aquele idiota não vai aproveitar nada de mim esta noite. Estou cansada de ser colocada em segundo plano. Ele já vai ter um filho com outra, e ainda por cima beija OUTRA? Tipo, que tipo de retardado faz isso?
- Seu primo.
Grunhi com raiva e saí do quarto dela, direto para o meu closet. Eu estava falando sério quando eu disse que ia com uma roupa fechada, e eu precisava encontrar ela.
° ° °
Eu poderia me matar. Mas talvez não fosse o suficiente para pagar o quanto eu sou idiota, então eu prefiro a rejeição, que é muito pior.
Não sei de quem mais eu tinha raiva. De mim mesmo, por cair nas tentações de uma garota praticamente desconhecida; do John, que na maior lealdade foi lá e beijou a minha prima, pela qual aliás eu estou nessa cidade e pela qual meu coração está apertado agora; ou dela, por no maior impulso de se vingar revidou o beijo do meu melhor amigo.
O problema é que eu não consigo sentir raiva das pessoas que eu amo, então sobrou ter raiva de mim mesmo. Sou um merda, não vai mudar nada.
Refleti sobre tudo isso durante meu já conhecido banho gelado de pobre de manhã cedo, em pleno frio cortante de Londres. Espelunca de lugar.
Depois de congelar, peguei um papel e uma caneta e fiz uma lista dos possíveis covers que eu faria naquela noite depois da tensa janta que eu teria na casa dos pais da . Porque é claro que o meu bico no pub tinha que ser na noite do jantar. Coloquei as músicas que eu gostava e que eu achei que as pessoas iriam gostar de ouvir. Um bando de bêbados abandonados. Não que eles fossem ligar pra o que eu fosse tocar.
Toquei cada uma das músicas da lista com meu violão velho e descascado, tentando lembrar os acordes porque algumas fazia um tempo que eu não tocava.
Daí eu lembrei que não tinha roupas. Não poderia simplesmente ir num jantar com os pais da garota que eu amo vestido feito um caipira perdido na cidade. E ainda mais com ela com raiva de mim, dar motivos pra ela me odiar mais ainda? É, eu precisava de umas compras. O problema era que eu não tinha noção de nada de moda. Não que eu esperasse ter.
Peguei minha carteira, vesti um casaco de moletom, uma calça jeans e desci rumo ao desastre de comprar roupas.
Encontrei John encarando o teto na sala, atirado no sofá. Ele me olhou tenso e levantou. Não entendi o movimento e parei, o olhando estranho.
- Precisamos conversar. – disse ele batucando com os dedos na própria perna, nervoso.
- Olha, se é sobre ontem, nem precisa se esforçar.
- Danny, eu sou seu melhor amigo e fiz uma coisa terrível com você. Eu sei que você não faria isso comigo, por isso preciso que você entenda que eu me arrependo profundamente. Das minhas entranhas.
O olhei por uns segundos e percebi, com um pouco de esforço, que ele falava a verdade. Sorri de canto.
- Eu sei. Nós dois erramos ontem, por isso esqueça. Não vou te culpar.
- Quero que saiba que não vai acontecer de novo, se você quiser eu nem chego mais perto dela.
- Não seja exagerado. Vamos apagar o que aconteceu.
John sorriu e estendeu a mão. Apertei e começamos a rir, sem motivo aparente.
- Somos uns merdas. Ferramos tudo. – falou ele e eu ri mais ainda. – Onde está indo?
- Preciso comprar roupas novas, percebi que meus panos de chão não são adequados pra cidade grande.
- Você sabe que vai gastar dinheiro em vão se escolher as suas próprias roupas, não é? Você e moda não pertencem ao mesmo mundo.
- Muito obrigado.
- Eu vou com você, me dê um minuto. Você está precisando de um estilo mais rock n’ roll.
- Tudo bem.
John me encarou por alguns segundos antes de concluir:
- Você também precisa cortar o cabelo. Está um ninho.
Levantei as sobrancelhas pasmo com a verdade atirada na cara. Nunca vi problemas com meus cachos.
° ° °
Já era a quarta vez no dia que minha mãe me ligava confirmando o evento tão esperado, eu estava quase explodindo de desespero. Não poderia ter mais nada inadequado pra ser fazer naquele fim de semana.
- Você só pode estar brincando.
A voz de Alice atingiu meus ouvidos sensíveis depois de horas de silêncio trancada no quarto criando coragem.
- Qual o problema?
Ela me olhou de cima a baixo e espremeu os olhinhos de predadora.
- Vai numa janta ou numa missa?
- Numa janta com o Danny. Vingança é um prato que se come frio, querida amiga. Refleti muito sobre o plano.
Meu vestido nem era tão comportado assim. Era azul marinho de mangas compridas e uma gola curtinha com alguns babados. As mangas tinham um estilo meio medieval, eu gostava daquele vestido. Só nunca tinha usado por ser muito fechado. Mas ele era no meio das coxas, então não era lá tão comportado. Foi o máximo que eu encontrei.
- Ainda está em pé o convite, pode ir comigo. Eu insisto. Tanto.
A ironia no rosto de Alice pedia um soco na cara.
- Filme e depois me mostre. É sério, eu não quero atrapalhar as indiretas e coices que um vai dar no outro.
- Eu não vou nem olhar pra ele. Aquele cafajeste não merece minha atenção.
Alice riu entre pausas, me irritando mais ainda. Eu estava à flor da pele.
- Prenda os cabelos pra mostrar o pescocinho e deixar ele com vontade. Isso da muito certo.
- Quem disse que eu quero deixar ele com vontade? Não quero nada daquela criatura sem controle.
Peguei em cima do aparador uma presilha preta e prendi o cabelo num coque mal feito, sob o sorriso maldoso de Alice.
- Não quer nada você, imagina. Bom, é melhor você se apressar se quiser pegar o metrô a tempo. Essa hora é barra pesada. Vá de táxi, pela última vez.
- Alice, a casa dos meus pais é tão longe que eu gastaria cinquenta libras só de ida. Metrô é muito bom.
- Boa sorte. Me ligue quando chegar lá, se não vou achar que você foi seqüestrada.
- Sim, mamãe. – murmurei, pegando de cima da cama minhas duas bolsas, uma maior com roupas e objetos pessoais. Mamãe havia me forçado a dormir lá depois do jantar, tola eu se pensei que isso não iria acontecer.
Amaldiçoei-me mentalmente depois de andar encolhida até a estação de metrô mais próxima pelo fato de estar congelando e eu não ter pegado nem um casaco. Londres tinha a deliciosa vantagem de possuir como sensação térmica sempre o dobro do que realmente está marcando nos termômetros.
Recomendo muitos, muitos casacos extras. Não importa a estação do ano, se começar a chover, você está fodida.
Comprei a passagem numa bilheteria vazia e silenciosa, as atividades finalizavam cedo mesmo nos fins de semana. O único movimento próximo era um faxineiro varrendo o chão alheio ao mundo, com fones de ouvido.
Não demorou muito para a minha linha chegar, o que me assustava era apenas que eu seria uma das únicas pessoas a pegá-la. Eu e os assentos vazios, o corredor frio e o silêncio assustador.
Ah, adorava momentos como esse.
Entrei no transporte e, para minha surpresa, havia algumas pessoas dentro. Todas com expressões de sono e cansaço, do tipo “não fale comigo, eu só quero ir pra casa e dormir pra sempre”. Um cara de preto que estava sentado ao fundo colocou seus olhos em mim quando me sentei. Senti um calafrio e tentei ignorar, mexendo no celular. Droga, odiava andar sozinha.
Vinte arrastados minutos depois, regados por uma tensão crescente entre o cara de preto me encarando e minha paranóia, o metrô chegou na zona onde meus pais moravam e anteriormente, eu também. Levantei do assento rezando para que o homem continuasse sentado mas, para meu horror, ele levantou e saiu alguns segundos depois de mim.
Tentei me acalmar, imaginando que ele só estava indo para casa depois de um longo dia de trabalho. O único problema era que ele não tinha nem um pouco o jeito de quem trabalhava. Era mais pro lado do tráfico, sabe. Ou do assassinato.
Subi as escadarias da estação, dando de cara com uma rua escura e uma praça logo do outro lado. Olhei rapidamente para trás e percebi um vulto negro me acompanhando a alguns metros. Eu só podia ter feito muita coisa ruim nessa vida mesmo, pra ser perseguida por um assassino em pleno sábado à noite, no meio da rua. A casa dos meus pais ficava a algumas quadras, ou seja, eu não conseguiria chegar viva até lá. Era o meu fim.
A única saída era ligar para alguém, mas a ideia de aterrorizar minha mãe não era das melhores. Pioraria a situação ouvir seus ataques do outro lado da linha. Eu até que tinha chances, se começasse a correr.
Em vez disso, eu entrei numa cabine telefônica, duas quadras depois da estação.
Eu entrei. Numa cabine telefônica. Que tipo de vítima, ao ser perseguida, entra numa cabine telefônica?
O desespero tomou conta do meu corpo e a única coisa que pude pensar era me proteger. O problema é que isso não iria acontecer dentro de uma cabine telefônica totalmente vulnerável numa rua deserta. Tirei o telefone do gancho e fingi discar qualquer número, olhando em volta dos vidros e vendo o assassino se aproximar.
Ferrou tudo.
Ele parou ao lado de fora, como se esperasse sua vez para usar. Consegui perceber que era loiro por baixo da touca cinza que usava. Não sei como ainda não tinha desmaiado. Depois de cinco minutos de terror, tive que criar coragem e sair de dentro daquela porcaria, nada adiantaria ficar parada ali dentro.
O cara me encarou e sorriu malicioso, se aproximando da porta e de mim. Suas olheiras eram maiores do que o normal, ajudando no visual vampiro faminto. Era só o que me faltava, virar vampira, depois de toda aquela porcaria que estava a minha vida. Ia ajudar muito, sabe.
- Está funcionando? – perguntou ele de repente, depois de me analisar.
- O quê? – respondi com outra pergunta, que mais saiu um sussurro desajeitado e esganiçado.
- O telefone.
- Er, sim.
- Nos conhecemos de algum lugar.
Pronto, fodeu tudo.
- Não, acho que está enganado. Não moro pra esses lados.
- Nem eu.
Certa de que estava mais do que na hora de começar a correr, me virei na tentativa de fazer exatamente isso mas ele me segurou pelo braço.
- Me solte! – gritei, fazendo um movimento brusco com o braço e o afastando de mim com um empurrão. Ele me olhou com raiva.
- Não devia ter feito isso. – murmurou ele, indo na minha direção com uma expressão selvagem e eu fechei os olhos, pronta pro meu fim.
- Algum problema?
Achei que era uma ilusão da minha mente afetada pelo medo, mas quando abri os olhos Danny estava parado na minha frente, entre eu e o cara, que era mais baixo que ele.
- Quem é você? Dê o fora, está atrapalhando. – disse o cara, mas não com tanta imposição assim como antes.
- O que disse? Eu estou com ela, vá pro inferno. Covarde.
- Vocês não se conhecem, é apenas um babaca querendo fazer os lados com qualquer garota em perigo.
- Você acreditando ou não, se não sair daqui em cinco segundos vai aprender à força como tratar uma garota.
O cara olhou Danny de cima a baixo com desprezo e começou a se afastar, completamente enraivecido. Danny ficou imóvel até ele dobrar a esquina e desaparecer de vista.
Soltei o ar pesadamente, me apoiando na cabine ao meu lado. Puta que pariu.
- Da onde você surgiu? – perguntei o olhando ainda meio tremendo. Meu queixo tremia de frio. Nem sabia mais porque estava tremendo, se era de medo, de frio ou da terceira opção que eu prefiro não verbalizar. Me recuso.
- Calma. – disse ele se aproximando devagar e descruzando meus braços logo em seguida. Segurou minhas mãos congelando por um momento e levantou as sobrancelhas. – Como imaginei.
Ele tirou o casaco xadrez que usava por cima de uma jaqueta de couro. Danny? De jaqueta de couro? Só depois de perceber seu visual inteiro notei que ele tinha cortado o cabelo bem mais curto, os cachos não existiam mais e suas roupas estavam modernas e bonitas. O que fizeram com meu primo caipira?
Danny me ajudou a vestir o casaco e eu suspirei de prazer quando o tecido quente me cobriu. Uma das melhores coisas da vida, colocar um casaco já quente. Com o perfume dele. Ignorem.
Coloquei as mãos nos bolsos depois de ele pegar minha bolsa maior. Começamos a andar em direção da casa dos meus pais.
- Agora que você está devidamente coberta... Eu estava no caminho da sua casa. Quem era aquele cara?
- Boa pergunta.
- Você é louca o suficiente para andar na rua de noite sozinha? Nunca mais faça isso. Não vou poder aparecer sempre pra te salvar.
Aquilo soou muito arrogante, ou eu interpretei assim, já que a raiva por ele ainda não tinha desaparecido por completo.
- Eu não preciso da sua ajuda, Daniel. Ele não ia fazer nada, posso me defender muito bem.
- Não rejeite minha ajuda quando está usando meu casaco. Não faz sentido. Ele iria te bater.
- Eu ia dar um soco nele, você atrapalhou tudo.
- Você estava encolhida. Por favor.
- Não muda o fato de eu não precisar da sua ajuda.
- Estou impressionado com a sua gratidão. Da próxima vez eu vou assistir a tentativa de estupro e sua defesa, em vez de tentar ajudar. Que besteira da minha parte, que tipo de cara faz isso? Ajudar a prima. Ninguém.
- Cala a boca. Vou ter que te aguentar a noite inteira ainda.
Argh, odiava ficar perto dele e ter como única forma de escapar da visível tentação o desprezo. Odiava tratar ele desse jeito, por mais que tenha me traído na cara dura.
- O que achou do meu cabelo? – perguntou ele depois de alguns segundos de silêncio, bagunçando os fios.
- Ridículo.
- Ah, que bom.
- Pelo menos aparou o arbusto.
- Você não vai mais ter o que puxar na hora do...
- Cala a boca, Daniel. Seu repugnante. Pare de falar comigo.
- Você está me dando corda.
- O que você tem que falar você não fala!
- Você já sabe que eu te acho gostosa com qualquer roupa, não vai ser um vestido comportado que vai diminuir meu tesão e minha vontade de te agarrar.
O olhei incrédula. Quanta petulância numa pessoa só.
Dobramos a esquina da rua dos meus pais, que era preenchida por milhões de casas semelhantes, tipicamente londrinas.
- Eu já pedi desculpas, . Sei do que está falando e sei o que está martelando sua cabeça nesse exato momento. Eu só posso dizer que sou um imbecil e você escolheu se relacionar com a pior espécie.
- Eu não escolhi porcaria nenhuma. O que John disse?
- Nós estamos normais, eu não me importei com o que aconteceu entre vocês dois.
- Mentira, está corroído pelo ciúme.
- É claro, mas não é por isso que vou ser injusto com meu melhor amigo.
- Ah, então se eu beijar qualquer um você vai fingir que nada aconteceu? Bom saber.
- Não disse isso! A situação era diferente.
- Vamos parar de falar de coisas constrangedoras na frente da casa dos meus pais.
Danny olhou pro lado e percebeu estávamos agora parados na frente de minha antiga casa. Subi as escadas do hall exterior e tirei a chave da bolsa, abrindo a porta. Dei espaço para Danny entrar atrás de mim, tentando esconder minhas mãos que ainda tremiam um pouco pelo susto. Sou muito sensível.
- Ah, meu Deus! – ouvi a voz de minha mãe não muito distante, vindo da sala de estar. – Quem é esse rapaz, minha filha? Eu te disse pra não trazer ninguém. Nada contra você, querido. É um jantar de família.
Danny me olhou segurando a risada e eu encarei minha mãe com um silencioso “o que foi isso?”.
- Mãe, esse é o Danny. – falei óbvia balançando a cabeça numa lamentação misturada com vergonha quando minha mãe abriu a boca espantada.
- O QUÊ? – exclamou ela, fazendo uma análise completa do corpo de Danny, tentando encontrar alguma coisa que denunciasse minha suposta piada. – Daniel?
- Olá Heather. – disse Danny meio tímido com um sorriso irresistível. Senti que minha mãe teve um colapso interno, assim como eu.
- Não posso acreditar que aquele franguinho frito se transformou nesse homem lindo! MARTY! VENHA VER SEU SOBRINHO!
Escondi meu rosto nas mãos depois do comentário desnecessário da minha mãe. Me diz pra quê.
Ela deu dois beijos em Danny e depois o olhou mais um pouco, tentando ainda comprovar o que já estava óbvio.
- Você cresceu demais.
- Daniel!
Meu pai apareceu no topo da escada e eu soltei um gemido de desespero. Mais vergonha, mais comentários desnecessários.
Ele abraçou Danny e o olhou com um orgulho paterno inexplicável. Tão desconfortável esse instinto paternal que meus pais tinham por ele. Não poderia nem imaginar o que fariam se descobrissem o incesto louco que nós praticávamos.
- Como andam os estudos? E o trabalho? Soube que arranjou um emprego!
- Ah, está ótimo. Não é fácil manter a média 8 mas é o mínimo que eu posso fazer.
- Sua bolsa então está firme?
- Claro. Trabalho no aquário.
- Que maravilha! Garoto, estou feliz por você. Vamos conversar na sala.
- Olá, papai. – murmurei entre dentes atrás dos dois. Meu pai se virou e sorriu pra mim.
- Olá querida, quanto tempo. Como está? – perguntou enquanto sentava na poltrona de costume.
- Bem.
- E Alice? – perguntou minha mãe em pé. Danny sentou do meu lado no sofá que na verdade era apertado demais na condição que eu estava. De não poder encostar nele. Nossas mãos se roçaram e eu afastei rápido.
- Está bem. Mandou lembranças pros dois.
- Ah, o mesmo para ela. Mas, Daniel, quer alguma coisa? O jantar está quase pronto.
- Estou ótimo, obrigado.
- Vocês estão na mesma faculdade, então? Se falam muito? – perguntou meu pai sem dar tempo pro garoto respirar.
- Sim, não nos falamos muito, os prédios são afastados demais.
- Ah, mas tenho certeza que vocês já saíram juntos. Não posso acreditar que está levando adiante essa birra antiga.
Rolei os olhos e joguei a cabeça pra trás, apoiando no encosto. A noite ia ser longa.
- Não, ela está me aceitando melhor. – respondeu Danny com risinhos evaporando segundos sentidos para mim. O belisquei forte na cintura por baixo da jaqueta e ele deu um pulo, começando a se coçar para disfarçar. – Ainda não tivemos a oportunidade de nos encontrar fora da escola, apesar de eu já ter sugerido algumas opções. Em uma semana não da pra fazer muita coisa.
- Sim, claro. Espero que mantenham uma boa relação. Já vejo um avanço entre vocês. Nem se olhavam antes.
- Na verdade temos uma ótima relação. Ótima. É simplesmente incrível como mudou.
Cerrei os dentes me segurando para não voar em cima dele e cravei minhas unhas em suas costas nuas. Ele soltou um gemido que foi seguido por uma risada.
- tem um pouco de dificuldade, mas estamos lidando com isso. Em breve seremos como irmãos.
- Acho ótimo, você é um bom exemplo a ser seguido, Daniel. Sua perseverança é invejável. Para um garoto de Bolton conseguir uma bolsa na Universidade de Londres não é nada fácil.
- Ah, eu faço o que posso.
Meu pai concordou com a cabeça.
- E como andam as coisas com Mary?
- Ah. – Danny ficou sério novamente. – Estou enviando a mesada mensalmente, no próximo feriado irei visitá-la. Está correndo tudo em ordem.
- Que bom. Desejo que vocês sejam muito felizes com o bebê.
- Obrigado.
- Vou ser tio avô! Nem acredito.
Danny riu tenso e eu encarei o chão. Eu tinha a facilidade de esquecer desse assunto muito rápido.
- Eu convidaria você para ficar por aqui, mas Heather me disse que você vai trabalhar depois, não é? Vai tocar num pub?
- É, salário extra. Estavam precisando de alguém. Não é muito longe daqui, mas eu vou voltar pra casa dos garotos depois. John vai me levar o carro dele e meu violão, essas coisas.
- Sim... Como está John e a banda?
- Muito bem. Fizeram o primeiro show ontem no Hard Rock Café.
- É mesmo? Já estão nesse nível?
- Eles são muito bons.
Ao lembrar do show, um novo clima de tensão se instalou entre nós e nossos joelhos se encostando me deixaram desconfortável. Eu nem tinha percebido.
Mamãe apareceu novamente na sala anunciando que o jantar estava servido e nos encaminhamos pra sala de jantar, do outro lado da casa e em frente a cozinha. Danny sentou na minha frente e minha mãe do meu lado. Meu pai na ponta.
- Espero que goste de massa, Danny. – disse minha mãe se oferecendo para servi-lo.
- Ah, eu adoro. – respondeu ele e trocamos um olhar rápido. Me servi de salada e pretendia ficar por um bom tempo nela. Meu estômago estava embrulhado demais para suportar carboidrato puro.
Basicamente, o jantar inteiro foi meu pai perguntando sobre todos os detalhes possíveis da vida profissional de Danny, que respondia tudo com a maior paciência possível. Fico me perguntando se ele é mesmo meu parente, porque esse dom que ele tem de aguentar a família perguntando besteira não é normal mesmo.
O meu único problema naquela noite foi não conseguir parar de imaginar Danny sem camisa com aquele cabelo novo dele. Ele estava simplesmente gostoso, como se já não fosse, e eu tenho a leve impressão de que ele cortou só pra me provocar, porque a gente não está se falando. Em teoria.
A sensação de imaginar esse tipo de fantasia sexual com meu primo na frente dos meus pais me deixava completamente desconfortável. Era como se todos pudessem ouvir meus pensamentos, toda aquela luxúria gritante na minha mente. Nunca tive abstinência, mas deveria ser mais ou menos a mesma coisa que eu estava sentindo.
Depois que todos terminaram de comer mamãe nos arrastou pra sala e desenterrou um álbum de fotos antigo, transbordando fotos minhas e de Danny na fazenda. As fotos não transmitiam lá tanto amor, eu sempre saía ou olhando pra ele com nojo, ou ele me mostrando a língua. Bons tempos.
Estávamos sentados nos mesmos lugares de antes, eu totalmente tensa ao lado de Danny que olhava compenetrado as fotos que minha mãe lhe passava. Num de seus movimentos para conseguir alcançar minha mãe, sua camiseta se esticou e vislumbrei um pedaço de sua tatuagem no braço. Por dentro da gola. Um arrepio percorreu meu corpo e eu me levantei subitamente.
- Preciso ir ao banheiro. – falei, me afastando sem olhar a reação dos três. Subi as escadas correndo e entrei no banheiro do corredor, em frente ao meu quarto e ao quarto de hóspedes.
Controle-se. Seu objetivo é ignorá-lo, vai estragar tudo agora? Só porque ele tem músculos? Coisa que não tinha antes?
Me apoiei na parede, encostando a testa no ladrilho gelado. Aquilo esfriou um pouco o fogo que estava se alastrando pelo meu corpo. O que eu sou? Uma cadela no cio? Que coisa mais descontrolada.
A única coisa que ouvi no momento seguinte foi um clique, que ecoou pelo banheiro. Levantei a cabeça, sem me virar. Antes que eu pudesse ver o que estava acontecendo, as luzes do banheiro se apagaram e eu me virei rápido, no escuro. Não via nada, nem um único reflexo de luz. Minhas mãos começaram a tremer, assim como meu corpo inteiro. Senti uma respiração bater contra meu rosto e fechei os olhos. Não podia estar acontecendo.
Fui virada novamente contra a parede, com certa brutalidade que me deixou num nível de excitação maior. Danny me espremeu completamente com seu corpo e grudou os lábios no meu pescoço, roçando com eles por toda a minha pele daquela área. Meus cabelos foram soltos e ele me virou novamente, agora estávamos de frente um para o outro.
- Desculpe, mas eu não posso esperar mais. – Ele sussurrou e beijou meus lábios com delicadeza. Minhas pernas vacilaram numa demonstração de fraqueza óbvia perto dele. Danny passou um de seus braços pela minha cintura e me apertou com força. Senti uma de suas mãos descerem pela lateral do meu corpo e entrarem para baixo do meu vestido.
Foi quando lembrei da cena desprezível dele fazendo praticamente o mesmo com a garota no Hard Rock.
O empurrei pra longe, tentando resistir ao perfume desgraçado que aquele garoto exalava, minha concepção do paraíso, e fui na sorte em direção a porta, acendendo a luz no interruptor que ficava ao lado.
- Pense duas vezes antes de satisfazer suas vontades com outra garota. – falei, mais num tom de lamentação do que de raiva. Saí do banheiro, o deixando sozinho.
Não demorou muito tempo para Danny decidir que já estava tarde e precisava ir para o pub tocar depois do corte que lhe dei. Não havia o mínimo clima de qualquer que fosse o sentimento entre nós, eu não podia nem olhá-lo que meus olhos lacrimejavam.
Ele se despediu dos meus pais, concordando freneticamente aos convites para encontros futuros que minha mãe fazia no maior entusiasmo. Não correspondi ao sorriso que ele me lançou na tentativa de uma despedida, depois saindo porta a fora.
- Danny está lindo. Deve receber propostas o tempo inteiro, mas pobre do garoto, vai casar ano que vem. – disse minha mãe voltando com meu pai para a sala de jantar. Fiquei alguns segundos parada no hall encarando o chão, sem saber o que pensar.
Balancei a cabeça, tentando afastar a lerdeza que tinha me atingido e voltei para o andar de cima, entrando no meu quarto.
Deitei imediatamente na minha cama e senti algumas lágrimas escorrerem, mentindo para mim que era alergia a colcha. Peguei no sono depois de meia hora.
Acordei com o a freqüência cardíaca alta, percebendo que estava embaixo das cobertas e de pijama. Olhei o céu lá fora, através da janela um pouco embaçada pelo frio que fazia. O dia não tinha sido tão insuportável, mas alguma lei da química deveria explicar minha janela embaçada. Algo que eu realmente não me importava, sob as circunstâncias em que me encontrava. Uma dor no peito estava me incomodando desde o momento em que Danny deixou a casa, e aquilo não era, de forma alguma, um bom sinal. Eu sabia exatamente qual era o significado dessa dor, mas apenas não conseguia admitir para mim mesma.
Levantei da cama e caminhei com passos demorados até o espelho pendurado na minha parede. Tire essa ideia absurda da cabeça, pensei comigo mesma. Você precisa aprender que não podemos fazer o que nos der vontade a qualquer momento, é simplesmente uma lei natural da vida, aceite.
Acontece que leis naturais não se encaixavam no meu relacionamento perturbado com Daniel Jones.
Tirei o pijama que provavelmente tinha sido colocado pela minha mãe enquanto eu dormia pesadamente e coloquei novamente meu vestido e meu sapato, arrumando da melhor forma possível meu cabelo já devastado pelo tempo.
Eu podia sentir a atração a quilômetros de distância. Eu sentia.
Abri a porta do quarto devagar, tomando cuidado para que meus movimentos fossem silenciosos, sem antes tirar da cadeira minha bolsa de camurça.
Todas as minhas decisões implicavam arrependimentos no dia seguinte, mas aquilo não podia esperar. Já fazia muito tempo e eu já não estava mais agüentando. Eu havia me tornando uma viciada numa droga ilícita sem cura. Ilícita na minha mente, pois de acordo com a minha ética e as minhas virtudes, o que eu estava prestes a fazer era contra tudo o que eu acreditava e respeitava.
A casa já estava escura, com meus pais dormindo no quarto. Desci as escadas na ponta dos pés e logo já estava ao lado de fora, exposta ao frio inesperado daquela noite de sábado. Esfreguei meus braços apesar de estarem cobertos pelo tecido do meu vestido, que não era tão fino assim.
Eu não fazia ideia de pra onde ir, quando se trata de direção e localização eu sou inútil. Mas alguma coisa, alguma força inexplicável tomou conta do meu corpo e, em alguns minutos andando pelas ruas vazias da cidade, me dei conta de que estava parada em frente ao pub que Danny havia citado mais cedo, explicando que faria uma apresentação por alguns trocados.
Abri a porta rústica e pesada com dificuldade, e no momento em que a fechei atrás de mim e um cheiro de mofo misturado com cerveja me atingiu, eu ouvi.
A voz. Aquela maldita voz.
Nada, repetindo, nada me deixava mais aturdida do que aquela voz cantando qualquer tipo de melodia. E, daquela vez, a melodia ajudava muito para que eu sentisse meu coração apertado, retorcido.
Adentrei o pub com cautela, felizmente sendo ignorada pelo atendente morto-vivo que limpava alguns copos atrás do balcão. O lugar estava cheio de gente estranha alternativa, que fuma grama na abstinência de maconha. Não que isso seja possível, mas eu não duvidava nada de que o cara que estava apoiado no balcão, de olhos fechados e soltando para o alto uma fumaça, não estivesse fumando algum tipo de erva indiana desconhecida. A maioria das pessoas estava sentada em mesas espalhadas pelo lugar, alguns conversando e outros encarando o pequeno palco no fundo do estabelecimento.
Quando coloquei os olhos em Danny, senti o chão desaparecer debaixo dos meus pés. Tive que me apoiar no balcão atrás de mim, não sabia se aquilo tudo era o efeito que aquele canalha tinha em mim ou se os diversos odores eram muito fortes para minha cabeça.
O que eu temia superficialmente aconteceu, logo depois de eu colocar os cotovelos atrás do balcão em que estava encostada. Danny passou seus olhos por mim e, sem parar de cantar, voltou a me encarar sem expressão aparente. Provavelmente deveria achar que estava imaginando coisas, mas eu não queria que a minha presença ali fosse ignorada simplesmente pelo fato de ele estar com medo do que seus olhos poderiam criar. Me desencostei da superfície e andei alguns passos para frente, ficando embaixo de um foco de luz das lâmpadas no teto. Não conseguia tirar meus olhos de seu rosto, que transmitia uma espécie de onisciência e sofrimento. Apesar de eu ter certeza de que ele estava surpreso por dentro, só apenas sabia disfarçar muito bem.
Mr writer why don't you tell it like it really is
Why don't you tell it like it always is
before you go on home
Os últimos acordes da música foram seguidos por aplausos e alguns assovios alheios de algum bêbado. Não que alguém precise estar bêbado para apreciar o talento de Danny, mas bêbados geralmente se manifestam espalhafatosamente. Dei meia volta e saí do pub, parando no meio da calçada e encarando o chão, enquanto o vento batia com força nos meus cabelos.
Senti uma presença atrás de mim e o olhei sobre o ombro. Ele estava parado atrás de mim, segurando a case do violão e me encarando, esperando uma explicação. Me virei devagar e não pude evitar o olhar nos olhos, que eram visíveis apenas pela luz da lua e de alguns postes da rua.
- Eu... – comecei, cruzando os braços pelo frio no mesmo momento em que ele me interrompeu.
- Vamos entrar no carro, você está congelando. – disse ele descendo os olhos por um momento para minhas pernas descobertas. Concordei com a cabeça, o seguindo até a esquina, que na verdade dava para um beco sem saída. O Impala do avô de John estava estacionado de costas para a rua no beco escuro. Danny abriu a porta do carona e eu entrei, já prevendo que fim levaria aquela situação. Fechei os olhos e respirei fundo antes de ele sentar ao meu lado no motorista depois de guardar seu violão no banco de trás, acendendo a luz do painel.
- Acho que sabe por que estou aqui. – murmurei depois de alguns segundos de silêncio cortante.
- Fale. – disse ele gentilmente, me olhando. Não fiz o mesmo, de início. Fiquei alguns segundos em silêncio simplesmente porque eu não sabia o que dizer. Mas sabia que era só eu o olhar para ele entender. Então o fiz.
Não tive nem dez segundos para a preparação mental e Danny afastou uma mecha de cabelo do meu rosto, colocando atrás de minha orelha. Sua mão passou delicadamente pelo meu rosto e seu polegar acariciou meu lábio inferior, tudo isso com uma expressão séria. Ele aproximou seu rosto do meu e grudou lentamente seus lábios nos meus, me beijando delicadamente. Entre pausas, começou a dar chupadas curtas no meu lábio inferior, me provocando de uma forma agonizante. Segurei sua nuca e fiz ele parar de ir e voltar, iniciando o beijo elaborado. Senti sua mão descer até minha cintura, parar por alguns segundos e terminar o percurso até minha coxa descoberta. Aquilo me excitou descontroladamente, e, em um milésimo, eu já estava sentada em seu colo. Desistindo de segurar minha nuca, desceu também a outra mão, que foi parar na minha cintura por baixo do vestido. Seu toque poderia me fazer gozar sem penetração, o prazer era inexplicável. Uma de suas mãos deslizou até meu ventre e entrou na minha calcinha. Sem perder tempo ele me penetrou, fazendo movimentos circulares lentos e sacrificantes enquanto eu beijava seu pescoço com uma fúria que nunca tive.
Em poucos minutos eu já estava grunhindo pedindo que parasse e começar o que interessava. Tirei eu mesma meu vestido e ele a camisa e a camiseta. Já podia sentir com vigor seu volume por cima da calça, e aumentou drasticamente quando nossos troncos nus se encostaram e, enquanto nos beijávamos e finalizávamos a preliminar, eu arranhava suas costas o excitando mais ainda. Apressada demais para continuar aquela tortura, abri sua jeans enquanto beijava seu peito em diferentes lugares. Ele abriu meu sutiã e o atirou no banco ao lado. Logo depois abaixou a calça e a boxer, sentando reto no banco e colocando ele mesmo uma camisinha que eu não sei da onde surgiu. Abaixei minha calcinha e não tive tempo de tocá-la longe ele já havia me puxado, me fazendo o deixar penetrar com brutalidade pela força do puxão. Os dois gemeram alto na primeira investida, não achei que iria aguentar mais tempo e só haviam se passado alguns segundos.
A única coisa negativa de se transar em um carro eram as opções limitadas de posições, mas aquilo não interferia no prazer gigantesco que suas investidas me causavam. Era difícil admitir mas eu senti falta daquela sensação, mais que qualquer outra coisa.
Suas mãos não se decidiam e mudavam de posição loucamente enquanto aumentávamos a velocidade do movimento, alternando entre muito devagar e rápido o suficiente para não nos fazer atingir o clímax tão cedo. Senti sua língua no meu pescoço e me arrepiei com o primeiro chupão da noite. Nunca fui muito fã, mas o prazer que aquilo, vindo de Danny, me causava, me fazia mudar de ideia. Pude contar cinco chupões antes de ele gozar exausto. Apesar disso não parou até ser a minha vez, logo depois paramos respirando rápido.
Saí de cima dele e sentei de volta no carona, me encolhendo de frio enquanto tirava os cabelos do rosto. Olhei novamente para Danny e ele me encarava irônico, recolocando a boxer.
- O que foi? – perguntei perdida.
- Não resistiu ao abominável, não é?
Fiquei estática por um tempo, não acreditando no que acabara de ouvir. Como ele sabia que eu o chamava, mentalmente, de abominável?
- Cala a boca. – resmunguei virando o rosto pra janela. Senti um beijo no meu ombro e sorri, ainda com o rosto virado.
- Cara, como eu amo essa sua birra pós sexo. É simplesmente adorável.
O olhei sorrindo, vendo em minha mente meu rosto vermelho. Ele me beijou calmamente.
- Precisa me levar de volta pra casa. – falei interrompendo o beijo e começando a me vestir. Meus pais não podiam nem sonhar que eu tinha saído no meio da noite.
Danny concordou com a cabeça, meio desapontado, e começou a se vestir também. Por mais que eu tenha me entregado novamente a ele e tenha ignorado toda a confusão da noite passada, eu sabia que nada estava bem. Sempre teria uma barreira nos dividindo, nos forçando a seguir caminhos distintos. Não sabia se conseguiria quebrá-la algum dia.
Capítulo 6
A única coisa que eu conseguia enxergar em minha mente era a noite de sábado. Aquilo estava me prejudicando drasticamente, seja na faculdade ou no trabalho. Eu estava cometendo erros que não cometia, eu sentia meu estômago embrulhar cada vez que a via na universidade e ela fingia não me conhecer. Está para existir o primeiro homem que compreender a mente feminina.
Na sexta-feira à noite meu pai me ligou pela primeira vez em duas semanas, eu até tinha suspeitas de que ele havia esquecido da minha insignificante existência, até ele se justificar. Não que eu tenha engolido.
- Danny! Como estão as coisas?
- Oi pai. Está tudo bem. – respondi sem ânimo.
- Você vai me perdoar por não ter te ligado nesses últimos dias, as coisas estão difíceis por aqui. Mas Marty me manteve informado do jantar que vocês fizeram. Fico feliz que estejam se encontrando.
- Ah sim. Foi bom.
- Tenho uma boa notícia pra te dar! Estive olhando alguns apartamentos no centro e aluguei um pra você. Me sinto um péssimo pai te deixando morar com amigos, você precisa de um lugar só seu.
- O quê? Você alugou um apartamento pra mim?
- Sabia que você ia gostar. Ele é mobiliado, até porque você não tem móveis. Não se preocupe, o lugar é limpo.
- Pai... eu estou bem na casa do John. – menti, eu tinha um orgulho meio neurótico de tentar resolver tudo sozinho.
- Daniel, pare com esse seu orgulho neurótico de tentar resolver tudo sozinho. A chave do apartamento vai chegar hoje de noite em Londres, junto com alguém que quer te ver.
- O quê? QUEM?
- Tenho que desligar! Me ligue quando precisar.
- Estou te ligando agora! Preciso de você agora! Quem vai vir? PAI?
Desliguei o celular e fiquei por uns cinco minutos encarando um ponto fixo qualquer no chão, sentindo o desespero dominar meu corpo.
Entrei na casa de John ainda em choque, tombando com o próprio atravessando o corredor enquanto devorava um hambúrguer.
- E aí, meu? – murmurou ele parando de frente pra mim, de braços cruzados, mastigando sem muita empolgação.
- Você precisa me ajudar. – falei sem o olhar, caminhando sem vida até a sala e jogando minhas coisas no sofá.
- Bom, nós temos um show hoje de noite, mas manda aí, tem a vida toda pra resolver o drama.
- Eu acho que Mary vai aparecer aqui hoje. Com a chave do meu novo apartamento.
- Novo apartamento? Você vai nos largar brutalmente?
- Não tive escolha. Esse não é o problema! Mary está vindo!
- E o que você quer que eu faça? Despiste ela enquanto você foge pro exterior? Minhas formas de despistar são bem eróticas.
- Cala a boca, John! Provavelmente ela vai ficar por aqui no fim de semana. Por isso meu pai quis me dar o apartamento. É claro! Ela vai vir sempre e teremos que morar num lugar sozinhos. Minha vida acabou.
- Calma aí, Jones. Por acaso ela tem alguma doença contagiosa? Pelo que eu sei ela é bem bonita e saudável. Qual é o seu medo?
- Eu vou ter que fingir que sou um namorado feliz. Suficiente pra você? Nem sei se estamos juntos! Estamos?
- Sei lá, vocês vão ter um filho. Devem estar.
- Droga. É o meu fim.
- Você é disputado por milhões de mulheres bonitas e está surtando. Qual o seu problema?
- Milhões? Pare com essas hipérboles irritantes.
- Mary, e aquela sua “amiga” da universidade. Devem existir mais, eu é que não sei. Você podia fazer uma doação aqui pro John.
- Fique com Michelle, ela não me preocupa.
- Nossa. – disse ele me olhando estranho. – Você está mesmo precisando nascer de novo. Já viu o traseiro dela? Ah sim, já. Você estava agarrando ele na semana passada.
- JOHN! DÁ PRA PARAR? Estou atolado de problemas!
- Desculpe amiga. Eu vou tomar banho, se quiser ir no meu show com a Mary está convidada. Vai ser fabuloso. – falou ele com uma voz afeminada, gesticulando de forma delicada enquanto subia as escadas.
Suspirei, me jogando no sofá. É, as coisas estavam dificultando, finalmente.
° ° °
Já estava de pijamas, sentada no sofá da sala segurando um dos meus livros preferidos quando Alice apareceu com um sorriso suspeito. Nunca tenho paz.
- O que vai fazer hoje de noite?
Encarei lentamente o livro em minhas mãos e depois meu pijama. Ela continuou me olhando com a mesma expressão.
- Ficar em casa. – falei devagar. Devemos ser pacientes com pessoas retardadas.
- Sabe onde você poderia ir? – perguntou ela sentando ao meu lado. Suspirei.
- Onde?
- Na casa do Danny. – respondeu com o mesmo sorriso maníaco. – Sua cara de “preciso de sexo” está me deixando louca.
- Agradeço a ajuda, mas estou muito confortável. E eu já vou sair domingo em função da faculdade.
- Onde vai?
- Num desfile de moda.
- Deus, você é muito sortuda.
- Ah, sou. – murmurei sarcástica abrindo o livro. Ela puxou das minhas mãos com uma cara indignada.
- Pare! Você vai à casa do Danny. Vá colocar uma roupa decente, que provoque orgasmos.
Encarei seu rosto por alguns segundos sem paciência. Para Alice tudo era fácil e se resolvia rapidamente.
- O que te impede? Imagine o rosto meigo de Danny sozinho numa sexta-feira à noite, provavelmente estudando em seu quarto no sótão. Sua cama pedindo duas pessoas se amando. Vai negar isso?
Sorri de canto e ela começou a rir. Droga.
Levantei do sofá e me arrastei até o quarto com Alice dando pulos de alegria atrás de mim. Não entendia essa obsessão dela em apoiar meu relacionamento com Danny. Acho que amigas são pra isso.
Fechei automaticamente meu casaco verde com manga três quartos ao sentir o vento bater forte em meu rosto, levando meus cabelos junto. Meu coração parou de bater quando saí do táxi e olhei para a porta da casa de John. Danny estava parado na porta com uma mochila nas costas, segurando uma mala. Desceu dois degraus do hall de entrada e uma garota surgiu atrás dele, falando com John que surgiu logo atrás.
Mary estava em Londres.
- Muito obrigada pelo carro, John. Devolvemos amanhã.
- Sem problemas, já usei hoje. – falou ele indo atrás de Danny para ajudá-lo a abrir o porta-malas. – Espero que fique bem sem mim, Daniel. Sabe que sou seu porto seguro, estou aqui pra tudo.
Ele parou de falar no momento em que colocou seus olhos em mim, que estava parada há alguns metros observando a cena. Olhou para Danny sem saber o que fazer, mas já era tarde demais.
- ! – exclamou Mary, largando a bolsa dentro do carro e correndo até mim. Me abraçou exageradamente forte. – O pai de Danny me disse que você estava aqui também! Bom te ver novamente.
Sorri amarelo.
- Como está o bebê? – perguntei, baixando os olhos até sua barriga sem pistas de gravidez pelo pouco tempo.
- Ah, até agora está se desenvolvendo bem. Foi o que o médico disse. – respondeu ela sorrindo. Não sei por que, mas a raiva que eu tinha de Mary se amenizou no momento em que ela falou do filho.
- Ahn, vocês... – comecei, apontando para o carro, evitando o olhar de Danny.
- Danny está se mudando para um apartamento no centro, estou só ajudando. Vou ficar até segunda-feira.
- Ah! – concordei sem ânimo.
- Podemos fazer alguma coisa juntos no fim de semana! Eu adoraria sair com você!
Antes de poder responder, Danny já estava parado atrás de Mary.
- Er, Mary, será que você poderia nos dar licença? Preciso falar com ela. Assuntos da universidade. É rápido.
- Claro, eu vou entrando no carro. John, onde estão os meninos mesmo?
A voz de Mary se diluiu enquanto Danny me puxava com delicadeza para mais alguns metros de distância.
- Eu não sabia que ela iria vir. Me desculpe.
- O que isso significa?
Ele cruzou os braços e encarou o chão, mexendo com o pé desconfortável.
- Significa que isso tudo é real. A gravidez e o meu futuro com ela. Quando ela estava longe, em Bolton, tudo parecia apenas uma ideia, algo distante. Agora vejo como não tenho saída.
- Não tem saída?
Ele por fim olhou nos meus olhos e, com espanto, percebi que estavam marejados. Meu coração acelerou com a possível frase seguinte.
- Acho que não devemos mais alimentar esperanças. É isso, estou terminando o que temos. Digo, sei que não temos muita coisa, mas o que temos deve acabar.
Fiquei encarando seu rosto por alguns segundos sem expressão aparente. Só conseguia piscar e respirar com dificuldade. Danny tentou disfarçar, limpando uma lágrima que escorreu contra sua vontade. Meus olhos começaram a marejar, mas continuei sem falar nada.
Ele tirou seus olhos dos meus e olhou para o chão novamente.
- Eu sinto muito. – finalizou, mordendo o lábio inferior logo em seguida, voltando a me encarar.
No segundo seguinte eu estava sozinha na calçada mal iluminada.
Não tinha coragem de me virar e assistir Danny partir com Mary, meu pesadelo se tornando realidade.
Senti as lágrimas escorrerem numa velocidade inexplicável quando olhei por sobre os ombros o carro se afastar. Limpei meu rosto com a manga do casaco, ação inútil, pois ele estava encharcado novamente no segundo em que abaixei o braço.
Comecei a soluçar emitindo sons que comprovavam meu desespero. Me virei para ir embora mas braços me envolveram repentinamente, aliviando um pouco minha solidão. Afundei meu rosto no peito de John e ele afagou meus cabelos com delicadeza.
- Vai ficar tudo bem, eu estou aqui. – sussurrou ele em meu ouvido depois de um minuto. A freqüência do meu choro aumentou e o abracei pra valer pelo pescoço. Senti um beijo no meu pescoço e me arrepiei levemente. – Engraçado como eu sempre acabo aqui, com você.
Sabia que ele estava se relacionando ao seu abraço e suas palavras de consolo. Sorri, o encarando pela primeira vez.
- Obrigada. – murmurei com a voz fanha de tanto chorar. Ele sorriu me dando um beijo no rosto.
- Sem problemas. Vamos entrar, está frio.
- Não, eu...
- Nem pensar, não vou te deixar sozinha depois do que aconteceu. – disse ele segurando o meu queixo. Olhei para baixo corando um pouco com a aproximação. – Vai negar um pedido do cara que quer te ver sorrir mais do que qualquer coisa?
Fiquei séria. Estávamos indo longe demais ou...?
- Tudo bem, O’Callaghan. – Fingi resmungar. Ele me abraçou pelos ombros, me conduzindo até a porta.
- O que você quer fazer? Está com fome?
Suspirei segurando mais uma onda crescente de lágrimas que ameaçavam começar a escorrer ao lembrar do rosto de Danny com os olhos marejados. Eu não estava com raiva dele, só lamentava. Eu sabia que uma hora ou outra aquilo iria acontecer.
Entramos na casa e John me conduziu pelos ombros até o sofá, ligando a televisão logo em seguida.
- Eu vou fazer chocolate quente, tudo bem? Afinal John O’Callaghan não é lá tão inútil.
Concordei com a cabeça e a encostei no encosto do sofá, encarando sem interesse o programa que passava. Era seqüência de clipes antigos, e agora passava Without You da Mariah Carey. Ótima escolha, John. As lágrimas começaram a escorrer pelas minhas têmporas e em poucos segundos eu estava soluçando envolvida na paixão do clipe.
Alguns minutos depois John surgiu da cozinha segurando uma caneca e me olhou assustado. Seguiu meus olhos e encarou o final do clipe, depois que percebeu trocou rápido o canal.
- Desculpe, nem vi. – murmurou ele sentando ao meu lado e me entregando o chocolate quente. Limpei meu rosto e funguei dramática.
- Tudo bem. Olha, obrigada por me ajudar.
- Não se preocupe com isso, é sempre um prazer estar com você.
Sorri envergonhada, dando um gole. O líquido desceu pela minha garganta causando uma sensação súbita de conforto. Fechei os olhos tentando enganar meu cérebro e fingir que por um momento não havia nada de errado.
Senti os olhos de John me analisando e o olhei. Ele não estava sorrindo, como de costume.
- Você poderia ser feliz.
Franzi o cenho sem entender o sentido de sua frase.
Não foram necessários nem dois segundos para John eliminar a distância existente entre nossos lábios, me beijando delicadamente. Com o susto, derrubei um pouco de chocolate quente da caneca no meu peito, um pouco abaixo do pescoço. John parou de me beijar percebendo o acidente mas não hesitou nem um momento ao descer seus lábios até a região onde o líquido tinha caído e lamber. Fechei os olhos tentando evitar um gemido de prazer culpado, sentindo seus beijos se encaminharem novamente até minha boca, passando por todo o meu pescoço. Me vi segurando sua nuca com uma das mãos livres, mas logo não estava mais com a caneca pois John a pegou e colocou na mesa de centro sem parar de me beijar. Ele tirou meu casaco enquanto eu bagunçava seus cabelos, envolvida e entorpecida pelo momento inesperado. Senti ele agarrar minhas coxas com certa força e me posicionar no sofá de forma a ficar por cima de mim. Parou de me beijar e aproximou sua boca do meu ouvido, sussurrando:
- Desde o momento em que coloquei os olhos em você imaginei essa situação.
No segundo seguinte eu estava apenas de sutiã e sentia minha jeans ser desabotoada.
Parecia completamente errado deixá-lo saciar minha carência, mas também parecia bastante errado Danny morando no mesmo apartamento que Mary.
John abaixou lentamente minha jeans e, enquanto abaixava minha calcinha com menos pressa ainda, passava os lábios provocante pela minha barriga descoberta.
Não demorou muito para eu estar apenas de sutiã e salto alto. Ele desceu seus lábios até minha genital, abrindo minhas pernas com delicadeza. Senti sua língua penetrar a região interna do meu órgão e gemi de prazer. Ele começou com movimentos lentos enquanto apertava minhas coxas por dentro, fazendo minha respiração aumentar a freqüência. Ficou naquilo por alguns demorados e sofridos minutos, para meu desespero. Eu não estava mais agüentando.
O puxei pra cima pelos cabelos, sim, pelos cabelos, eu estava desesperada. O empurrei para deitar no sofá e tirei sua camiseta. John me puxou para baixo com força, apertando minha cintura contra a sua. Senti seu volume impressionante enquanto ele me beijava com ferocidade. Tirou do bolso traseiro um pacotinho e logo depois se desfez da calça jeans. Eu estava um pouco apressada então arranquei o pacote da mão dele e tirei eu mesma sua boxer. Coloquei em seu membro a camisinha e ele me puxou novamente contra sua cintura, agora me penetrando com força. Começamos rápido mas parecia que John gostava de apreciar cada movimento, diminuindo nossa velocidade em intervalos de tempo. Aquilo aumentava muito meu tesão, de uma forma que nunca aconteceu com nenhum outro cara.
Chegamos juntos ao clímax e eu caí sem fôlego por cima dele. Senti sua mão acariciar minhas costas nuas, descendo até meu cóccix lentamente e voltando até a parte superior várias vezes. De uma forma estranha eu me sentia confortável em seus braços.
- Como se sente?
Ouvi sua voz preencher o vazio de minha cabeça.
- Péssima.
- Obrigado.
- Não! Não é isso... – Levantei a cabeça sorrindo para ele. Beijei seu lábio inferior antes de completar a frase. – Você sabe do que estou falando.
- Espero pelo menos que tenha te ajudado de alguma forma.
- Me ajudou, muito obrigada. Pulei a fase “depressão sem fim pós fora”
Ele sorriu e acariciou meu rosto de leve.
- Você sabe que não fiz isso com esse objetivo.
- O que quer dizer?
- Fiz porque estava com vontade, muita vontade. Não para te fazer esquecer do Danny. Até porque você não vai. Talvez nunca esqueça dele. O amor que existe entre vocês dois é muito maior do que esse fora que ele te deu hoje.
O encarei em silêncio por alguns segundos, tentando absorver a informação.
- Não se sente mal transando com alguém que ama outra pessoa?
- Não, sei que você sente por mim a mesma atração que eu sinto por você.
Sorri indignada.
- Que convencido!
- Imagina, querida. Sou observador.
Ri fechando os olhos logo em seguida.
° ° °
Então, é, podemos descrever minha situação atual como “indesejavelmente incomum”. Sabem o que significa descobrir que toda a sua família acha que você está tendo um relacionamento verdadeiro e cheio de futuro com alguém por quem você não sente absolutamente nada?
Provavelmente não.
Posso já adiantar que é bem desagradável.
Ajudei Mary com as malas até meu novo apartamento, que por incrível que pareça era a única coisa que me agradava naquilo tudo. Até eu descobrir que só tinha um quarto com uma cama de casal, me levando a concluir que meu pai estava mais do que certo do meu casamento e da minha futura família a ser formada. O preço a ser pago para quem não usa camisinha pode ser bem ruim, vão por mim.
- Danny, acho que precisamos esclarecer algumas coisas. – disse Mary sentada na cama, me observando colocar suas malas no chão. A olhei imóvel, sem muita coragem de começar aquela conversa.
- Sim? – respondi depois de pigarrear, recorrendo há alguns poucos segundos de preparação mental.
- Estamos juntos, certo? – perguntou ela com uma expressão séria e até um pouco ameaçadora, e eu percebi que não estava mais conversando com a mesma Mary que eu conhecia.
- Desculpe?
- Estou esperando um filho seu, isso é mais do que suficiente para estarmos realmente juntos. Somos um casal.
Olhei pros lados tentando entender aonde ela queria chegar com aquilo, não muito crente que aquele assunto estava sendo verbalmente exposto.
- Mary, você precisa entender uma coisa... – comecei, mas ela levantou repentinamente com os olhos semicerrados e eu não me atrevi a continuar.
- Não, Daniel, você precisa entender que eu sei o que você e andam fazendo e não preciso de muitos motivos pra contar tudo pros seus avós, seu pai e a família inteira. Eles não vão gostar nem um pouco de saber que, além de ter me engravidado, você anda transando com a sua prima de sangue. – Ela fez uma pausa dramática e sorriu maleficamente. – Então, estamos juntos?
- O quê? Você está me ameaçando?
- Entenda como quiser, eu não estou aqui para brincar de casinha com você. Um deslize seu e você está completamente ferrado.
- Mary, o que aconteceu com você?
Ela gargalhou, jogando a cabeça pra trás. Os meus únicos movimentos eram minhas pálpebras piscando sem acreditar.
- Você me trocou pela sua priminha idiota e acha que vai sair ileso? Por favor, você não tem noção nem da metade do que eu posso fazer. Sempre fui apaixonada por você e ainda sou, isso você já deve saber.
- Me desculpe Mary mas eu não te amo, não pode me obrigar a gostar de você. Muito menos me chantageando dessa forma.
- Você não tem vergonha mesmo, não é, Jones? Incesto é crime.
- Incesto! Você fala como se eu fosse pai dela! Isso não é incesto!
- Não tente mentir para si mesmo, a culpa dentro de você é tão grande que eu posso vê-la em seus olhos. É melhor responder a minha pergunta e é melhor que a sua resposta seja a que eu quero ouvir, se não você vai se arrepender amargamente de ter me trocado.
Engoli em seco e respirei fundo algumas vezes, passando a mão pelo cabelo, com esperanças de aquilo fosse um pesadelo desagradável.
- Estamos juntos. – murmurei sentando na cama e massageando minhas têmporas, sentindo uma dor de cabeça terrível se espalhar aos poucos.
- Ótimo. – disse ela, se abaixando na frente da mala e começando a desfazê-la. – É melhor você trazer suas coisas, querido. A partir de agora vai morar aqui. – continuou ela, mudando o humor numa velocidade assustadora. A encarei sem entender por alguns segundos e depois balancei a cabeça.
- Amanhã de manhã eu pego na casa do John.
- Sabe que vai ter que fazer muito melhor do que isso, não é? – perguntou ela atropelando minha resposta forçadamente natural. De repente ela tirou o casaco e a blusa que estava usando, ficando de sutiã. Um sorriso malicioso estava estampado em seu rosto quando ela começou a se aproximar devagar de mim.
- O que está fazendo? – perguntei tenso quando ela começou a abrir meu casaco, sentando no meu colo de frente para mim.
- O que garotas fazem com garotos quando eles estão juntos. Esqueceu como me engravidou? – respondeu ela e logo em seguida grudou seus lábios nos meus, pressionando com tanta força que fui obrigado a ceder.
° ° °
Um som ensurdecedor me acordou, me fazendo sentar assustada aonde quer que eu estivesse. Senti minhas costas gritarem de dor, eu sabia que nódulos desgraçados haviam se formado apenas pelo fato de dormir no sofá. Olhei pro lado e dei de cara com John dormindo pesado de boxers. Toda a noite passada veio como um tsunami na minha mente e segurei minha voz para não soltar um gemido de desespero. A televisão, grande causa do barulho que tinha me acordado, estava ligada num volume não tão alto como pareceu. Levantei e a desliguei, percebendo que estava apenas com minha blusa listrada de preto e branco com mangas compridas, sutiã e calcinha. Nada adequado. Fechei os olhos e os cocei sem piedade, quando a campainha tocou.
Previ que eram os garotos chegando de uma noite muito louca que deveriam ter passado na casa de algum desconhecido. Não me prestei a colocar calças, eles que vissem, eu já estava numa situação deprimente mesmo. Me arrastei até a porta e girei a chave, abrindo-a logo em seguida.
Demorei um tempo para focalizar e acreditar na pessoa parada na minha frente.
Danny me olhou de cima a baixo com uma cara assustada, depois parou no meu rosto. Seus olhos beiravam o desespero. Ele entrou devagar na casa sem falar nada, me forçando a dar espaço. Andou receoso até o sofá e encarou John dormindo sem a maioria das roupas.
- Não acredito que fez isso. – murmurou ele com um sorriso raivoso, me dando um pouco de medo. – Qual o seu problema?
- Qual o seu problema? Eu faço o que eu quiser com quem eu quiser.
- Eu não morri!
- A partir do momento em que me deu um fora eu passei a ter esse direito. Diga onde você passou a noite e deixe a hipocrisia ser liberada no ar. Vamos, Daniel.
- Eu não tive escolha. Você teve, e tenho certeza que transou com ele só pra se vingar do fora que eu te dei.
- Não sou mulher de me preocupar com o que os homens pensam ou sentem em relação aos meus atos. Pegue suas coisas e volte para sua querida Mary.
- Você é patética. – murmurou ele dando meia volta e sumindo pelas escadas. Senti algumas lágrimas se formarem, mas me obriguei a engolir o choro. Não era possível ele me ofender e eu chorar por isso. Coloquei minha calça jeans e me apoiei no encosto do sofá. John hibernava embaixo de mim.
Cinco minutos depois Danny apareceu no hall com suas coisas. Andei lentamente até a porta e a abri.
- Espero que queime no inferno. – falei antes de fechar em sua cara. Posso até ter pegado pesado, mas aquilo aliviou e muito minha raiva.
Deixei John dormindo no sofá na mesma posição, era melhor não envolvê-lo na nova briga que acabara de acontecer. Cheguei em casa e entrei sem pensar duas vezes embaixo do chuveiro, eu precisava renovar minhas forças para enfrentar os problemas da minha vida que pareciam não desaparecer nunca. E quando desapareciam, algumas horas depois outros piores apareciam.
Alice não estava em casa, o que foi bom, precisava pensar um pouco antes de ser bombardeada com perguntas e sermões. Alguém poderia me explicar o que eu fiz pra merecer essa montanha-russa de desastres na minha vida? Já havia perdido a conta de quantas vezes eu tinha me entendido com Danny e no dia seguinte quase saíamos no tapa. Recomendo não se relacionar sexualmente com primos, só vai lhe dar dor de cabeça e vontade de quebrar a casa inteira. E um prazer indescritível. Mas, como ele mesmo disse, eu era patética, então acho que paramos por aqui. Ninguém me ofende dessa forma, muito menos um caipira idiota que pensa que tem algum valor na minha vida. Primeiro, me dispensa brutalmente do nada e depois age como se eu fosse a culpada.
Quem você pensa que é, Daniel? Cutucou a fera, é melhor começar a correr.
Estava segurando a colher com tanta força enquanto mexia a panela de arroz que ela chegou a entortar. Eu nem sabia que tinha força suficiente para entortar uma colher daquele tamanho. Acontece que quando estamos falando de Daniel Jones tudo no meu corpo aumenta.
Não consegui terminar de fazer o almoço e Alice adentrou ofegante a casa com roupas esportivas. Provavelmente tinha saído para correr.
- ! – exclamou ela entrando na cozinha e sentando no balcão. Abriu um sorriso malicioso depois de lembrar onde eu estava. – Então a noite foi boa?
Me virei com a cara mais fechada e vingativa possível, e ela parou de sorrir.
- O que aconteceu dessa vez?
- Mary aconteceu. Danny terminou comigo. – murmurei entre dentes, desligando o fogo.
- Mary está em Londres? Ele terminou com você pra ficar com ela?
- Mais ou menos isso. – respondi de costas.
- E onde passou a noite?
Me virei com uma cara de quem fez coisa muito errada.
- Na casa do John. Danny se mudou para um apartamento com Mary.
- Você e John...
- É.
- Wow.
- Eu estava devastada e ele começou a me consolar, foi muito estranho e... bom.
- Pelo menos alguma coisa boa aconteceu. Os meninos não passaram a noite em casa, não é? Estava correndo no Hyde Park e encontrei o Kennedy atirado no banco de uma praça. Disse que estava pensando na vida. Ele é completamente pirado mas é muito fofo.
Abri um sorriso ao ouvir a última frase.
- Conversaram?
- Sim, ficamos umas boas duas horas jogando conversa ao vento. Ele é realmente um amor. Achei que era apenas mais um chapado. Mas e aí? John é bom?
- Alice!
Ela começou a rir.
- O quê? Qual o problema em saber!
- Ele é muito bom.
- Melhor que o Danny?
A olhei sem paciência. Sabia que ela iria comparar John com Danny.
- São diferentes. Cada um tem um jeito, não tem como escolher. Vai ver isso quando começar a dar pra todo mundo. Porque eu sei que quando começar a atividade, ninguém vai te segurar.
- Que horror! Eu sou muito conservadora. Ah, não esqueça que amanhã de noite você tem um desfile na universidade pra ir.
- O QUÊ? Mas amanhã é domingo!
- É, bem vinda a vida de universitário.
- Preciso de acompanhante! Será que o vai comigo?
- Leve o John.
- Está maluca? Chega de confusão. Chega de Danny e John por enquanto, os dois só complicam a minha vida.
- É, e te dão o maior prazer também.
Semicerrei os olhos enquanto dava uma última mexida no arroz nojento que eu estava fazendo. Alice se aproximou da panela e encarou com repulsa o alimento que eu estava preparando.
- Deus, já sei por que ele te largou. Espera só o John ver isso.
Não pude responder a altura porque meu celular berrou em cima do balcão. Larguei, para o bem e a saúde de todos, a nhaca branca e atendi.
- Sim? – falei receosa para o número desconhecido.
- ? É a Mary!
Ah, ótimo. Sério, muito bom.
- Ahn, oi Mary! – respondi olhando para Alice com nojo. Ela arregalou os olhos.
- Você está livre hoje à noite? Eu realmente gostaria de sair com você!
Não me diga.
- Eu... acho que tenho...
- Ah, você não vai se importar de cancelar seu compromisso, não é mesmo? Só vou ficar até segunda! Nos encontre no Hard Rock Café às nove horas. Beijos.
Permaneci com o celular no ouvido por alguns segundos antes de me tocar que ela já tinha desligado. Alice me olhava apreensiva.
- Onde essa sem sal conseguiu meu celular?
- Com o Danny, óbvio. O que ela queria?
- Ela quer sair comigo. Eu, ela e o Danny.
- Não! Qual o problema dela?
- Se ela pensa que eu vou aguentar aquela cara de Taylor Swift a noite toda... Preciso falar com o John.
- Vai levar ele? O Danny vai te matar!
- Se ele pode, eu também posso. E trate de ligar pro Kennedy, você vai também.
- O QUÊ?
- Alguém precisa impedir que eu faça besteiras, e esse alguém é você. Preciso de muitos aliados nessa batalha desgastante. – falei maníaca enquanto procurava John na minha lista de contatos no celular. - Algo me diz que não vai ser nada agradável esse jantar.
Capítulo 7
Alice fitava meus dedos batucando na bancada da cozinha numa velocidade inumana, enquanto eu segurava o celular no ouvido me segurando para não soltar um grito de raiva por John não atender o celular. Com certeza aquela criatura expelida pelo universo paralelo ainda estava jogada no sofá dormindo seu qüinquagésimo sétimo sono. Minhas unhas começaram a arranhar a madeira da bancada e Alice segurou meus dedos com os olhos arregalados de agonia e medo.
- Qual é, ?
Uma voz que não era a de John atendeu o celular e eu soltei o ar pesadamente. Deus empurrou alguém pra atender aquela porcaria.
- Quem é?
- É o Kenny.
- Kennedy, passa pro John.
- Eu acabei de chegar, o John está dormindo no sofá. Tem certeza que você quer que eu o acorde? Da última vez eu fiquei com um...
- Agora.
Silêncio. Alguns gemidos, resmungos, xingamentos. Muitos xingamentos. Barulho de algo quebrando. Que Deus proteja o Kennedy.
- Bom dia, meu amor. - A voz embriagada e com um toque de ironia de John atendeu, seguida de alguns pigarros.
- Você poderia me fazer um favor?
- Sou seu servo.
- Me acompanhe num jantar com o Danny e a Mary hoje de noite.
- O Kennedy faz isso. – respondeu ele de imediato.
- Não, tem que ser você.
- Por quê? Fui tão bem ontem de noite? Cara, temos que repetir.
- Danny se rasga de ciúmes da gente. Preciso que faça isso. Você disse que iria me ajudar.
John suspirou profundamente do outro lado da linha. Ouvi Kennedy perguntar o que eu queria e ser ignorado.
- Tudo bem, mas eu não vou fazer nada pro Danny sentir ciúmes. Ele ainda é meu melhor amigo.
- Ele me traiu. Você precisa me ajudar, John. Não tenho mais ninguém nesse mundo.
- Traição não é algo que eu possa ter alguma moral pra discutir. Sabe como é. Eu tenho uma banda. Eu tenho tietes.
- John. – Grunhi com raiva. Eu precisava fazer melhor do que aquilo. – Você é um covarde. Acha que não vai ser homem suficiente para provocar ciúmes no Danny, né? Tudo bem, coloca o Kennedy na linha.
- O QUÊ? RETIRE O QUE DISSE! TE PEGO AS OITO.
Hehe.
- Leve o Kennedy de qualquer forma.
- Eu posso fazer sozinho!
- Não é isso. Alice também vai.
- Ah, tudo bem. Pense bem no que vai me forçar a fazer.
- Nada que você já não tenha feito.
Desliguei o celular antes que John pudesse retrucar mais uma vez. Alice ficou encarando meu rosto por uns bons dez segundos antes de começar a cacarejar que eu estava ficando louca e que aquilo não iria levar a nada. E blábláblá.
As pessoas realmente não sabem do que eu sou capaz.
Eu estava na dúvida entre o visual “prostituta só para quem me merece” ou “você pode olhar mas não pode me tocar”. Fiz uma mistura dos dois e sinceramente tenho que me dar os parabéns, se Danny não tirasse a camisa no momento em que colocasse os olhos em mim não sei mais nada dessa vida.
Você sabe que consegue seduzir um homem até calçando um all star, então, como eu era muito auto-confiante, a primeira peça definida do meu visual pra guerra era essa.
Mulheres poderosas não precisam usar salto alto, até de pés descalços eu iria conseguir o que eu queria.
Desculpem, só estou preparando minha mente.
Enfim, nesses insignificantes anos de vida amordaçada pude fazer uma análise valiosa: caras vão achar muito mais fofo meninas de all star do que meninas de salto alto.
Espero que aquele caipira seja igual, porque se não eu metralho todo mundo naquele bar.
Ah vida, você é cheia de desafios.
Tirei um dos milhões de tops que eu tinha no armário e coloquei, junto com uma skinny jeans escura. Eu amava tops. Fazia coleção, tinha uma pilha deles floridos. Eles aumentam os peitos, sem querer ser muito detalhista.
Estava terminando de me maquiar quando ouvi alguém sentando na minha cama. Olhei para Alice esperando alguma recomendação materna, mas nada fez ela se mexer. Desci meus olhos e analisei sua roupa nada inocente.
- Não vou nem perguntar. – falamos juntas, gerando mais alguns segundos de estranhamento.
- Foda-se. – murmurei voltando a passar o delineador.
- Quando eu me visto feito uma virgem tentando transar você coloca um TÊNIS? Que porra é essa?
- Não estou afim de explicar minhas teorias de conquista. A teoria é cheia de detalhes complexos e Danny é caipira, ele não vai perceber.
- Você está com os pés doendo.
- Não, só acho que pra conquistar um homem eu não preciso usar salto alto. Vou ser eu mesma e ele vai perceber a merda que está fazendo.
- Você não precisa conquistar ninguém, sua idiota. O cara te ama. E provavelmente John está no caminho.
- John? – perguntei, soltando uma gargalhada longa e irritante. – Alice, John só está comigo pra garantir uma transa e porque isso tem a ver com o Danny. Ele não dá a mínima pros meus sentimentos.
Depois de falar isso, pensei um pouco. Ele já tinha me ajudado duas vezes depois de ser decepcionada pelo Danny.
- Talvez ele se importe com o que eu sinto, mas sabemos que é tudo imagem.
- Você vai ter que agradecer muito bem o John depois de tudo o que ele está fazendo pra você.
- Como se fosse um sacrifício fazer sexo.
- Podemos por favor não falar de sexo enquanto eu for virgem? É desagradável.
- Não se preocupe, dou menos de um mês pro Kennedy resolver isso daí. Que horas são?
Alice não teve tempo de responder nenhuma das duas frases, meu celular berrou em cima do aparador, vibrando até cair no chão. Soltei um palavrão e me estiquei, tentando alcançar sem sair da cadeira.
- Estão prontas?
Foi o que ouvi quando atendi, depois de muito esforço na missão de alcançar o celular.
- Eu ainda tenho que fazer cachos no meu cabelo, me dê uma meia hora.
- CACHOS? Seu cabelo já é cacheado! Pra quê essa porra?
- Meu cabelo não é cacheado. Só nas pontas, o que é bem diferente de ter ele totalmente cacheado.
- , sério. Eu não tenho a menor dúvida de que você vai ficar linda sem cachos, pode ir até, sei lá, careca. Não vai fazer diferença. Estamos entrando na sua rua.
Meu sorriso se desfez e olhei espantada para Alice.
- JOHN? Merda! Ele desligou.
- O que ele disse pra você fazer essa cara de apaixonada?
- Nada, besteira pra me fazer andar rápido. Eles estão aqui.
- Como assim aqui?
- O QUE EU FAÇO COM O MEU CABELO?
A campainha tocou e eu comecei a fingir chorar enquanto Alice rolava os olhos e saía do quarto. Fiz um coque meio solto e encarei meu rosto no espelho na minha frente. Não, eu parecia uma empregada vingativa. Desisti do cabelo e voltei a passar o rímel, quando uma gritaria invadiu meu quarto.
- ... você sabe que eu faço! – disse John rindo para Kennedy. Todos pararam e me encararam. Olhei para John e deixei o rímel cair no chão, manchando o carpete branco.
- ! – gritou Alice em desespero, abrindo caminho entre os dois e se jogando no chão. Eu teria rido, se não estivesse com os olhos fixos em John.
- Oi. – murmurou ele meio envergonhado pela primeira vez desde que eu o conheci. Meu coração estava a mil, minha garganta estava seca, eu não conseguia falar. Desde quando ele era tão lindo daquele jeito?
- O que fez? – murmurei, sentindo o olhar de Kennedy e Alice em cima da gente.
- O que quer dizer?
Levantei meio errada da cadeira e o olhei de cima a baixo, demorando mais do que o normal porque ele era alto. Fora do normal.
- Você está lindo.
Kennedy começou a rir, mas John continuava me encarando nervoso.
- Ah, isso. Quando me escalam pra fazer alguma coisa, eu faço pra valer. – disse ele abandonando o nervosismo e voltando a ser o convencido de sempre.
- Que bom. – murmurei voltando a me olhar no espelho.
- Estou brincando. Obrigado, eu cortei o cabelo eu mesmo. Sério que deu certo?
Ele parou do meu lado no espelho e começou a mexer sem compromisso.
- Não é só o cabelo. Você está todo lindo.
John me olhou com uma cara forçando emoção e me deu um beijo no rosto.
- Por acaso você levou mesmo a sério aquilo de não ser macho o bastante pra causar ciúmes no Danny?
- Eu? Claro que não. – respondeu ele sentando na minha cama. É óbvio que ele tinha. – Só acho que você me merece arrumado, porque eu só me arrumo pra poucas garotas.
- Awn, John. Você vai me fazer largar o Danny de mão e me apaixonar de verdade por você. – falei o olhando com ternura.
- Quisera eu. – murmurou ele e eu ri. – Qual era o drama? O cabelo?
Eu ia responder mas percebi o quarto vazio. Kennedy e Alice tinham saído.
- Estamos sozinhos.
John olhou pro corredor e deu uma risadinha evaporando segundas intenções.
- Finalmente. Vem aqui.
O encarei séria.
- Pra quê?
Ele começou a rir muito, chegando a deitar na cama.
- Posso fingir que somos namorados de verdade? Quer dizer, se você permitir.
- Bom, é o objetivo. Mas na frente dos outros. Sozinhos podemos ser nós mesmos.
- Estou sendo eu mesmo. Você acha que transei com você pros outros?
Ele estava sério. John sério. Não estava sendo irônico. Sorri e sentei do seu lado na cama.
- Eu sei, obrigada por me ajudar. – falei, ajeitando seu novo cabelo. Ele segurou minha mão e entrelaçou nossos dedos.
- Saiba que eu gosto de você, acima desse futuro teatro que estamos prestes a fazer.
- Também gosto de você, de verdade.
Ele sorriu e grudou seus lábios nos meus. Eu já não estava entendendo mais nada na minha vida. Senti meu cabelo ser solto e ele me olhou, parando de me beijar.
- Está perfeito assim. Você está linda. Danny vai gostar.
Mordi o lábio meio envergonhada por ele mencionar Danny com tanta compaixão, dava pra sentir que ele ainda considerava aquele caipira, e muito. Levantei da cama e peguei em cima do aparador uma tiara mais elaborada, colocando.
- Pronto?
- Só se você estiver.
Coloquei minha jaqueta de couro e saímos do quarto.
- Ninguém me avisou que estávamos indo pra uma festa.
Foi a frase que definiu nossas expressões quando paramos na frente do Hard Rock.
- Er, esqueci de avisar pra vocês esse detalhe. Nos sábados isso daqui vira um inferno. – disse John engolindo em seco.
Eu achei que era um jantar.
- Não deixa de ser um jantar. – falou Kennedy lendo meus pensamentos quando entramos no estabelecimento não tão cheio quanto o esperado. Havia, sim, um tipo de pista improvisada no meio do restaurante, que provavelmente seria lotada mais tarde. Mas as mesas continuavam ali.
Melhor pra mim, pensei com um sorriso nos lábios. Danny ia pagar cada segundo que eu perdi praguejando por estar apaixonada por alguém que me chama de patética.
- Tudo bem, você sabe o que fazer, né? – perguntei estalando os nós dos dedos de uma forma agressiva. John encarou o movimento com os olhos apertados. Alice olhava em volta, procurando provavelmente o rei e a rainha do baile de inverno. Passei meus olhos por Kennedy e ele cantarolava a música que estava tocando, alheio a qualquer interrupção.
- Como não poderia, você repetiu tudo o que eu deveria fazer trezentas e quarenta e cinco vezes vindo pra cá. Só não concordo com metade do seu plano, mas vamos lá.
- Vamos ter essa discussão de novo? – perguntei o fuzilando.
- Não. – resmungou ele entre dentes.
- Lá estão eles. – Ouvi a voz distante de Alice, dissipada pelo som alto da música. Senti a mão de John apertando a minha cintura e o olhei estranho.
- Estou fazendo o que pediu. – disse ele antes que eu pudesse lhe dar um tapa ou algo do tipo. Caminhamos até a mesa onde os dois estavam, estilo sofá, John resmungando que nunca mais faria isso de novo. Danny e Mary estavam em silêncio, sem se encarar, provavelmente sem respirar também. Danny deu um gole na sua bebida e levantou os olhos, engasgando à nossa aproximação. Mary o olhou e ele levantou, sem motivo aparente. Foi a situação mais estranha do mundo. Mary nos olhou e sorriu, nenhum sinal de falsidade. Droga. Ela era boa.
- ! Trouxe... seus amigos. – disse ela, encarando Alice que sorriu como se tivesse acabado de devorar um hambúrguer e estava mais do que satisfeita. Cara, eu amo essa garota.
- É, mas você já conhece o John e o Kennedy. A Alice mora comigo.
Mary sorriu para todos e olhou para Danny, que me encarava sério. Sorri o mais cínica possível e ele colocou os olhos em John, como pedindo uma explicação. John olhou pros lados numa péssima tentativa de fingir que não era com ele e pigarreou, me abraçando pela cintura. Senti Kennedy se encolhendo de rir atrás da gente.
- Vocês estão juntos? – perguntou ela empolgada, arregalando os olhos. John murmurou qualquer afirmação e ela bateu palminhas. Olhei de canto do olho para Alice. – Isso é ótimo, parabéns! Você combinam.
- Obrigada. – respondi me soltando de John. Alice e Kennedy responderam ao sinal de Mary para sentarem na mesa. Alice sentou ao lado de Danny, Kennedy ao lado de Alice. Sentei ao lado de Kennedy e John se atirou do meu lado. A mesa era redonda, então meio que todos ficavam um de frente para os outros. Isso seria bem interessante. O garçom trouxe mais pratos, colocando na nossa frente. Danny fuzilava John, eu sabia que ele estava mais irritado com o amigo do que comigo.
- Por que não me contou que estava namorando minha prima, John Cornelius O’Callaghan V?
Segurei muito profundamente minha risada, não sei se era pela cara de Danny ou pelo nome de John.
John começou a gaguejar e eu o chutei embaixo da mesa. Ele ficou imóvel por alguns segundos e depois respondeu.
- Bom, esperei esse momento pra te contar. É importante, eu valorizo a , tinha que ser num evento mais elaborado.
A mesa inteira ficou num silêncio constrangedor, e eu fiquei com muita vontade de parabenizar John pela resposta. Constrangida era o que eu não estava no momento.
- Ah, sério? Engraçado, eu nem sabia que vocês estavam ficando ou algo do tipo.
- Você pode falar comigo, John não namora sozinho. – falei e Danny engoliu em seco, levantando as sobrancelhas.
- Vindo de você, eu já deveria saber. – murmurou ele e Mary o olhou espantada.
- Isso é jeito de falar com ela? Não acredito que vocês continuam com essa besteira de se odiarem!
Danny olhou significativo para Mary e ela fingiu não perceber. Tinha alguma coisa acontecendo entre os dois e eu não estava sabendo?
- Não sei, sinceramente, como você consegue odiar alguém tão doce e linda como a . – disse John me envolvendo pela cintura e eu fechei os olhos, não acreditando que ele tinha soltado aquilo.
- Você poderia não se meter? Não sabe nem da metade. – falou Danny e eu o olhei com raiva.
- Vamos pedir! Estou, tipo, morrendo. Não como faz uns cinco dias. – disse Kennedy abrindo um dos cardápios que estavam empilhados no centro da mesa.
- Eu gostaria que vocês dois não brigassem, te convidei pra nos divertimos, ! Danny, quer ser um pouco humano?
- Desculpe. – murmurou ele pegando um dos cardápios. John pegou um e abriu, escondendo o rosto atrás dele. Peguei o meu e fiz o mesmo, o olhando espantada. Ele sussurrou um “que porra foi essa?” e eu disse “continua, tá ótimo”. Ele continuou sussurrando, a música estava alta mas pude ler nos seus lábios “ele está me odiando!”. Rolei os olhos e disse “esse é o objetivo”. John tirou o cardápio do rosto e colocou dois segundos depois. “Estão nos encarando.” Sorri maliciosa e puxei John pelo colarinho, começando a beijá-lo. Entreguei desajeitada o cardápio para Kennedy, revelando nossas travessuras atrás do esconderijo.
Quantos anos eu tinha, doze?
Senti a mão de John na minha cintura descoberta, apertando e me fazendo pular. Sorri de orgulho do meu subordinado durante o beijo.
- Vocês podem optar por uma bebida por enquanto.
Soltei John e encarei a garçonete que já deveria estar ali por um bom tempo.
- Podemos optar por não sermos ridículos e idiotas? – perguntou Danny e a garçonete o olhou sem entender.
- É, pode ser. Já que ninguém se pronuncia, pode trazer pra todo mundo o cocktail da noite? Vocês têm isso, né?
Mary fingindo não perceber a raiva de Danny me fazia imaginar os dois casados. Ia ser assim.
- Temos, já trago.
Encarei Danny com os olhos semicerrados e ele devolveu, completamente sério, de uma forma que eu nunca tinha visto antes. Sem aviso prévio, ele colocou o braço em volta dos ombros de Mary, que o encarou sem entender. Depois sorriu convencida.
Senti meus dedos agarrarem a faca que estava na minha frente e começar a pressioná-la na mesa de madeira. Danny observou o movimento e levantou uma sobrancelha, me desafiando. Você sabe que eu posso te matar se eu quiser, não é? Não ia sentir remorso nenhum. Iria ser até um alívio.
Mary começou a se aproximar do rosto de Danny e começou a beijá-lo delicadamente no rosto. A faca enterrou na mesa. John puxou a faca das minhas mãos e a colocou num lugar inalcançável. Alice me encarava enquanto esmagava um dos dedos de Kennedy embaixo da mesa. Kennedy era o mais perdido. Ele provavelmente só sabia da situação por cima, porque não estava muito preocupado com nada.
Danny virou o rosto depois de me lançar um olhar perverso e juntou seus lábios com os de Mary. Aquilo era extremamente patético, eu sabia que ele não estava nem um pouco afim de fazer aquilo. Diferente de mim, eu gosto do John.
- Você trouxe? – perguntou John de repente olhando por cima de mim para Kennedy, que concordou. Do que eles estavam falando? – Que bom, vou precisar.
Desviei meus olhos da pouca vergonha na minha frente e dei uma olhada no ambiente. O lugar já estava bem cheio, inclusive a pista de dança. As bebidas chegaram e eu avancei sem piedade no meu copo, bebendo tudo em três goles. Tudo girou por dez segundos e eu senti um enorme prazer pós tontura. O que eles colocavam naquilo, meu Deus?
Começou a tocar Club Can’t Handle Me, eu estava muito enjoada dessa música, mas sorri, não sei porque. Olhei para John, ignorando um Danny na minha frente tentando fingir que estava muito afim de beijar a Mary.
- O quê? – murmurou John com receio.
- Vamos dançar. – falei com uma expressão de orgasmo.
- Não vamos nem comer? – perguntou ele e eu rolei os olhos, passando por cima de seu colo e o puxando pra fora da mesa.
- Não temos tempo pra comer.
O arrastei por entre as pessoas até um lugar visível da parte de Danny e comecei a me mexer da forma mais sexy que consegui. Não era muito difícil, se é que me entendem, meninas. Somos mulheres, por favor. John me abraçou por trás e começamos a dançar juntos. Dou cinco minutos para Danny sair daquela mesa.
Não precisou nem um.
No meio daquela turbulência de luzes consegui ver o abominável se aproximando com a Taylor Swift e comecei a rir sozinha. O que ele ia fazer? Começar a dançar em cima de mim?
Nunca mais vou cogitar essa hipótese.
Já estava separada de John e senti um esbarrão nas costas, me lançando alguns centímetros pro lado. Danny me olhava com uma irônica cara de desculpas e meu sangue começou a borbulhar. Puxei John com tudo pelo pescoço e engatei um beijo selvagem, com direito a sangue se facilitar. Coloquei minhas mãos embaixo de sua camisa com o único objetivo de excitá-lo mais do que ele já estava, e senti um de seus dedos brincando com o fecho de trás da minha blusa. Não, aqui não, O’Callaghan. Ficar pelada já era demais.
Puxei John na direção de Danny e dei com as costas nas dele com toda a minha força humana. Aquilo era muito idiota mas eu não ia ficar parada. Você também não ficaria.
- Você quer que eu soque ele? Vai ser mais rápido e prático, e essa palhaçada vai terminar. – John sussurrou no meu ouvido depois de dez minutos de agarração.
- Não ouse. – Sibilei sem tirar os olhos de Danny que estava de costas. Me virei novamente para encarar John e pensar em um novo plano quando senti alguém passar a mão na minha bunda. Olhei para as mãos de John, que estavam atrás de seu corpo. Espremi meus olhos de raiva e me virei para Danny, agora ele estava mudando a tática? Ele me olhou com uma cara de superior e, como ele estava bem perto, não precisei me aproximar muito para lhe dar um tapa na cara. John segurou meu braço e Danny colocou a mão no rosto, abismado.
- QUE PORRA É ESSA? – gritou ele soltando a mão de Mary do seu braço e vindo na minha direção. Ah, ele ia me bater?
Quase. Ele me empurrou e eu bati meu corpo contra o de John, que me passou pra trás e foi pra cima de Danny. Ops.
Puxei John pela camisa para longe de Danny, que encarava o amigo desafiadoramente.
- Pare de passar a mão em mim! – berrei a centímetros de seu rosto, segurando minhas mãos. Eu estava com muita raiva.
- Eu não estou nem aí pra você! Pare de inventar motivos pra falar comigo!
- EU TENHO MOTIVOS DE SOBRA PRA FALAR COM VOCÊ, SE NÃO SABE.
- Ah, é? Eu não tenho nenhum. Agora me deixe em paz.
- Você continua o mesmo covarde. – murmurei mais para mim mesma mas ele ficou imóvel, de costas. Senti a mão de John no meu ombro, o que não adiantou em muita coisa. Danny em menos de um segundo pegou meu pulso com força e começou a me arrastar pra fora da pista. Que porra ele estava fazendo?
Tentei cravar meus pés no chão mas ele continuou me puxando, minha força nem se comparava com a dele. Meu pulso estava latejando. Quando vi estávamos na frente do banheiro feminino. Ele chutou a porta e me puxou pra dentro, trancando logo em seguida. Verificou se não tinha ninguém nas cabines, chutando as portas feito o que ele era mesmo, um selvagem. Eu estava imóvel encostada na pia, esperando ele começar o ataque.
- O QUE VOCÊ QUER? – gritei sem paciência quando ele chutou o lixo. Se ele estava achando que ia me meter medo chutando as coisas, estava bem enganado. Não custava muito pra eu chutar a cara dele e parar com aquela idiotice.
- PARE DE SE FAZER DE RIDÍCULA! O QUE JOHN ESTÁ FAZENDO AQUI?
- Bom, ele é meu namorado. Aceite.
- Cale a boca, . Ele está fazendo um favor pra você.
Minha boca se abriu sem saber o que dizer. Eu não estava acreditando que ele tinha dito aquilo. Involuntariamente lhe dei um soco no rosto, logo depois uma joelhada no meio das pernas. Ele se ajoelhou no chão, gemendo de dor.
- Pense duas vezes antes de falar merdas típicas de quem não sabe uma porra da vida. Bem vindo à cidade grande, Daniel.
Ele levantou o rosto, o nariz pingando de sangue. Eu não sabia que era capaz de fazer aquilo com um homem forte. Parabéns, . Nível dois: lutadores profissionais.
- Qual o seu problema?
- Quer perder o pênis? Porque ele não serve pra muita coisa.
- Não serve. – debochou ele, soltando uma risada assustadora. – Você gemendo em cima de mim mostra realmente como meu pênis não serve pra muita coisa.
- Porco estúpido. Não sei como alguém pode gostar de você.
- Você é apaixonada por esse porco estúpido. Eu posso sentir sua vontade de tirar a roupa nesse exato momento.
- O que aconteceu com você? Virou um monstro!
- Não, é que você não conhecia esse lado.
- Esse lado que surge quando você está pateticamente enciumado? Você não faz ideia de como John é melhor. Em tudo.
- Então porque está aqui? Se não sentisse mais nada por mim não estaria tentando me fazer ciúmes com meu melhor amigo. Estaria fodendo com ele.
- POR QUE VOCÊ TERMINOU COMIGO?
- PORQUE EU VOU TER UM FILHO COM OUTRA PESSOA! QUE MERDA!
Meus olhos começaram a marejar e eu dei alguns passos desajeitados até a porta.
- Espere. Me desculpe.
Destranquei a porta e a abri.
- . Me desculpe, não sei o que me deu!
Fui puxada pra fora do banheiro e a porta se fechou. John me agarrava pelo ombro me encarando nervoso.
- O que ele fez? Droga, eu deveria prever essa situação. Danny se descontrola muito fácil.
- Não fez nada. Eu que fiz. Não deveria ter vindo aqui com você. O que é isso?
Ele olhou para a mão, que segurava um cigarro.
- Nada.
Inspirei a fumaça e respondi minhas dúvidas. Onde ele conseguia aquelas coisas? Puxei o baseado da mão dele e dei uma tragada toda errada.
- ! Pare com isso! Essas coisas não são pra você!
- Porque todo mundo acha que sabe da minha vida? – murmurei continuando a tragar, desviando de John que tentava sem sucesso me alcançar.
Danny saiu do banheiro, já não estava mais sangrando e parecia ter lavado o rosto. Encarou nossa cena sem entender. Traguei o baseado sem tirar os olhos dele, que arregalou os próprios. Mancou até a gente e tirou o cigarro das minhas mãos.
- O que está fazendo? Não vou deixar você usar as merdas do John!
- Vá se foder, quem você pensa que é?
- Ainda sou seu primo.
Ele jogou o baseado no chão e pisou, o apagando. Olhou para o amigo com uma expressão de incredulidade.
- Eu a deixo com você e é isso que faz?
- O quê? – perguntei com a voz esganiçada.
- Ela arrancou o bagulho de mim. Você nem estava aqui!
- Puta merda, John. Pensei que tinha um pingo de responsabilidade. Desde quando você fuma maconha? – Ele me olhou por último.
- Desde quando eu devo explicações pra alguém que me trata do jeito que você me tratou há minutos?
- O que você fez? – perguntou John todo enrolado.
- Não se meta.
- Tem alguma coisa muito estranha em você e no seu relacionamento sem sentido com essa Mary. Você está diferente. – falei o olhando estranho.
- Não, você não entende.
- É, eu não entendo. – concordei, puxando John pela mão e deixando Danny sozinho beirando o abandono.
Capítulo 8
O ser humano ainda tem que ser estudado muito a fundo para se compreender tudo o que acontece num cérebro apaixonado e rejeitado. Fica a dica para os psiquiatras, psicólogos, psicotudo. A raiva, a vergonha, a humilhação e o arrependimento eram apenas parte do que eu estava sentindo, porque a porcentagem maior era de tristeza. Eu não queria aquilo pra mim, ficar vivendo em função de um cara que provavelmente não dava mais a mínima pra mim porque ia ter um filho com outra. Eu precisava parar. Parar de tentar.
Respirei o ar gelado profundamente, sentindo minha garganta doer pelo frio que estava fazendo. Uma lágrima escorreu pelo meu rosto e eu limpei rapidamente, com vergonha de que alguém me visse chorando por um canalha. Sem aviso prévio, uma garrafa de cerveja surgiu na minha frente. John sentou ao meu lado, no meio fio da calçada em frente ao estabelecimento e deu um grande gole na sua.
- Eu sinto muito por não ter dado certo. – murmurou ele tragando com emoção o baseado nas suas mãos. Encarei o movimento imaginando meu rosto inchado e horrível, achando desumano que alguém precisasse me ver naquele estado.
- Me responda uma coisa. – falei, minha voz saindo totalmente falha, enquanto eu abria a garrafa.
- Fale.
- Você está fazendo um favor pra mim? É assim que vê as coisas?
Sim, era verdade, tudo o que Danny tinha me falado no banheiro horas atrás estava martelando na minha cabeça. Eu estava realmente chateada com tudo.
- Claro que não, já disse que gosto de você. Assim como gosto dele, é difícil explicar, mas tenho certeza que se não fosse eu aqui as coisas seriam bem piores. Danny poderia estar no hospital ou sei lá.
- O que quer dizer?
- Quero dizer que você iria arranjar um cara qualquer pra fazer ciúmes pra ele, e ele ia se sentir muito pior do que deve estar se sentindo por causa da gente. E eu acho que nessas horas você precisa de alguém que se importe com o que está acontecendo, não qualquer um.
Eu estava mais confusa do que antes.
- Você quer dizer que está fazendo isso porque gosta da gente?
- É por aí. Sabe , com os homens o negócio é diferente. A gente não sente essa raiva que as mulheres sentem entre si quando uma está com o cara da outra. Parece estranho, mais é mais deprimente que isso.
- Danny não vai concordar com isso, ele está morrendo de raiva mesmo.
- Ele está arrasado, e vai continuar assim até eu conversar com ele e explicar o que está acontecendo.
- Você não vai fazer isso!
- Não acha melhor eu entender o ponto de vista dele e te falar depois?
- Ele já sabe de tudo, eu é que não sei de nada. Ele está muito estranho com aquela Mary.
- Se eu conversar com ele, tenho certeza que ele vai me falar a verdade. Somos amigos há muito tempo, ele sabe que não consegue mentir pra mim. Da mesma forma que sua amiga Alice sabe todos os detalhes da história de vocês, eu também sei.
- Não quero que fale com ele, estou cansada do Danny.
- Não, você está cansada de fugir da realidade.
Alguém abriu a porta do bar e a música entorpecente se adornou da calçada por alguns segundos. Uma garota discutia com um cara. Apoiei minha testa em uma das minhas mãos e massageei os cantos dos meus olhos, odiava o fato de John saber tudo o que eu sentia em menos de um mês. Por acaso músicos têm algum tipo de poder que pessoas normais não tem?
Bebi um grande gole da garrafa, não ia fazer diferença nenhuma ficar bêbada, o negócio estava tão complicado que nem cachaça ia me fazer esquecer. Mas ia me deixar um pouco relaxada.
- Não acha que vale a pena lutar por um amor? Pelo amor?
- Quando é recíproco. O problema é que ele parece estar mais preocupado com esse filho do que comigo.
- É normal e esperado. É uma criança, . Um ser humano. Você não é a única na vida dele, o cara deve estar enlouquecendo.
- Vai defender muito ele?
- Estou defendendo o amor de vocês dois... que é maior do que tudo isso. Toda essa besteira de fazer ciúmes, isso não vai mudar nada.
- Então o que você quer que eu faça, John? Espere ele pra sempre? Quer dizer, nem o pra sempre vai ser suficiente já que ele vai casar com a Mary e ter a própria família. O negócio é esperar a próxima encarnação porque essa daqui tá difícil.
- Está tudo escrito, tenha paciência. – disse ele fungando profundamente e tragando o baseado, olhando em direção ao céu estrelado.
- Conversar com você é tipo ouvir uma música.
- E isso é bom?
- É impressionante.
A porta se abriu novamente e Alice e Kennedy foram expelidos do lado de dentro feito dois bêbados no final da carreira. Na verdade a parte do bêbados era verdade, somando com os baseados nas mãos dos dois. Arregalei os olhos, achando que Alice era mais ingênua. Levantamos do meio fio e cada um segurou seu respectivo amigo, Alice não parava de rir enquanto eu tentava agarrar seus braços e fazê-la parar de se mexer.
- Você não fica assim quando bebe e fuma. – conclui, encarando John assustada.
- Eu sou veterano nessa área, já o Kennedy além de virar um panaca leva os outros junto. Vamos embora.
- Hm, você sabe se o Danny foi embora? – hesitei antes de perguntar, já arrastando Alice pela calçada atrás de John e Kennedy. Ele me olhou sério.
- Não sei.
- Danny está caidiiiinho por você. É só tirar a roupa – disse Alice de olhos fechados e eu suspirei.
- Assim como você está por mim, quer dizer. – riu Kennedy e John o olhou estranho.
- O quê? Vocês estão de casinho, é isso?
- Está bravo, papai? Ops, esqueci de pedir a mão da moça.
Alice gargalhou, fazendo minha cabeça latejar de dor.
° ° °
Por mais que o quarto estivesse silencioso, meus ouvidos estavam sob um apito constante, me impedindo de pegar no sono pelo resto da noite. Levantei da cama o mais silenciosamente que pude, tentando evitar qualquer movimento que acordasse Mary ao meu lado. Eu estava me sentindo sujo, e essa sujeira era interna e externamente. Saí do quarto, antes pegando uma roupa qualquer no armário, e entrei no banheiro do outro lado do corredor. Meus olhos mal se abriam.
Entrei embaixo da água gelada, esperando que a temperatura me acordasse e me ajudasse a pensar se o que eu estava fazendo fazia algum sentido. Fingir que não me importava com a porque Mary estava me chantageando. Se eu não o fizesse, provavelmente toda a nossa família morreria, se desintegraria e me condenaria eternamente. E não sairia ilesa também. Era melhor mesmo seguir em frente com isso? Eu precisava conversar com alguém, não estava mais agüentando passar por aquilo tudo sozinho.
Coloquei o pé fora do banheiro e meu celular gritou, em cima da mesa da sala. Me xinguei mentalmente, tudo o que eu menos queria era acordar Mary. Pelo menos ela voltaria pra Bolton hoje e eu estava parcialmente livre da confusão.
Abri o celular e esperei a pessoa se manifestar do outro lado da linha.
- Danny?
A voz de John me surpreendeu e eu andei até a janela do apartamento, completamente tenso.
- John?
- Hun, você não quer tomar um café? Eu preciso conversar com você.
- Por quê?
- Acho que sabe a resposta.
- Não sei se precisamos conversar.
- É sério, Daniel, na boa. Sei que precisa conversar comigo.
- E você eliminou o que fez comigo ontem de noite, é isso?
- A noite de ontem é um dos motivos.
Suspirei, fechando os olhos.
- Tudo bem.
- Me encontre na Starbucks de Notting Hill.
Olhei o relógio na parede da sala, marcava nove da manhã.
- Vou demorar pra chegar.
- Não tem problema.
John desligou e eu fechei o celular, pegando meu casaco em cima do sofá, minha carteira na bancada da cozinha e saindo com muito receio do apartamento.
Praticamente uma hora depois, cheguei ao destino imposto por John, ele não poderia ter escolhido lugar mais complicado. Empurrei a porta pesada do café e olhei em volta, procurando uma girafa. Meus olhos caíram sobre um John no canto mais obscuro do lugar, de óculos escuros e um sobretudo preto. Parecia um espião. Segurei a risada, eu sentia falta daquele desgraçado. Andei meio tenso até sua mesa, que ficava ao lado da janela.
- Desculpe a demora. – murmurei, me sentando em sua frente.
- Sem problemas – disse ele dando um gole no copo de café. – Como está?
- Levando. O que está fazendo aqui? É meio longe da sua casa. E da minha também.
- Eu estava vendo uma loja de CD’s, mas isso não vem ao caso. Eu queria explicar meu lado do rolo todo, pra você entender o porquê de eu não ser um filho da puta.
Uma atendente nos interrompeu, me perguntando se eu queria alguma coisa. Pedi um mocaccino e ela se afastou.
- Ok, continue.
- Bom, por mais estranho que pareça, estou torcendo por vocês dois. Você sabe que eu quero o seu melhor.
- Namorando a garota que eu amo?
- Tem noção de como seria pior se fosse qualquer outro cara no meu lugar? Um desconhecido se envolvendo nesse assunto sério e delicado?
Fiquei em silêncio.
- Danny, eu adquiri um grande carinho pela sua prima e eu meio que estou cuidando dela nesse meio tempo, entende. Como eu te conheço, fica mais fácil conversar com ela sobre esse assunto. Ela precisa de alguém pra segurar as pontas, ela está enlouquecendo.
- Eu também, e você fica do lado dela. Muito estranho.
- Eu estou do lado de vocês dois, cara! Eu quero que tudo dê certo!
- Por que transou com ela se está torcendo pela gente? E eu tenho certeza que vocês têm os seus momentos mesmo quando não estão me fazendo ciúmes, eu te conheço, John.
- Ela estava carente e se sentindo desprezada por você, o que mais queria que eu fizesse?
- Qualquer coisa menos transar com ela! Meu Deus!
- Ela se sentiu bem mais confiante depois da nossa noite, se quer saber. Acho até que teve mais certeza que quer continuar com você mesmo, porque depois que as garotas se rendem aos meus encantos, esquecem do resto. Ela não esqueceu de você.
- Que coisa, hein? – concordei irônico, achando tudo aquilo um absurdo.
- Eu sei que eu errei, Danny, mas você também não tem toda a moral do mundo. Engravidou outra garota e está com ela... Como você acha que a está?
- Você não entende.
- É, eu te chamei aqui pra entender.
O olhei nos olhos e pela primeira vez percebi que ele estava sendo o mais verdadeiro possível, e que eu ainda tinha o meu melhor amigo na minha frente, apesar de tudo.
- Não sei se estou fazendo a coisa certa, John. – murmurei e fomos interrompidos novamente pelo meu pedido trazido pela atendente.
- O que está fazendo?
Mexi o líquido por alguns segundos, em dúvida sobre até que ponto contar a ele.
- Mary está me chantageando, disse que se eu não ficar com ela e continuar com a , vai contar tudo pra nossa família.
John me encarou impressionado por um tempo.
- Nossa.
- Pois é.
- Então você está com a Mary para proteger o que aconteceu e está acontecendo entre você e a ?
- Exato. Ela se tornou obsessiva e maníaca, me ameaçou da forma mais cruel possível.
- Se ela não tivesse feito isso você estaria com a agora?
- É claro que sim, antes da Mary chegar em Londres eu já tinha passado uma noite com a aqui. Achei que iríamos começar a namorar.
- Que loucura.
- Eu não sei mais o que fazer, John. Você precisa me ajudar.
Deitei meu tronco na mesa sentindo o desespero tomar conta ao verbalizar os acontecimentos.
- Acha que sua família vai ficar muito doida se souber a verdade?
- Está brincando? Meu pai e o pai da são as pessoas mais conservadoras da face da terra. Os caras são do interior, totalmente fechados pra esse tipo de coisa fora do comum. Iriam me mandar pra outro país ou me expulsar da família.
- Você sabe que essa mentira não vai durar pra sempre né? Só se vocês seguirem caminhos diferentes na vida e esquecerem do que aconteceu. Mas pelo seu estado isso não vai acontecer.
- Como eu vou esquecer a garota que eu amo? Ela está na minha cabeça 24 horas por dia, quando estou acordado e quando estou dormindo sonho com ela. Se ela for embora, eu não sei o que vai ser de mim. Ela já foi uma vez, não quero perder ela de novo.
- Parece que alguém lá em cima está do lado de vocês, pra te mandar aqui pra Londres atrás dela.
- Isso se chama destino.
- Isso se chama Jesus Cristo.
- Enfim, o que eu faço?
- Eu sugiro conversar com a e explicar que você não está com ela por causa da chantagem da Mary.
- Está maluco? Ela vai surtar, vai querer ir atrás da Mary e acabar com a vida da garota e do meu filho. Sem chance.
- Você quer continuar com isso?
- Eu achei que se eu fingisse que não amava mais ela, ela hipoteticamente poderia desistir de mim e encontrar outra pessoa mais digna.
- Você conseguiria?
- Claro que não, eu iria correr atrás dela até ouvir da sua boca que não me amava mais e que tinha desistido de mim. E mesmo assim não ia adiantar nada, eu não iria me recuperar completamente. Sabe o que é isso? Eu amo essa garota desde criança. Não vai mudar.
- Desculpe Danny, mas se ama tanto ela acho que deveria estar disposta a contar toda a verdade para a sua família.
- Não posso, não ainda. Você precisa me prometer que não vai contar nada dessa conversa pra ela.
- Tudo bem. Como eu posso ajudar?
- Bom, eu vou ter que continuar com o meu plano ridículo de ignorar o fato de amar ela, você precisa dizer pra ela não desistir de mim.
- Eu não preciso dizer isso, ela não vai.
- Evite que ela faça qualquer coisa resultante do meu afastamento momentâneo.
John apertou os olhos tentando entender minha frase atropelada.
- O quê?
- Não deixe ela fazer nada de errado! Ela deve estar muito chateada, mas eu não posso fazer nada.
- Não vou deixar, Danny. É por isso que estou com ela.
- Temos um trato?
- É claro, não se preocupe.
- E não fiquei beijando ela e afins. Não precisa fazer isso.
- Eu estou namorando a garota, Daniel. Se eu não fizer isso, ela vai se sentir pior ainda. Pare de ser neurótico possessivo, meus beijos não vão mudar o que ela sente por você.
- Ótimo. – murmurei emburrado, tomando um gole do mocaccino.
° ° °
- Será que eu fiquei com o Kennedy?
Estava completamente compenetrada na minha leitura sobre a história da moda no mundo, porque, pra facilitar mais ainda a minha vida, eu tinha prova segunda-feira e não tinha lembrado. Alice sentou na minha cama e ficou me encarando até eu responder. Respirei fundo, tentando acalmar meus nervos.
- Você realmente acha que eu vou saber se você beijou o Kennedy depois de tudo o que me aconteceu? Eu nem ao menos te vi direito.
- Estou com vergonha de falar com ele sem saber se nos beijamos. Imagina se demos o maior amasso? Droga, nunca mais bebo e fumo. E eu lá fumo? Por que aliás eu fumei? Sabe o que é isso? Menos dez segundos de vida, de acordo com estudos comprovados.
- Sabe o que eu descobri essa manhã? Que não vai ser um desfile coisa nenhuma hoje, vai ser uma palestra. Por que eles não se decidem?
- Então porque você achou que ia ser um desfile?
- Me falaram que era um...
- Viu, não presta atenção na aula e tem que perguntar pra quem não sabe depois.
- Isso se chama primo caipira atrapalhando a minha concentração.
- Você deve ficar imaginando cenas de sexo com o Danny durante as aulas.
A olhei imóvel por alguns segundos.
- Essa palestra não é só pro meu curso, provavelmente o também vai. Graças a Deus não preciso mendigar companhia.
- Falando no , qual é a dele? Anda sumido. Não fala mais com a gente...
- Vou descobrir hoje. Será que ele está com alguém? Ai meu Deus, será que ele é gay e está com vergonha de contar?
- Claro que não, ele gosta de você.
- Por que você insiste nesse assunto?
- Porque é verdade.
- Era verdade.
- Você nunca vai contar pra ele sobre o Danny? Ele merece saber, é nosso melhor amigo.
- Estava pensando em contar pra ele hoje...
- Faça isso, mas evite os detalhes sexuais. Isso nem eu sei.
- Pode deixar. – concordei com ironia mas ela não percebeu.
° ° °
Mary colocou sua última blusa de volta na bolsa que havia trazido consigo de Bolton, sentindo um pouco de raiva por ter de partir assim tão cedo. Longe de Londres não conseguiria ter o controle que gostaria da situação, mas ela tinha uma ajuda muito conveniente.
Pegou o celular dentro da bolsa que estava em cima da cama e discou o número que a ajudaria.
- Alô?
Uma voz doce atendeu do outro lado da linha e Mary sorriu.
- Michelle.
- Mary? Você não ia embora hoje?
- E vou, só preciso confirmar se lembra de todos os passos. Não vou estar aqui para dizer a você o que fazer.
- Eu sei o que fazer, e ele também sabe. Não se preocupe, hoje mesmo ele vai começar. No final da semana acabou tudo.
- Vai levar muito mais tempo, as coisas não se resolvem em uma semana.
- Phillip acha que não é uma boa ideia, mas se você diz...
- Quem é Phillip pra achar alguma coisa, meu Deus? Ele concordou em não se meter no assunto mais.
- Bom, você está envolvendo alguém que faz parte da família dele, ou seja, ele meio que está no meio também.
- Esqueça esse idiota, nem é bom falar dele dentro do apartamento do Danny. Quando eu voltar pra Bolton vou esclarecer algumas coisas com esse garoto.
- Calma, até parece que ele vai...
- Pare com isso, não mude o assunto. Me ligue depois que essa palestra terminar. Preciso saber como ele se saiu no primeiro dia.
- É sério, não se preocupe. O poder da sedução é de família.
- Espero que seja mesmo. Se nem você o beijando funcionou, só nos resta essa última opção.
- Desculpe, mas seu queridinho é muito apaixonado pela prima.
- Eu não te perguntei. Essa palhaçada vai terminar, escreva o que eu digo.
- Você me dá medo às vezes.
- Melhor assim, sabe o que vai acontecer se vocês falharem.
Capítulo 9
Você vai ter que aprender a conviver com isso. Minha consciência era extremamente determinada, mas meu coração era um posso de dúvidas e indecisões. O mistério está todo dentro de nós mesmos, o segredo é decifrar o que é certo e seguir em frente. Eu estava começando a acreditar que, se o erro se repetia tantas vezes, era porque não era pra ser. Aceite isso, minha mente ordenava.
Meu coração dizia o contrário.
- está na sala te esperando.
A voz de Alice me tirou das minhas conspirações internas e eu encarei meu rosto pela última vez no espelho do armário. É a vida, disse o meu reflexo com uma certeza duvidosa.
Que droga essa vida.
Peguei minha bolsa e meu sobretudo vermelho em cima da cama, prevendo uma chuva impiedosa. Foda-se, eu ia parecer a chapeuzinho vermelho.
sorriu ao me ver parar na sua frente, já no primeiro andar. Ele estava sentado de uma forma nobre no sofá. Estava até bem elegante. Sorri de volta, sentindo uma saudade repentina dele.
- Quanto tempo, hein? – disse ele antes de levantar e me abraçar. Já comentei como os abraços dele limpam a minha alma? Estou inspirada ultimamente.
- Nunca mais desapareça por mais de uma semana.
- Os estudos me matam. Prometo te dar mais atenção. Como está?
- Hm, é. Precisamos conversar sobre esse fator.
- O fator “como anda a sua vida”?
- Exatamente.
- Lá vamos nós, para as profundezas da vida obscura de uma pós-adolescente em crise.
- Não estou em crise. Pelo menos acho que não.
- Me conte no caminho.
parou o carro em uma das vagas do estacionamento da universidade, desligando o motor e assim deixando tudo no breu. Por um momento ficamos em silêncio, durante o percurso inteiro eu contei tudo o que estava acontecendo na minha vida, evitando alguns detalhes “eróticos” desnecessários e particulares demais. Ele não havia dito uma palavra, portanto eu não sabia de sua opinião em relação ao que eu sentia por Danny e vice-versa. Quer dizer, não sei mais se existe um vice-versa.
- O que vai fazer agora? – Ele quebrou o silêncio. Respondi com um suspiro meio desesperado.
- Não faço ideia.
- Eu sabia que você estava com um problema e não estava me contando.
- Danny não é um problema. E eu não te contei porque estava com medo que você me rejeitasse.
- Então você tem uma ideia bem estranha sobre mim. Eu nunca vou te deixar.
- Me desculpe, queria ter te contado antes. Você meio que sumiu.
- Você ama ele, não é? Mesmo?
Ele me olhou e eu pude distinguir apenas sua silhueta na escuridão.
- Mais do que eu queria.
Um raio atravessou o céu, fazendo tudo se iluminar por um segundo. Seguido, veio o trovão. Começava a chover.
- Ótimo. – murmurou , eu não sabia se ele estava falando da minha resposta ou da chuva.
- Foi tudo tão rápido. Como se de repente um sentimento adormecido dentro de mim acordasse depois de anos.
- Não vou mentir pra você, não gosto nada disso.
- Eu sabia que você não iria gostar. Mais um motivo para eu relutar.
- Nada é como era antes, não é? – perguntou ele, me olhando e mordendo o lábio em dúvida. – Você não sente mais o que sentia por mim.
- Como sabe que eu sentia algo por você?
- Porque eu também sentia.
Um tapa na cara doeria menos. Silêncio constrangedor. Talvez nem tanto, nossa intimidade permitia que momentos como esse não fossem tão estranhos como deveriam ser.
- Eu sinto muito. Você ainda sente alguma coisa?
- Eu amo você, . E é isso que me permite entender o seu lado. Você é muito importante pra mim, vou te apoiar em qualquer escolha. Bom, até o momento em que esse caipira idiota te decepcionar, daí eu interfiro.
- Então é melhor você interferir, porque eu não poderia estar mais decepcionada.
- Eu falo pra ele te deixar em paz, tudo bem?
- Não, . Eu quero o contrário.
Virei o rosto para a janela, já molhada pelas gotas da chuva, sentindo algumas lágrimas ameaçarem despencar.
- É isso que te aflige?
- Não sei se ele me ama mais. Isso me corrói. Ele está distante, não consigo mais entender o que ele está sentindo quando olho em seus olhos. Danny mudou.
- Bom, existe o fator Mary e gravidez. Isso não impede tanto assim o amor de vocês dois.
- Claro que impede, Danny parece estar aceitando o fato de que terá de casar e ter uma vida conjugal com ela.
- Eu não sei o que fazer, . Se ele quer seguir em frente, acho que você deveria seguir também. Eu não o conheço, não sei como ele é. Se soubesse seria mais fácil.
- Você não faria o que está dizendo.
- Eu estou fazendo.
- , eu sinto muito por não corresponder mais aos seus sentimentos, mas eu sei que a nossa amizade é maior que isso. Eu simplesmente não posso viver sem ele, então não me diga para seguir em frente.
- Você vai se matar se ele não quiser ficar com você, é isso?
- Claro que não, só não vou conseguir amar mais ninguém.
- , por favor, você é jovem. Se eu posso, você também pode. Da mesma forma que eu te amo e quero o melhor para você, você também o ama e quer que ele seja feliz. Se ele escolheu ficar com ela, não tem mais o que fazer.
- Ainda não terminou. Eu tenho vontade de me jogar de um penhasco cada vez que eu penso nele, porque ele não merece, mas é inevitável.
- Então dê um tempo, quem sabe ele também está fazendo isso.
- Estou exigindo demais de você, me desculpe. Estou amolando todo mundo com os meus problemas e nem sei dos seus. Quer conversar?
- A palestra vai começar, é melhor a gente entrar.
abriu a porta do carro, deu a volta e abriu a minha. Fez sinal para eu colocar o capuz. O mundo estava caindo, em todos os sentidos.
Até chegar ao pavilhão onde se localizava o auditório, nós já estávamos praticamente encharcados. De nada adiantou aquele sobretudo idiota, meu cabelo deveria estar uma vassoura velha. Algumas pessoas estavam paradas conversando na área coberta em frente a porta de entrada. Uma música ambiente tocava, era mesmo uma espécie de evento. Um segurança imóvel estava parado na frente da porta. Ao lado, havia um bar que eu nunca tinha notado. Alguns alunos e pessoas alheias tomavam café.
- Quer alguma coisa?
- Você vai comprar algo?
- Eu ia comprar um café pra mim.
- Então eu te acompanho.
se afastou, me deixando parada meio desconfortável no meio de tantas pessoas que eu desconhecia. Algumas eu conhecia das aulas, alguns eram até meus colegas. Poucos.
Puxei a manga do sobretudo e dei uma olhada no relógio. Ainda faltava meia hora pra começar. Quando levantei o olhar novamente, meu coração disparou. Tenho certeza que minha freqüência cardíaca, de oitenta passou para cento e cinqüenta.
Estava escuro e chovendo, mas eu reconheci Danny andando embaixo da chuva, passando reto pelo pavilhão. Ele não estava tão longe, se olhasse para minha direção com certeza me veria.
Ele olhou.
Danny estava com um moletom da universidade, usando o capuz. Estava todo molhado e andava com pressa, até colocar os olhos em mim. Tirou uma das mãos do bolso e abaixou o capuz, sua expressão estava séria.
Por um momento achei que ele iria se aproximar e falar comigo.
O que ele fez a seguir me machucou mais do que qualquer agressão física ou qualquer palavra. Ele virou o rosto e continuou andando, como se eu não estivesse ali.
Não consegui acreditar. Meus olhos se encheram de lágrimas e eu segurei um grito de raiva na minha garganta. Estava cansada de chorar por ele. Era todo dia, toda hora. Não queria que me visse chorando, ele iria ficar chateado.
Tirei meu convite do bolso e entreguei ao segurança. Ele arrancou a parte destacável e me entregou a que sobrou. Entrei apressada, desviando de algumas pessoas na entrada. O auditório era uma espécie de teatro antiquado e muito grande. Continuei andando sem rumo, limpando algumas lágrimas.
Uma dor lancinante se apossou do meu ombro ao esbarrar em alguém, mais alto que eu.
- Me desculpe. – murmurei sem olhar para a pessoa, mas ela segurou o meu braço.
- Ei, o que houve? – perguntou ele segurando de leve o meu pulso. Olhei pra trás e dei de cara com um estranho. Um estranho muito lindo e loiro.
- Nada. – respondi fungando, limpando o rosto com pressa.
- Não fui eu, né? Eu não te vi, desculpa.
- Não, não tem nada a ver com você.
- Você estuda aqui? – continuou ele, soltando o meu pulso. Não tinha percebido que ele estava segurando por todo esse tempo. A pele onde ele havia tocado estava formigando.
- Sim, faço moda. Nunca vi você por aqui.
- Eu sou aluno novo. Prazer, Alex.
- . – respondi com um sorriso que não deveria estar ali. Qual era o meu problema? Estava cheia de gracinhas num momento crítico.
- Eu faço publicidade, achei que seria interessante assistir a essa palestra. Sabe sobre o que é?
- Não muito bem. Eu não sei de nada, na verdade.
Ele riu, senti meu rosto corar. O desgraçado era lindo e seu charme era um pouco familiar.
- Se sentar comigo podemos compartilhar a ignorância. Você pode até me contar, se achar adequado, o que te fez chorar.
- Hm... – olhei para a entrada, esperando encontrar . Nada. – Eu estou acompanhada.
- Namorado?
- Não, não. É um velho amigo.
- Não vejo problemas, então.
- Eu encontro ele depois.
O que eu, pelo amor de Deus, estava fazendo?????
Eu tinha acabado de levar um fora não-verbal do Danny e estava agindo como se ele não existisse. Pare com isso. É só um cara lindo bonitinho dando em cima de você. Nada incomum.
O acompanhei até sua poltrona e sentei do seu lado.
- Problemas amorosos?
- Como sabe?
- O jeito que você me olhou. O sofrimento estava transbordando junto com suas lágrimas. Ele deve ser muito importante.
- É.
- Ele te viu com o seu amigo e ficou chateado?
- Longe disso. Ele está me ignorando por motivos desconhecidos.
- Bom, ele está fazendo o contrário do que se deveria fazer com uma garota tão bonita como você. Sorte minha.
Sorri involuntariamente. Ô desgraça, mulher não resiste à cantadas desse tipo.
- É deprimente, não é motivo pra se comemorar.
- Pense pelo lado bom. Você me conheceu por causa dele.
- Primeiro lado bom na história até agora. Enfim, não quero falar dele. Você é de Londres mesmo?
- Sim, você também?
- Nasci aqui, mas minha família é do interior.
- Legal, que cidade?
- Bolton. Você conhece algum estudante já?
- Sou um peixe fora d’água. Achei que vir nessa palestra iria favorecer a minha socialização. Deu certo.
- Conversar comigo não é bem se socializar. Existem milhões de garotas mais sociáveis, eu sou apenas uma melancólica deslocada.
- Gosto das melancólicas. Dão um drama a mais na relação.
As luzes diminuíram e percebi que quase todos os lugares já estavam preenchidos. iria me matar. Uma agitação suspeita no palco principal. A palestra iria começar. O retroprojetor foi ligado e um vídeo começou a rodar no grande telão que eu também não tinha percebido estar ali.
No geral, foi tudo uma chatice. Explicaram detalhe por detalhe as táticas de se vender um produto, todo o esquema de oferta e procura e afins. A única coisa empolgante era a mão de Alex esbarrando na minha eventualmente, me deixando nervosa e com uma empolgação vergonhosa. Daí eu voltava a pensar no Danny e tudo desmoronava. Era sempre assim. Quando eu tinha um vestígio de alegria na minha vida, vinha o Danny e estragava tudo. Antes era porque a gente se odiava mesmo, agora é porque eu amo demais ele. E tudo me faz pensar nele. Ó Deus, todo poderoso, quando isso vai chegar ao fim?
A palestra terminou, as luzes se acenderam e meus olhos arderam pela claridade repentina. Alex se espreguiçou levantando os braços num movimento sexy e ensaiado, me deixando fora do ar por alguns segundos.
- Preciso procurar o , ele deve estar bravo comigo.
Levantei, ele levantou junto.
- Antes de você sair correndo de novo, não vai me dar a honra de me passar o seu telefone? Nossa relação não pode terminar tão cedo.
Eu ri.
- Olha Alex, minha vida amorosa está um lixo. Não sei se é o melhor momento pra gente ter qualquer coisa.
- Nossa, cortou todas as minhas esperanças pela raiz. Não, é sério, eu gostei de você. Não podemos ser amigos?
- Bom, daí tudo bem.
Abri minha bolsa e vasculhei uma caneta. Peguei sua mão e anotei o meu celular. Ele olhou pra mão com orgulho, ficando sério logo em seguida.
- Espero que não tenha colocado o número errado. Já caí nessa.
- Alguma garota já fez isso com você? – perguntei rindo.
- Não, mas nos filmes elas fazem.
- Não se preocupe, estamos na vida real. Se bem que se você fosse feio e chato eu poderia fazer isso tranquilamente.
- Obrigado.
- Prazer em te conhecer, mas agora eu preciso mesmo procurar o meu amigo.
- Nos vemos, então.
Ele me deu um beijo no rosto e eu me virei, sumindo por entre as pessoas. Meu rosto estava queimando.
Eu só me metia em encrencas. Quando eu achava que já tinha homem demais metendo o bedelho na minha vida, surgia mais um.
Não que isso seja ruim, mas só um me importava. E esse estava me ignorando.
A vida é mais do que sarcástica comigo.
Capítulo 10
Eu estava cansada de envolver as pessoas nos meus problemas com Danny, principalmente por ter ficado chateado com tudo o que aconteceu na noite da palestra na universidade. Consegui deixá-lo o dobro chateado depois de explicar que tinha sumido pelo fato de ter visto Danny e ele ter me ignorado, me fazendo chorar. Não iria mais envolver ninguém, só se perguntassem.
A semana seguinte se arrastou, não estava mais me tratando do mesmo jeito de antes. Estava distante, não fazia mais piadas e só falava o básico. Adivinhem se com Danny foi diferente? Foi sim, foi pior. Eu o via todos os dias de manhã, e ele virava o rosto, como se tivesse colocado os olhos numa qualquer que não fizesse diferença nenhuma em sua vida. O que ele estava fazendo? Será que tinha desistido do nosso amor defeituoso?
Eu não tinha, eu nunca desistiria. Não importa a forma que ele me tratasse, eu iria esperar. Pode parecer exagero, mas para uma pessoa que não está amando é difícil entender o lado de quem morreria por um amor. Na verdade é impossível, então eu peço que não me julguem, não me acusem por não ter orgulho ou amor próprio, ou mesmo dignidade. Eu tinha tudo isso, mas quando se trata de quem amamos, pouco importa.
Perguntava a John o que estava acontecendo com Danny, e o máximo que eu obtinha como resposta era “Ele deve estar muito ocupado com o estágio e os estudos” ou “Mary deve estar exigindo demais dele por causa do filho”. E ele logo trocava de assunto, me falando para ter paciência e não fazer nenhuma besteira. O que ele queria dizer com isso? Eu estava confusa e perdida, mas sabia que John estava ciente de tudo o que estava acontecendo com Danny. Eu tinha certeza que eles estavam se falando, pois John estava muito onisciente em relação ao assunto.
E ele não estava mais me beijando como antes.
Será que todos os homens decidiram me odiar de repente?
Quando John me beijava eu sentia como se ele estivesse com um pé atrás ou como se ele não devesse fazer aquilo. Não era mais a mesma coisa, e aquilo praticamente confirmava minhas suspeitas de que ele estava falando com Danny sobre nós.
Já haviam se passado duas semanas desde que eu tinha falado pela última vez com Danny (ou brigado, tanto faz) e estávamos mais distantes do que nunca. Meus dias estavam começando a se tornar uma obrigação cada vez que eu colocava os olhos nele e não era correspondida. Eu tentava ver o lado bom, encontrar algum motivo para não me atirar no Tâmisa e morrer dramaticamente, carregando comigo o amor agora não tão correspondido por Danny, mas a curiosidade em saber se o final daquilo tudo iria ser tão deprimente assim me dava alguma esperança.
Eu acreditava no amor e isso bastava.
Foi com esse pretexto meloso e cheio de esperanças que juntei toda a coragem que eu tinha e, na sexta-feira da segunda semana, eu fui até o aquário procurar por Danny.
Agora vocês se perguntam se tem algo de sensato em correr atrás de um cara que antes transava com você com todo o amor que ele tinha e agora nem olha mais pra sua cara.
Não tem, mas eu precisava saber o que estava acontecendo. Qualquer outra no meu lugar usaria John para fazer mais ciúmes e esperaria Danny se render, mas eu já estava cansada de fingir que conseguia viver sem ele. Do que adianta ter orgulho e não ter Danny? Foda-se o orgulho, ele mais atrapalha do que ajuda.
Menti para Alice, dizendo que precisava resolver uns problemas na universidade, porque eu sabia que ela não iria concordar e iria começar a fazer um discurso de dignidade que eu não estava afim de ouvir. Simplesmente porque ela não entenderia, nem ela nem ninguém.
Eu estava hesitante, receosa, com vergonha, indecisa, insegura, com medo da rejeição. Apesar de tudo, alguma coisa me dizia que eu precisava entrar naquele lugar e entender o que estava acontecendo. Não poderia passar mais uma noite em claro refazendo meus passos e procurando erros que eu poderia ter cometido.
O táxi parou em frente ao London Aquarium e eu desci, agradecendo por não estar tão lotado como eu achava que estava. Agora era torcer para Danny não estar muito ocupado com turistas e responder aos meus questionamentos. Se é que ele me daria respostas, ele poderia muito bem mandar eu me foder e nunca mais procurá-lo.
Tudo dependia da minha coragem de entrar lá.
Comprei o ingresso mais barato, e quando fui pagar minha mão estava tremendo tanto que o vendedor da bilheteria perguntou se eu estava bem e se precisava de alguma assistência. Eu disse que tinha Parkinson nível 1, e que não tinha tomado meus medicamentos. Ele recomendou que eu tomasse, tolo rapaz. Meu único remédio estava dentro daquele aquário, em meio aos peixes, fazendo seu digno trabalho de biólogo.
Oh Deus, a ficha tinha caído.
Entreguei o ingresso para um dos funcionários, depois de enfrentar uma fila significativa, e tentei desviar ao máximo das pessoas mais lentas, que paravam para fotografar qualquer peixe dourado que se mexia na primeira ala. Como eu iria descobrir onde ele estava? O lugar era gigante, cheio de corredores e alas de animais. No primeiro dia que o vi, Danny estava na parte das tartarugas, então andei meio apreensiva, lembrando do caminho que tinha feito. Ele não estava lá, claro.
Havia, porém, uma garota de uniforme falando sobre a alimentação das tartarugas, então esperei ela terminar e os turistas se afastarem para perguntar o paradeiro de Danny.
- Hun, oi – falei meio hesitante. – Pode me dar uma informação?
- Claro! Sobre as tartarugas? – respondeu ela empolgada.
- Não exatamente, estou procurando uma pessoa que trabalha aqui. Talvez você não conheça.
- Qual o nome dela?
- Ele, meu primo Daniel Jones. Está fazendo estágio aqui e é estudante da Universidade de Londres.
Ela pensou um pouco, deveria haver milhões de pessoas trabalhando ali. Ou não.
- Ele é do interior, não é?
- Isso mesmo.
- Sei quem é, um garoto muito simpático, aliás! Eu vi ele há uma meia hora atrás se preparando pra alimentar as arraias. Não sei se vai conseguir falar com ele, porque, bem, ele deve estar submerso.
- Como assim?
Ela estreitou os olhos, não acreditando na minha lentidão.
- Mergulhando, em baixo da água, dentro do aquário. Bom, faça o seguinte – Ela tirou um mapa dos corredores do bolso e apontou a área das arraias. – Siga esse mapa até as arraias, se alguém estiver mergulhando, é ele. Faça algum sinal ou sei lá, ele vai falar com você depois de terminar.
- Muito obrigada.
Danny mergulhando com arraias não me pareceu uma atividade muito segura, então tive um pouco de pressa para chegar logo até onde ele estava.
Não demorou muito, era perto dali. Só que tinha muita gente assistindo. E eu confesso, fiquei impressionada. Eu não sabia que Danny sabia mergulhar, então um certo constrangimento tomou conta de mim por não conhecer tanto assim o cara que eu amava. O que mais ele sabia fazer que eu desconhecia?
Era encantador vê-lo nadar com aqueles animais, e eu sabia que era ele e não poderia ser mais ninguém. Por mais que a roupa escondesse completamente sua aparência, para mim era totalmente reconhecível. Seus movimentos, seu carinho com os animais, aquilo só ele tinha. Ele acenou para as pessoas que acenaram de volta empolgadas, rindo e se divertindo. Meu olhos lacrimejaram, eu sentia orgulho dele. Eu sentia orgulho do meu primo caipira e aquilo me emocionava. Quem era eu e o que eu tinha feito comigo mesma?
Danny se despediu das pessoas que assistiam e subiu, sumindo de vista. A multidão se dispersou e eu me dirigi ao único funcionário ali presente.
- Eu poderia falar com o mergulhador?
Ele me olhou estranho, com uma cara irônica.
- Algum motivo especial ou apenas se encantou?
- Eu sou prima dele e preciso falar com ele. É urgente.
- Como é o seu nome?
- .
- Vou lá dentro perguntar se ele pode falar com você, espere aqui.
Meu coração disparou. Danny seria informado de minha presença. Ah, meu Deus.
O funcionário voltou alguns minutos depois, de uma porta lateral e preta ao lado do vidro. Fez sinal para eu me aproximar, sem sair de dentro.
- Não fazemos isso nunca, mas como ele confirmou o parentesco eu vou deixar você entrar.
Ele deu espaço e eu entrei, depois ele fechou a porta. Ao contrário do que eu pensava, ali dentro era tudo branco e meio pacífico. Uma escada bem à frente interrompia o corredor.
- Ele ficou muito surpreso. Não querendo me intrometer mas... vocês não se falam?
- É complicado.
- Ele gosta muito de você, né?
- Por quê? – perguntei assustada, enquanto subíamos as escadas por um corredor estreito. Ele ia na frente.
- Porque ele sorriu e ficou vermelho. Depois tentou disfarçar, mas eu saquei tudo.
- Somos primos, nada mais. Assunto de família.
- Hm, entendo.
Chegamos finalmente no topo da escada, que na verdade era uma área grande, fria, meio fedorenta, branca e molhada. Era a superfície do aquário das arraias, onde eram tratadas pelos funcionários. Eu nunca tinha entrado num lugar assim, era meio legal até. Achei tudo lindo e incrível, até colocar os olhos em Danny. Ele estava sentado na borda do tanque, ainda vestido com a roupa de mergulhador, e tentava tirar os pés de pato.
Eu quase vomitei de tão nervosa.
- Bom, ele está ali. Desculpe pelo fedor e pelo frio, mas você que quis falar com ele.
- Não tem problema, muito obrigada. Sério mesmo.
- Às ordens. – respondeu ele, fazendo um sinal positivo de despedida para Danny e desceu as escadas, desaparecendo.
Danny colocou os pés de pato de lado, tirou a máscara da cabeça e levantou, bagunçando os cabelos, tentando arrumá-los. Se aproximou enquanto tentava abrir o fecho da roupa.
- Oi. – disse ele simplesmente enquanto lutava com o fecho.
- Oi. – respondi, e minha voz falhou, claro.
- Aconteceu alguma coisa? – perguntou ele depois de alguns segundos de silêncio tenso. Ele ainda lutava com o fecho.
- Quer ajuda? – perguntei por impulso, o observando se contorcer.
- Seria ótimo. – disse ele, se virando de costas.
Ótima ideia, .
De verdade, você é muito esperta.
Já não bastava a constante tensão sexual que se formava quando estávamos juntos, era quase que natural. E agora eu tinha que dar mais um motivo para essa tensão aumentar, me oferecendo para abrir um fecho que ia praticamente até a bunda dele. Por que eu tinha o dom de atiçar os problemas?
Abaixei o fecho tentando não olhar a pele que aparecia aos poucos de suas costas nuas. Parei em um nível seguro, um pouco acima do cóccix.
Ele se virou novamente, tirando as mangas e abaixando toda a parte de cima da roupa.
Ele ficou quase pelado, na minha frente.
Tudo bem, ainda usava a metade inferior da roupa, mas mesmo assim era provocante demais para mim. Tentei focalizar seu rosto.
- Faz frio aqui, né? – falou ele, esfregando os braços. Uma mulher se aproximou, concentrada numa prancheta, e entregou sem nos olhar uma toalha branca para ele.
- Você precisa estar pronto em quinze minutos.
- Tudo bem, obrigado. – concordou ele, secando o tronco e enrolando a toalha pelos ombros.
- Pode falar agora.
Coragem, chegou a hora. Apareça, onde está você? Desgraçada.
- Eu, hun, queria saber, bem, o que está acontecendo?
- O que quer dizer?
Tive vontade de estrangulá-lo. Ele tinha que dificultar.
- Por que não está mais falando comigo? Por que está me ignorando? Tudo o que você sentia por mim não existe mais, é isso? Fiquei sozinha com esse sentimento errado e insistente?
Larguei tudo de uma vez, sem respirar, como se eu tivesse corrido uma maratona e estivesse falando pela primeira vez depois de horas correndo.
Ele engoliu em seco, me olhando nos olhos. Quando ele fazia isso, eu sentia que ele podia ver tudo dentro de mim, inclusive por trás das roupas.
Ele também respirava sem fôlego, só que com menos intensidade e mais discretamente.
- Estou tentando seguir minha vida.
- Ah, é isso? Você simplesmente aceitou o fato de que não podemos ficar juntos e parou de me amar? Não sabia que era fácil assim. Me ensine, porque eu realmente preciso aprender.
- Não parei de te amar em nenhum momento. Só estou tentando seguir em frente, um dia você vai entender. Eu juro, vai fazer sentido. Mas não podemos ficar juntos, eu sinto muito. Mary precisa de mim mais do que você.
Ah, o doce tapa na cara verbal. Eu podia ter ficado sem aquela resposta, de verdade.
Eu não sabia o que falar.
- Tudo bem, então. Obrigada por me atender.
Me virei em direção às escadas mas ele segurou minha mão, sua temperatura estava quente. Eu estava tremendo de frio, e ele, mesmo molhado, estava quente.
Limpei uma lágrima e o olhei novamente.
- Eu realmente sinto muito. Por favor, não chore por mim. Eu não mereço. Fique com John.
- JOHN? – falei um pouco alto, e alguns funcionários me olharam. – Você é muito insensível mesmo, Daniel.
- Você vai entender no final, eu prometo.
- Que final? Como você já sabe o final disso?
- Não sei, mas quando ele chegar, eu estarei com você.
Meu nariz começou a coçar, indício principal de lágrimas destruidoras. O que ele queria? Me fazer chorar ou não? Decida-se, garoto cruel.
Eu me soltei de sua mão e andei rápido na direção das escadas, sem olhar pra trás.
Eu poderia simplesmente fingir que aquela tarde não tinha acontecido, mas minhas lágrimas me denunciavam e não me deixavam esquecer do fora depressivo que levei de Danny e, principalmente, do jeito apaixonado que ele fazia aquilo. O cara conseguia me dar o fora e ao mesmo tempo se declarar, e é aí que eu percebo que minha vida está mais confusa que fones de ouvido enrolados.
É, mas eu continuava com raiva. Raiva por ele não pensar na minha situação, não se colocar no meu lugar e agir de um jeito egoísta, como se ele fosse o único do relacionamento conturbado. Sinto muito, Daniel, mas somos dois. E um dos dois não concorda com o que você está fazendo.
Cheguei em casa aos prantos, é claro, e pra facilitar Alice estava estudando na sala. Já entrei dando de cara com problema.
- O QUE VOCÊ FEZ?
Engraçado que ela pergunta o quê eu fiz, e não o que fizeram comigo. Com amigas assim você já tem inimigas. Expliquei o que tinha acontecido naquela tarde, recebi o sermão que tentei evitar e ainda lição de moral.
Você não tem orgulho próprio? Onde está a sua dignidade?
Eu falei que ninguém iria entender o meu lado. Será que eu podia ficar sem receber conselhos por, tipo assim, uma noite? O que eu menos precisava naquele momento era uma amiga me enlouquecendo.
Me tranquei no meu quarto, me enfiei embaixo das cobertas e coloquei mais lágrimas pra fora. Eu provavelmente já tinha chorado um tanque naquele mês. Dava pra suprir a África inteira.
Depois de duas horas alagando meu quarto, recebi uma ligação que salvaria minha noite. Ou não, eu teria de pagar pra ver.
- ?
Não reconheci de primeira aquela voz, mas depois de dois segundos veio uma imagem na cabeça. Levantei com o coração pulando.
- Alex? – perguntei receosa.
- Nossa, me falaram que minha voz é diferente no telefone. Acho que mentiram.
- Por que me ligou?
Eu não estava brincando mesmo.
- Ah, sei lá, eu não tenho nada pra fazer hoje. Achei adequado esperar um tempo pra te chamar pra sair. Você disse que estava toda enrolada com seus amores aí, era melhor esperar a poeira abaixar.
A poeira só aumentou, se quer saber.
- Na verdade é o momento perfeito.
- Jura? Então vamos logo pra um motel. Brincadeira! O que acha de um pub? Eu conheço um ótimo, muito bem freqüentado.
- Ótimo, anote meu endereço. Estarei pronta em quinze minutos.
Lhe ditei a rua e o número e desliguei, abrindo logo em seguida o armário, limpando as lágrimas começando a escolher a roupa mais ousada possível.
Eu estava prestes a fazer uma merda, mas a raiva era muito maior.
Acontece que eu tinha um obstáculo muito difícil de ultrapassar, e esse obstáculo se chamava Alice.
- O que está fazendo?
Sem parar de atirar as roupas pro alto, procurando algo adequado pro momento, resmunguei qualquer coisa indecifrável em resposta. A sina de morar com amigas. São comparáveis a mães.
- , me responda direito!
- Eu não te devo satisfações. Me deixe em paz.
- Me responda. Aonde vai?
- Alice, sai do meu quarto.
- Não enquanto não me explicar o que está acontecendo. É o Danny de novo?
- NÃO!
- É sim.
- EU VOU SAIR COM O ALEX! AGORA ME DEIXE SOZINHA!
- Você não vai fazer isso.
- Quem é você pra me impedir?
- Sua melhor amiga que quer o seu bem. Você vai se arrepender, chega de confusão. , para com isso. Sair com um desconhecido não vai fazer o Danny mudar. Você já tentou fazer ciúmes com o John e só conseguiu brigar com seu primo.
- Eu não quero fazer ele sentir ciúmes, que merda! Só estou tentando esquecê-lo, como ele mesmo está fazendo.
- E você realmente acha que saindo com qualquer um vai funcionar?
- Eu decido o que é melhor pra mim.
- Pode ser perigoso, você não conhece ele.
- Eu sei me cuidar, agora com licença.
Empurrei ela levemente pra fora do quarto e tranquei a porta. Eu precisava fazer aquilo, ninguém iria me impedir.
° ° °
Eu não conseguia me concentrar no que estava lendo. Chegava no meio do parágrafo e eu já estava totalmente disperso, pensando na merda que eu tinha feito. Ou melhor, em mais uma merda que eu tinha feito. Porque afinal é só isso que eu sei fazer, e eu tinha certeza que aquilo não ia dar certo. Digo, fingir que está tudo bem e mais uma vez dar um fora na garota que eu amo. Conheço ela e sei que quando está com raiva faz coisas que se arrepende depois, e aquilo estava me enlouquecendo. Como eu era capaz de ficar estudando em casa como se nada tivesse acontecido hoje de tarde?
Eu era uma bosta.
E aí o meu celular tocou.
- DANNY?
O grito do outro lado foi tão alto que eu deixei meu livro cair no chão, em cima do meu pé. Aquilo pesava uns cinco quilos. Doeu pra caralho. Gemi de dor antes de responder um “eu” todo errado.
- É A ALICE, LEMBRA?
- Alice? Amiga da ? O que houve?
- Você precisa ir atrás dela. Faz uns quinze minutos que ela saiu não sei pra onde com um cara desconhecido.
- O QUÊ? Você não sabe pra onde eles foram? Como eu vou atrás dela?
Eu já estava de pé colocando os sapatos e checando quanto eu tinha de dinheiro na carteira pra pegar um metrô sabe-se lá pra onde enquanto Alice cacarejava nos meus ouvidos que havia se rejeitado a revelar o lugar pra onde tinha ido quando lembrei de um detalhe. Um detalhe muito importante e útil. Meu pai tinha me dado uma moto na última semana, e eu ainda não estava acostumado com o fato de ter um veículo próprio. Fiz de tudo para ele mudar de ideia, eu estava bem me transportando de metrô, mas ele insistia em dizer que eu precisava de algo pequeno e prático. Na verdade eu odiava motos, John que gostava e tinha usado algumas vezes nas últimas semanas.
- Não lembra nem se era um restaurante, um pub, um shopping?
- ERA UM PUB! Liga pra ela e pergunta! Ela pode estar sendo estuprada.
- Pare de me deixar nervoso! O John não cumpre com nenhum acordo, aquele imbecil!
- O quê?
- Nada. Eu vou ligar pra ela, obrigado por avisar.
- Ela nunca vai te falar, provavelmente vai desligar na sua cara.
- Na sua também, pelo que estou vendo.
- É mais fácil ela falar pra mim do que pra você.
- É aí que você se engana.
Enquanto descia as escadas do prédio, eu tentava achar na minha agenda do celular. O problema é que eu estava com pressa, tremendo, nervoso e desesperado. Finalmente vi seu nome na tela e cliquei quinhentas vezes, quase afundando o botão.
É óbvio que ela não atendeu de primeira.
Eu já estava na frente da minha moto no estacionamento, pegando o capacete quando ela resolveu atender. Depois de umas dez tentativas.
° ° °
Confesso, eu estava apavorada. O lugar era assustador, só bêbados mal encarados freqüentavam, e era tipo uma espelunca cheio de prostitutas e motoqueiros assassinos. No que eu tinha me metido, senhor?
- Bom, parece que mudou desde a última vez que eu vim.
Foi o que Alex disse me fazendo sentar em uma mesa.
- Não quer ir pra outro lugar? Estão nos encarando.
- Esqueça eles, não estão incomodando.
Um gordo sujo parou na nossa frente e perguntou o que a gente queria ali. Sério, foi bem assim. Alex pediu duas cervejas e sorriu, me olhando.
- Vamos, não fique com essa cara de assustada. Eu estou com você, eles não vão fazer nada. Coloque a cadeira pra cá.
Fiz o que ele falou e aproximei minha cadeira da dele. Quando sentei novamente senti meu celular vibrar no bolso da jeans. Xinguei Alice mentalmente, enquanto abria a tela.
Encarei o nome de Danny e quase tive uma parada cardíaca. Ignorei, colocando no silencioso, mas o celular continuou vibrando por mais dez minutos. Pedi licença para Alex e levantei, me afastando sob os olhares de homens estranhos e horrorosos.
- O que quer, seu idiota?
- Qual o nome do pub onde você está?
- O quê? Como sabe que... Alice. Eu vou matar ela.
Desliguei o celular, mas ele tocou cinco segundos depois.
- Eu não vou te falar, afinal você está tentando me esquecer. Pare de me incomodar.
- É sério, , eu não estou brincando. Onde você está e com quem? Será que é difícil ter um pouco de responsabilidade?
- Será que é difícil você parar de ser um completo babaca? Não me ligue mais, está atrapalhando meu encontro.
Finalizei a ligação e desliguei o celular. Ele só podia estar brincando.
Voltei pra mesa, as cervejas já tinham chegado e Alex já estava bebendo.
- Você está com cara de quem precisa beber.
- Eu sei, passa isso pra cá.
Bebi um copo inteiro numa levantada, e aquilo me deu um pouco de enjôo, mas eu continuei bebendo.
- Por que aceitou sair comigo? – perguntou Alex rindo depois de nossa quarta rodada em silêncio.
- Porque eu preciso esquecer. – respondi rindo igualmente. Eu já estava fora de mim, aquilo não iria dar certo.
- Esquecer o Danny?
Eu parei de rir. Nunca tinha falado do Danny na frente dele.
- Como sabe que o nome dele é Danny?
Ele continuou rindo, ainda mais.
- Eu sei de tudo. E vou te ajudar.
Alex segurou meu rosto e grudou nossos lábios delicadamente. Não senti prazer nenhum, apesar de ele ser estrondosamente bonito. Senti sua mãos nas minhas coxas descobertas e não o impedi de nada.
Intercalávamos beijos, risadas e goles de cerveja. Eu estava me sentindo uma daquelas prostituas, mas chega um momento em que o álcool alivia suas culpas e parece que independente do que você fizer, não vai importar depois. É, não é bem assim.
Alex me beijava enfurecidamente, segurando minha cintura por dentro da blusa quando fomos interrompidos por uma voz embriagada.
- Quanto está a hora dela? Vai demorar muito?
Alex o olhou tenso.
- Cale a boca.
- Com quem você pensa que está falando, seu merdinha? Libera essa puta logo se não eu te quebro.
- Nos deixe em paz. – respondeu ele com um sorriso nervoso. O que ele estava fazendo? Nem pra me defender? Me levar numa espelunca daquelas e arregar pra um gordo fedorento? Eu estava bêbada mas não era surda. Só que as palavras não saíam da minha boca.
- Você vai se arrepender.
- Chega dessa palhaçada, Frank. Volte pro seu lugar.
O dono do bar interrompeu a discussão e o gordo nojento (que era bem parecido com o próprio dono) se afastou resmungando. Eu estava com lágrimas nos olhos, e Alex simplesmente continuou bebendo.
- Que idiota. – disse ele depois de um tempo.
- Por que não fez nada? – perguntei rejeitando um novo copo de cerveja.
- Fazer o que? Vai levar a sério o que ele disse?
- Você é inacreditável.
- Ahh, para vai. Vem aqui, esquece isso.
Ele me puxou tentando me beijar novamente, mas eu virei o rosto. Ele começou a beijar meu pescoço, me segurando com força, estava difícil de me desvencilhar.
A única coisa que eu consegui perceber depois de um minuto tentando me soltar de Alex foi o próprio sendo puxado pra trás, levando um soco e caindo deitado no chão. Minha vista estava meio turva e eu imaginei que fosse o gordo nojento me querendo, então comecei a chorar desesperada. Até ouvir a voz.
- Encoste nela de novo e você vai ver o que é um soco. Isso não foi nada.
Danny puxou Alex do chão pela camisa e o empurrou até a parede. Eu estava em prantos, não sabia se era de alívio, medo, desespero. Acho que tudo junto.
- Ouviu? Qual é o seu problema, trazer uma garota pra cá?
Alex não respondeu, estava tremendo. Danny era mais forte, isso metia medo em algumas pessoas. Até em mim.
- Espero que tenha entendido, ela não é pra você.
Ele soltou Alex que se apoiou nos joelhos, cuspindo sangue no chão. O gordo dono do bar estava berrando para sairmos dali, e o gordo nojento ria de tudo, principalmente de Alex.
- Você está bem? – perguntou Danny estendendo a mão e pegando a minha. Saímos do pub e eu desatei a chorar novamente. Como se eu tivesse parado, né.
- Não. – gemi parando de andar e afundando o rosto no peito dele.
- Por que fez isso, ? Eu quase morri de preocupação.
Ele me abraçava pela cintura e seu perfume fez eu me acalmar um pouco. Lembrei do gordo nojento me chamando de puta e voltei a chorar feito um bebê. Meu sobrenome era sensível, muito prazer.
- Me chamaram de puta. – choraminguei sem o olhar. Ele me abraçou mais forte, subindo uma das mãos para as minhas costas.
- O cara que estava com você?
- Não, um gordo estranho. Ele perguntou o preço e tudo. – falei chorando e Danny me encarou com piedade, depois deu um beijo no meu rosto.
- Vamos sair daqui.
- Não quero que me ajude por pena.
- Estou te ajudando porque eu te amo.
Cinco lágrimas escorreram sucessivamente e eu comecei a soluçar. Ele me olhou de cima a baixo, balançando a cabeça em negação.
- Por que está vestida assim? Essa não é a minha prima. Não acredito que fez isso, .
- Pare de me questionar, foi tudo culpa sua.
- Você sabe que não é verdade. O seu orgulho sempre acaba te levando a fazer coisas que você não está com vontade e sabe que é errado.
Ele me conduziu até uma moto, eu nem sabia que ele tinha uma moto, e me entregou um capacete.
- Coloque, conversamos depois, você nem está sóbria. O que esse cara fez com você, meu Deus?
Coloquei o capacete séria, tentando parar de chorar. Eu sabia que ele não queria discutir comigo porque simplesmente é um saco discutir com quem está bêbado.
Ele colocou o próprio capacete e subiu na moto.
- Suba e se segure em mim.
Fiz o que ele pediu, ou melhor, fiz a metade do que ele pediu.
- Se segure direito. Esqueça seu orgulho por um minuto, não tem outro jeito de andar de moto sem ser como você está pensando.
Grunhi e o abracei por trás. Ele deu a partida e saímos dali, deixando pra trás toda a confusão que eu consegui fazer em poucas horas.
Continua...